quarta-feira, 11 de outubro de 2017

A Morte Te Dá Parabéns

Feitiço do Tempo logo vem em mente sempre que surge um novo filme que utiliza a estrutura de loop temporal para contar sua história, focando em um protagonista preso em um determinado período de tempo que se repete várias vezes e exatamente da mesma forma. É um recurso capaz de render uma narrativa que mantém o espectador curioso quanto a seu desenvolvimento, tendo originado outras obras admiráveis além da clássica comédia de Harold Ramis, com No Limite do Amanhã, Contra o Tempo e Corra Lola, Corra sendo exemplos disso. No entanto, infelizmente não consigo dizer que este A Morte Te Dá Parabéns se junta a essas produções.

Escrito por Scott Lobdell, A Morte Te Dá Parabéns acompanha Tree Gelbman (Jessica Rothe), jovem e arrogante estudante que inicia seu aniversário acordando no dormitório do tímido Carter (Israel Broussard) após uma noite de festa. Mas depois de seguir com seus compromissos ao longo do dia, ela é assassinada por um maníaco mascarado, ficando surpresa por isso fazê-la voltar a acordar no início do mesmo dia e nas mesmas condições de antes. Vendo-se presa nesse tempo, Tree passa a tentar descobrir quem está querendo mata-la, tendo diversas chances para resolver isso e contando com a ajuda de Carter.


A Morte Te Dá Parabéns não deixa de ser uma espécie de remake de Feitiço do Tempo, tendo em vista o arco dramático percorrido por Tree, que é basicamente o mesmo que o de Bill Murray naquele longa. Mas não é tanto isso que impede a produção de cativar o espectador, já que a ideia de usar essa estrutura de loop temporal em um filme de slasher (o subgênero de terror conhecido por ter um assassino geralmente mascarado que coleciona vítimas) não deixa de ser curiosa. A maneira como as coisas se desenvolvem por aqui é que incomoda por sua obviedade, algo que vale mesmo quando o roteiro tenta ser sutil, como na cena em que a protagonista desliga a TV em meio a uma notícia importante (aliás, é triste que esse recurso batido e preguiçoso ainda seja usado para apresentar informações). Com isso, o filme pode até querer surpreender com algumas reviravoltas, mas acaba não causando impacto por não conseguir impedir o espectador de antecipa-las.


Isso ocorre até por conta da direção de Christopher Landon (responsável pelo razoável Como Sobreviver a um Ataque Zumbi e pelo pavoroso Atividade Paranormal: Marcados Pelo Mal), aspecto que se revela meio pedestre durante boa parte do tempo. Apesar de criar um ou outro momento divertido (um personagem repentinamente surge na tela após uma breve queda de luz, por exemplo) e exibir coordenação na condução das diversas vezes em que Tree acorda e sai andando pelo campus da universidade, Landon ainda assim não evita de cair em clichês como o uso da trilha para ressaltar sustos, além de não criar tensão quando precisa, seja nas várias sequências de assassinato de Tree ou nos embates do terceiro ato. Para completar, o lado mais humano da história (calcado no passado da protagonista com a mãe e os atuais problemas dela com o pai) acaba apenas sendo fonte para o cineasta apostar num sentimentalismo barato, como se isso compensasse o desenvolvimento superficial dessa subtrama do filme.

É até louvável o esforço de A Morte Te Dá Parabéns para fazer algo de diferente em uma produção cujo subgênero é tão engessado por fórmulas e convenções. Mas ao mesmo tempo é lamentável que o máximo que os envolvidos no projeto conseguiram fazer foi um filme bobo e facilmente esquecível.

Nota:

sábado, 7 de outubro de 2017

Blade Runner 2049

Lançado em 1982, Blade Runner é um exemplo de como o tempo pode ser importante para a recepção de uma obra de arte. Adaptado a partir do livro de Philip K. Dick, o filme de Ridley Scott precisou de alguns anos (e várias versões) para ser reconhecido como um grande clássico, sendo não só um excelente neo-noir, mas também uma ficção científica que mergulha de cabeça em discussões sobre humanidade, rendendo até hoje belos debates. Trata-se também de um filme que termina de maneira bem resolvida, fazendo a ideia de uma continuação naturalmente soar desnecessária. Por sorte, com Blade Runner 2049, o diretor Denis Villeneuve e sua equipe conseguem levar essa ideia às telonas em um longa que mantém o espírito do original, fazendo jus a este.

Escrito por Michael Green e Hampton Fancher (um dos roteiristas do original) a partir do argumento deste último, Blade Runner 2049 se situa trinta anos após os eventos do longa anterior e segue os passos de K (Ryan Gosling), replicante que trabalha como blade runner (ou caçador de androides) para a polícia de Los Angeles, no departamento liderado por Joshi (Robin Wright). Após um encontro com o fazendeiro Sapper Morton (Dave Bautista), K embarca em uma grande investigação que pode revelar segredos importantes e que ainda o leva até o antigo blade runner Rick Deckard (Harrison Ford).


É uma investigação muito bem estruturada, por sinal, permitindo que Denis Villeneuve até repita muito do que havia feito no excepcional Os Suspeitos. Ou seja, além de desenvolver a história com calma, o diretor apresenta determinadas peças com naturalidade e sutileza, de forma que elas podem aparentar não ter importância inicialmente, mas surpreendem ao ganharem sentido mais tarde. No entanto, vale dizer que tudo isso na verdade é usado mais como base narrativa pelo roteiro, cuja ambição principal nivela com aquela do filme original ao ter um interesse maior em dar continuidade aos temas com os quais nos familiarizamos há 35 anos, evitando seguir por caminhos simples para isso.

Sendo assim, Blade Runner 2049 aproveita a riqueza de seu universo para expandir ideias fascinantes, o que faz a investigação conduzida por K representar uma espécie de jornada tanto pela natureza humana quanto pela natureza replicante. E com humanos e replicantes se parecendo cada vez mais (estes até já contam com uma certa divisão ideológica), o filme levanta questões curiosas. Afinal, o que realmente diferencia um do outro? O fato de humanos nascerem e replicantes serem construídos? Isso faz os primeiros supostamente terem alma e os outros não? E se este é o caso, como seria se replicantes pudessem se reproduzir? Questões como essas sempre fizeram parte do cerne de Blade Runner (tanto do primeiro filme quanto do livro de Philip K. Dick), e aqui ajudam a tornar a narrativa muito intrigante, sendo capaz de nos fazer refletir sobre o que é ser humano no fim das contas. E o roteiro é inteligente ao instigar esses pontos sem sentir a necessidade de entregar respostas fáceis, presando muito pela ambiguidade e convidando o espectador a tirar suas próprias conclusões em cima de tudo o que é apresentado.


Ao mesmo tempo, assim como Ridley Scott havia feito em 1982, entrar nesse universo distópico não é uma experiência que Denis Villeneuve torna agradável, já que por mais que ele renda imagens esteticamente belas, ainda se trata de um mundo futurista desesperançoso, dominado por grandes corporações e habitado em boa parte por figuras renegadas. Com isso em mente, Villeneuve impõe um ritmo bastante cadenciado, o que ajuda na ambientação opressiva pela qual passamos durante todo o filme. Além disso, o design de produção faz um trabalho primoroso ao conceber a Los Angeles de 2049 como um lugar que, apesar de ter evoluído tecnologicamente ao longo dos anos, ainda é a metrópole imponente e desolada que conhecíamos, ao passo que a belíssima fotografia do mestre Roger Deakins (desde já um forte concorrente ao Oscar) preenche aqueles espaços com tons sombrios que refletem o estado de espírito dos personagens e da própria narrativa. Isso entra em contraste direto com locais como a empresa do vilão Niander Wallace (Jared Leto) e o esconderijo de Deckard, que surgem na tela com tons mais vivaz que ressaltam o poder do primeiro e o deserto que domina os arredores do segundo. Já a trilha composta por Hans Zimmer e Benjamin Wallfisch consegue dar toques melancólicos e tensos a narrativa, sendo eficiente também em seus esforços para manter o estilo da clássica trilha que Vangelis fez para o primeiro filme.


Mostrando admirável segurança interpretando K, Ryan Gosling faz do novo protagonista uma figura que se deixa agir pela frieza, evitando exibir um senso de empatia até por outros replicantes, algo que naturalmente o ajuda em seu trabalho. É como se o fato de ele saber que é um replicante o fizesse não ver razão para exibir humanidade, algo sinalizado até pelo desinteresse dele em querer compartilhar uma de suas memórias em determinada cena (“Não são reais, são só implantes”, ele diz). Exatamente por conta desses detalhes é que o arco dramático percorrido por ele se revela tão rico. E se Ana de Armas vive Joi, a namorada digital de K, com uma bem-vinda doçura, formando com Gosling um elo emocional que ajuda a dar peso dramático aos dois personagens, Harrison Ford retorna ao papel de Rick Deckard com uma sensibilidade até maior que a da primeira vez em que encarnou o velho blade runner, dando mais densidade àquele que é, ao lado de Indiana Jones e Han Solo, um de dos personagens icônicos de sua carreira. Fechando o elenco principal, Robin Wright se destaca ao fazer de Joshi uma figura forte em sua autoridade, ao passo que Jared Leto vive o ambicioso Niander Wallace de maneira contida e com um constante ar de mistério que o torna um vilão imprevisível.

Ultimamente temos visto franquias famosas ganharem nova vida nos cinemas, com exemplos admiráveis em Mad Max, Star Wars e Caça-Fantasmas. Em meio a isso, Blade Runner 2049 surge como uma experiência surpreendente e enriquecedora. Uma continuação digna da obra-prima que a originou.

Nota:

quinta-feira, 21 de setembro de 2017

mãe!

(Obs.: Ao escrever sobre o filme, não pude evitar comentar alguns spoilers da trama. Portanto, caso não queira saber detalhes importantes sobre o longa, recomendo que retorne ao texto após assisti-lo.)

Darren Aronofsky não é um diretor conhecido por conceber experiências particularmente agradáveis para o espectador. A maioria de seus filmes exibe uma riqueza construída através de narrativas que, em maior ou menor grau, se revelam provocativas e inquietantes. Isso se repete neste mãe!, que dentro da carreira do diretor dialoga bastante com seus dois últimos trabalhos, Cisne Negro e Noé. Enquanto se desenvolve como um terror psicológico, o longa conta uma história cuja alegoria é claramente baseada em elementos bíblicos, o que Aronofsky usa com inteligência para discutir questões muito pertinentes com relação ao mundo em que vivemos e a sociedade que formamos.

Escrito pelo próprio Darren Aronofsky, mãe! traz Jennifer Lawrence interpretando a personagem-título, que vive em uma bela e isolada casa ao lado do marido (chamado de Ele e interpretado por Javier Bardem). Enquanto ela se esforça para reformar o lugar, que há algum tempo foi palco de uma tragédia, Ele luta contra um bloqueio criativo que o impede de continuar seu aclamado trabalho como poeta. É nesse contexto que eles recebem a visita do Homem e da Mulher (Ed Harris e Michelle Pfeiffer, respectivamente) e, a partir disso, estranhos eventos passam a ocorrer, quebrando a tranquilidade que reinava até então.


Trazendo um universo no qual a Mãe surge como a única figura de bom senso na história, o filme consegue se apresentar como um exercício de gênero bastante eficiente, já que tudo durante a projeção parece se recusar a ocorrer de acordo com o que a protagonista planeja. A partir disso, com a ajuda da fotografia de Matthew Libatique (que aposta quase sempre em tons sombrios), Darren Aronofsky é hábil ao criar uma verdadeira atmosfera de pesadelo que se faz presente durante todo o filme, impondo gradualmente tons surreais que impressionam pelos absurdos que exibem. Tais detalhes naturalmente criam um constante desconforto, o que ocorre principalmente por conta de nossa identificação com a protagonista e a situação em que se encontra. A Mãe, por sinal, é interpretada com talento por Jennifer Lawrence, que encarna convincentemente a sensação de deslocamento da personagem e sua vulnerabilidade, além da força que ela passa a encontrar a partir de seu profundo descontentamento com tudo o que presencia.

Mas as discussões que Darren Aronofsky traz para a narrativa fazem de mãe! um filme que vai além da tensão que proporciona. Desde o princípio, não podemos dizer que o diretor é sutil ao estabelecer as raízes bíblicas da trama que desenvolve, seja ao trazer um personagem com um ferimento na altura das costelas, uma cena envolvendo dois irmãos (vividos por Domhnall Gleeson e Brian Gleeson, irmãos na vida real) ou até diálogos como “Eu quero criar um paraíso” e “Vou cuidar do Apocalipse”. Mas, mesmo que fique óbvio, é interessante acompanhar a maneira com que Aronofsky utiliza a alegoria que desenvolve para comentar a desvalorização enfrentada pelas mulheres em meio à sociedade. Ao longo do filme, o roteiro apresenta a Mãe como uma peça primordial na concepção da casa onde vive (uma representação do nosso mundo), mas que mesmo assim é tratada com descaso e desrespeito pelas figuras ao seu redor, inclusive por Ele, tendo sua autoridade e suas ideias constantemente subestimadas e/ou ignoradas, enquanto o marido ganha um crédito muito maior pelo que faz e representa como artista, numa discrepância clara que não deixa de refletir de alguma forma a nossa sociedade machista.


E Aronofsky não para por aí. Sendo Ele uma representação de Deus, é mais uma vez curioso notar a visão que o diretor tem dessa figura. Se em Noé o Criador era um vilão inexorável em seu plano para a humanidade, aqui ele surge na pele do ótimo Javier Bardem como uma figura essencialmente egocêntrica, que permite que a adoração que recebe das pessoas em sua casa o cegue para os erros que comete e justifique o que elas fazem, mantendo-as por perto mesmo quando passam a agir de maneira absurda. É algo que não deixa de explorar a negação de muitos em aprender com seus erros e conhecer sua história, o que inevitavelmente os leva a repetir tudo, formando um loop infinito que é refletido pela narrativa na própria estrutura do roteiro. Além disso, Aronofsky não deixa de pôr em cheque a sociedade em si, sendo ela retratada como uma gama de pessoas sem consideração pelo que há em seu redor e que não pestanejam em destruir umas as outras, pontos que acabam servindo para questionar se vale a pena dar a elas o amor e a importância que Ele tanto dá em detrimento da Mãe e seu lar.

Há momentos em mãe! nos quais a impressão que se tem é a de que o longa fica sob o efeito de algum tipo de droga pesada, tamanho grau de insanidade que rege a espiral de emoções apresentada pela trama. Mas nada disso soa gratuito na tela, com Darren Aronofsky mostrando saber como tirar o espectador da zona de conforto, confrontando-nos com uma narrativa bastante intrigante, capaz de nos fazer pensar por muito tempo no que acabamos de assistir.

Nota:

quinta-feira, 7 de setembro de 2017

It: A Coisa

It: Uma Obra-Prima do Medo. Assim se chamou aqui no Brasil a minissérie de 1990 que adaptava pela primeira vez um dos livros mais conhecidos de Stephen King. No entanto, apesar do que o título brasileiro tenta vender, aquela produção fica longe de ser uma obra-prima, contando com uma boa parcela de irregularidades ao longo de suas três horas de duração, que acabavam não sendo tão marcantes mesmo com toda a tensão proporcionada pela presença desconfortante do palhaço Pennywise (então interpretado por Tim Curry). Tendo uma segunda chance no meio audiovisual nesta nova versão comandada por Andy Muschietti (de Mama), a história concebida por King rende agora um longa bem mais eficaz, contando com uma densidade maior para os dramas de seus personagens enquanto não se desvia das consequências horripilantes dos atos de seu vilão.

Escrito pela dupla Chase Palmer e Cary Fukunaga e por Gary Dauberman, It: A Coisa se passa no fim da década de 1980 na cidade de Derry, cujos habitantes têm sofrido com os desaparecimentos de algumas crianças da região, com muitas já sendo dadas como mortas. Mesmo assim, o jovem Bill (Jaeden Lieberher) se esforça ao máximo para descobrir onde está seu irmão mais novo. Durante as investigações, Bill e seus amigos de escola Richie (Finn Wolfhard), Eddie (Jack Dylan Grazer) e Stanley (Wyatt Oleff) se juntam aos colegas Ben (Jeremy Ray Taylor), Beverly (Sophia Lillis) e Mike (Chosen Jacobs), já que todos passam a ser assombrados pela coisa responsável pelos desaparecimentos, e que durante boa parte do tempo assume a aparência do palhaço Pennywise (dessa vez interpretado por Bill Skarsgård) para atrair suas presas.


Concentrando-se exclusivamente na fase infanto-juvenil de seus protagonistas e deixando de lado a parte da história focada na fase adulta, o filme aproveita o período no qual é situado e se desenvolve como uma aventura típica da década de 1980. Ao longo da projeção, é difícil não lembrar de produções recentes como Super 8 e a série Stranger Things (da qual o filme até pegou emprestado um dos protagonistas, Finn Wolfhard), que também abraçam com gosto o período em questão ao seguirem a linha de clássicos como Os Goonies e E.T.: O Extraterrestre. A diferença de It, claro, reside na abordagem mais pesada que Andy Muschietti emprega, e logo no começo, quando nos deparamos com o primeiro ataque de Pennywise, já podemos ver que o diretor não está para brincadeira ao conceber o terror da narrativa.

Nesse aspecto, Muschietti pode até apelar pontualmente para jump scares comuns, mas ainda é hábil ao construir uma narrativa envolvente e com atmosfera de tensão que se faz presente durante boa parte do tempo, algo que ganha força nas sequências em que Pennywise ataca os membros do Clube dos Perdedores (como os protagonistas se autointitulam) e outras vítimas, rendendo momentos que são capazes até de chocar ao retratar a violência sem pestanejar (a imagem de uma criança com o braço decepado é particularmente marcante). Para reforçar a tensão, o cineasta também tem o auxílio da ótima fotografia de Chung Chung-hoon (parceiro habitual do grande Park Chan-wook), que com sua paleta sombria traz um misto de melancolia e inquietude ao que se vê na tela, enquanto que o design de produção de Claude Paré não só faz um belo trabalho de reconstrução de época, mas também concebe cenários apropriadamente macabros, desde o porão escuro da casa de Bill até a casa abandonada visitada por ele e seus amigos em determinado momento.

No entanto, se o aspecto aterrorizante da narrativa funciona com eficácia, isso se deve principalmente ao fato de Andy Muschietti conseguir dar peso as duras vidas de seus personagens. Além de estarem num período que já não é particularmente fácil por conta da puberdade e todas as mudanças que ela traz (aliás, mesmo falando de crianças, o filme não deixa de tocar em questões sexuais dentro do que é possível), os membros do Clube dos Perdedores têm dramas pessoais que os afligem e os obrigam a amadurecer ainda mais rápido, o que consequentemente ajuda em sua humanização como personagens e na identificação do público com eles. Tendo tudo isso em vista, Pennywise naturalmente surge como um verdadeiro desafio ao crescimento de todos, até por conta do vilão poder ser a representação de qualquer medo que as crianças sentem diante do que vivem, funcionando como um bom bicho-papão.


Para completar, ainda que um ou outro se sobressaia um pouco mais (como Jaden Lieberher no papel de Bill e Sophia Lillis como Beverly), o filme traz em seu centro jovens atores que surpreendem com sua expressividade e carisma, sendo que eles também têm uma dinâmica brilhante em cena, tornando fácil para o espectador a tarefa de torcer pelo Clube dos Perdedores. Já Bill Skarsgård se destaca ao encarnar com segurança tanto a aparente infantilidade de Pennywise, característica presente quando ele tenta atrair suas vítimas, quanto o amedrontamento que ele espalha ao assumir sua natureza maléfica, não deixando nada a desejar comparado ao bom trabalho de Tim Curry na minissérie de 1990.

No que diz respeito a adaptações de livros de Stephen King lançadas esse ano, It: A Coisa compensa um pouco o gosto amargo deixado pelo fraco A Torre Negra. Exibindo uma boa dose de coração e arrepios, o filme consegue ser um exemplar de terror admirável, estabelecendo-se como uma das boas surpresas de 2017.

Nota:

quinta-feira, 31 de agosto de 2017

Atômica

“Não importa sobre o que é um filme, mas sim como o filme é sobre o que ele é”. Ao longo de Atômica, não pude evitar de pensar constantemente nessa frase do saudoso Roger Ebert. Essencialmente, o que temos aqui é uma obra que está longe de ter a originalidade como um de seus pontos fortes. A trama, o universo e a gama de personagens que apresenta seguem padrões que já vimos em uma série de outros filmes de ação. No entanto, a maneira como David Leitch (co-diretor dos ótimos longas da franquia John Wick) constrói a narrativa acaba tornando este um exemplar muito divertido e empolgante do gênero, ajudando também a firmar Charlize Theron como uma heroína de ação respeitável.

Baseado na graphic novel criada por Antony Johnston e Sam Hart, o roteiro escrito por Kurt Johnstad é situado na década de 1980, durante os estágios finais da Guerra Fria, e acompanha a agente do MI6 Lorraine Broughton (Theron), que é interrogada por seu superior Eric Gray (Toby Jones) e por Emmet Kurzfeld (John Goodman), um representante da CIA, sobre uma missão realizada em Berlim. Lá, Lorraine ficou encarregada não só de recuperar uma lista contendo nomes de agentes duplos, mas também de identificar e assassinar um agente conhecido como Satchel, que tem trabalhado com os soviéticos e traiu um colega do MI6. Para atingir esses objetivos, ela teve o auxílio de David Percival (James McAvoy).


Acredito que boa parte das pessoas já perdeu a conta de quantas vezes já viu essa lista de agentes duplos correr o risco de cair nas mãos erradas, de forma que revirar os olhos foi um ato até natural quando vi que ela seria usada novamente como objeto de interesse em um filme. Isso em uma trama que não deixa de ser um tanto boba e que não é composta por heróis e vilões, mas sim por personagens que basicamente agem a fim de atender seus próprios interesses, o que faz ninguém ser particularmente confiável na história. Isso é até ressaltado de um jeito óbvio na abertura, que traz o então presidente americano Ronald Reagan comentando a desconfiança que domina a relação entre o Ocidente e o Oriente, e pelas várias reviravoltas que pontuam a trama e nos fazem mudar constantemente nosso julgamento com relação àqueles indivíduos.

Ainda assim, com a ajuda da montagem de Elísabet Ronaldsdóttir, David Leitch cria uma narrativa envolvente ao impor um ritmo ágil e cativante, o que é até capaz de distrair um pouco o espectador quanto a esse lado bobo e clichê da trama. Aliás, falando na montagem, é preciso dizer que Ronaldsdóttir faz um belo trabalho lidando com a estrutura do roteiro, intercalando organicamente a interrogação que ocorre no presente com os flashbacks envolvendo a missão de Lorraine, com um ponto servindo eficientemente como base para o outro. Enquanto isso, a seleção musical do filme, composta basicamente por músicas pop e eletrônicas da década de 1980, ajuda a construir uma atmosfera mais leve e até mesmo cômica, auxiliando a narrativa a não se levar tão a sério quanto a história poderia fazer parecer.


O grande barato de Atômica, porém, é mesmo ver o filme partir para a ação com sua protagonista. Se as sequências em si já são maravilhosamente coreografadas, isso também pode ser dito sobre os movimentos da câmera de David Leitch, que acompanha toda a ação sem deixar o espectador perdido quanto ao que está acontecendo na tela. Assim, durante a projeção somos presenteados com um embate melhor que o outro, desde a pancadaria que ocorre dentro de um carro logo no início até a outra que ocorre dentro de um apartamento e envolve vários policiais. Mas o grande momento do filme nesse sentido, sem dúvida alguma, é o longo plano-sequência no qual Lorraine enfrenta agentes rivais. Iniciando em um elevador, passando por uma escadaria, um apartamento e encerrando em uma fuga de carro, trata-se de uma cena que vai se tornando cada vez mais insana, não economizando em tiros, socos e pontapés e presenteando o espectador com um verdadeiro espetáculo de ação. É verdade que se trata de um plano-sequência simulado (os cortes são bem escondidos), mas o resultado ainda é tecnicamente primoroso. Como se não bastasse, o filme também conta com a forte presença de Charlize Theron, que com talento consegue trazer segurança e credibilidade para Lorraine, que acaba sendo mais uma heroína de ação de destaque no cenário atual.

Atômica é uma bela surpresa no fim das contas. Nas mãos de realizadores menos talentosos, talvez pudesse ser só mais um thriller de ação genérico. Por sorte, este não é o caso e o que temos aqui é um longa que funciona admiravelmente dentro do gênero.


Nota:

domingo, 20 de agosto de 2017

Séries: Os Defensores

A calma que a Marvel tem para desenvolver seus projetos não deixa de ser admirável, expandindo gradualmente seu universo e apresentando cada um de seus principais personagens antes de coloca-los em uma única superprodução. Tem sido assim no cinema com Os Vingadores, algo que tem funcionado bem e é repetido com Os Defensores, que surge como o resultado de todas as produções que o estúdio fez em parceria com a Netflix, colocando Demolidor, Jessica Jones, Luke Cage e Punho de Ferro lado a lado em uma grande batalha. Isso rende uma série até divertida, mas que também exibe uma irregularidade que a impede de deixar grandes marcas no espectador ao final de seus oito episódios.

Desenvolvida por Marco Ramirez e Douglas Petrie (responsáveis pela segunda temporada de Demolidor), Os Defensores segue seus heróis exatamente a partir do ponto em que cada um estava ao final de suas respectivas séries. Matt Murdock (Charlie Cox) se esforça para largar a vida de Demolidor e ter uma rotina normal, enquanto Jessica Jones (Krysten Ritter) retorna aos poucos a suas investigações após seu embate com Kilgrave, exibindo sua costumeira antissociabilidade. Já Luke Cage (Mike Coulter) tenta retomar sua vida após seu aprisionamento, ao passo que Danny Rand (Finn Jones) continua sua luta contra o Tentáculo com a ajuda de Colleen Wing (Jessica Henwick). Mas quando este mesmo Tentáculo entra no foco de todos eles, a solução é juntar forças contra a líder da organização, Alexandra (Sigourney Weaver), cujo plano promete colocar Nova York e seus habitantes em risco e conta ainda com o envolvimento de sua nova pupila, Elektra (Elodie Yung).


Não deixa de ser uma trama repetitiva dentro dessas séries da Marvel com a Netflix, considerando que o Tentáculo já deu as caras quase da mesma forma na segunda temporada de Demolidor e na primeira de Punho de Ferro. E ainda que tenhamos a ótima presença de Sigourney Weaver no papel de Alexandra (a atriz impõe a superioridade da vilã quase sem se esforçar), a ameaça representada pela organização não é particularmente instigante, justificando a reunião dos heróis mais por conta do tamanho de seus planos. Aliás, no que diz respeito à maneira como os protagonistas se juntam, o início da série se revela bem conveniente. Mesmo que os roteiros busquem fazer com que o encontro deles não aconteça repentinamente (são necessários três episódios para chegar nesse ponto), a primeira vez que eles aparecem juntos ainda ocorre mais pela coincidência de todos estarem perseguindo as mesmas coisas ao mesmo tempo. Para completar, há questões no desenvolvimento da história capazes de tirar o espectador do sério, desde clichês como um personagem que abandona a equipe e retorna num momento propício até algumas reviravoltas anticlimáticas na reta final da temporada.


De qualquer forma, a união dos heróis (que é o grande atrativo do projeto) faz a série valer a pena. Exibindo durante boa parte do tempo uma desconfiança natural de figuras que mal se conhecem, aos poucos os protagonistas aprendem a respeitar uns aos outros e a trabalhar em equipe, construindo uma dinâmica que melhora gradualmente. Os grandes momentos da série resultam exatamente desse aspecto, chegando ao ápice sempre que os personagens discutem questões pessoais, como na cena em que Luke e Danny debatem suas motivações ou na outra em que Jessica comenta sobre o passado de Matt. Além disso, se os episódios são tecnicamente trôpegos em alguns pontos (as transições de cena usando os metrôs de Nova York não são muito criativas e cansam rapidamente, enquanto que o esquema dos realizadores de enquadrar um personagem no canto da tela com o resto desfocado é visualmente pavoroso), ao menos as cenas de ação são bem coreografadas e aproveitam eficientemente as habilidades do quarteto, merecendo destaque especial a luta no escritório de Alexandra e a batalha no último episódio.

Tendo em vista toda a organização para que pudéssemos chegar a série naturalmente (o que começou há dois anos, lá na primeira temporada de Demolidor), Os Defensores deixa um gosto de que poderia ser melhor. Por sorte, as qualidades apresentadas pela produção conseguem sustentar a jornada ao lado deste novo grupo de heróis.


Confira as críticas das outras séries da Marvel/Netflix:

quinta-feira, 3 de agosto de 2017

Planeta dos Macacos: A Guerra

No que diz respeito a superproduções lançadas nos últimos anos, o ressurgimento de Planeta dos Macacos certamente é uma das coisas mais interessantes e surpreendentes. Com uma proposta que mistura a ideia de prequel (mostrando o que ocorreu antes dos eventos do excepcional filme original de 1968) com a de um reboot (dando uma repaginada em certos pontos que vimos anteriormente), a franquia voltou não só exibindo efeitos visuais excelentes, mas também maturidade e coragem para fazer alegorias e comentários político-sociais inteligentes e relevantes. Sendo assim, se Planeta dos Macacos: A Origem foi um exemplar eficiente e sua continuação, O Confronto, mostrou-se ainda melhor, este A Guerra trata de concluir a trilogia brilhantemente, se estabelecendo como o melhor longa da série desde o original.

Escrito pelo diretor Matt Reeves e por Mark Bomback, A Guerra se passa cinco anos após os eventos do filme anterior, mostrando um César (Andy Serkis) ainda mais evoluído junto com sua comunidade de macacos, que ele lidera buscando firmar um espaço onde todos possam viver sem se preocupar com os humanos remanescentes. Estes, por sua vez, se veem cada vez mais ameaçados diante do crescimento dos símios, tendo declarado guerra a eles. É então que, depois de um ataque realizado pelo Coronel (Woody Harrelson) e sua tropa, César parte em uma jornada para confrontar aqueles que querem o fim de sua espécie, sendo auxiliado nisso por alguns de seus fieis aliados.


Em determinado momento do filme, o dizer “Kong bom é Kong morto” pode ser visto sendo ostentado pelos humanos em uma parede. É uma frase que ajuda a estabelecer os temas que A Guerra busca explorar ao longo da história, com uma espécie agindo violentamente ao ver sua existência ameaçada de alguma forma, dando voz a um medo que inevitável e até inconscientemente faz com que tal espécie se torne tão monstruosa quanto aquela que acredita estar condenando. Podemos até levar isso a outro patamar, com os humanos se sentindo ameaçados por aqueles que simplesmente são e/ou pensam diferente deles, não querendo ver figuras como essas dominando um território que, supostamente, não é seu (nisso, o fato de a construção de um muro ser inserida na trama é um toque apropriado tendo em vista os planos da era Trump nos Estados Unidos). Com esses pontos, o roteiro consegue explorar com inteligência e naturalidade aspectos muito vivos na sociedade atualmente, desde a intolerância política e ideológica até o preconceito e a xenofobia (já diria o cineasta Eric Rohmer: “Todo bom filme é um documento de sua época”).

Mas A Guerra não é admirável apenas pelos temas que aborda. Desde o princípio, Matt Reeves aposta em um tom sombrio que ganha força na tensão que ele impõe na tela, algo que percorre quase toda a história. São detalhes bem ressaltados pela fotografia de Michael Seresin e que chegam ao ápice nas sequências de ação. Estas, aliás, são conduzidas com segurança absoluta por Reeves, que aproveita o investimento do público nos personagens para fazer com que estes momentos sejam envolventes e inquietantes, desde o confronto inicial até o terceiro ato situado na base do Coronel e seus homens. É bom ressaltar em meio a isso a bela trilha de Michael Giacchino, que por vezes opta por tons melancólicos ao invés de algo mais épico, uma decisão interessante considerando que os conflitos do filme são essencialmente tristes, com vidas sendo perdidas em ambos os lados.


Para completar, é impossível falar sobre o longa sem mencionar a excepcional concepção dos macacos. Assim como ocorria nos exemplares anteriores (especialmente O Confronto), os animais não parecem meras figuras criadas em um computador, de tão convincentes e humanos que surgem na tela, o que se deve tanto aos efeitos visuais quanto ao trabalho de performance capture dos atores que os interpretam (durante a projeção, perdi a conta de quantas vezes esqueci que não são macacos de carne e osso que estão ali). E Matt Reeves várias vezes foca personagens como César e o orangotango Maurice (Karin Konoval) em primeiríssimos planos, como se fizesse questão de mostrar o brilhantismo do filme nesse aspecto.

Falando em performance capture, Andy Serkis novamente se destaca no papel de César, que se firma de vez como o personagem mais complexo de toda a série Planeta do Macacos, mostrando aqui como o ódio e o rancor são capazes de consumir alguém por mais que este preze por paz e compaixão. Em uma atuação que transmite uma série de emoções só pelo olhar, Serkis encarna a força de César com propriedade, fazendo dele um líder que inspira seus companheiros e que é inspirado por eles, de forma que a dinâmica deles chama a atenção pelo carinho e pelo respeito mútuo que todos têm uns pelos outros. Mas se Serkis é o grande nome do filme, Woody Harrelson (um ator do qual sou fã confesso) não fica muito atrás, com seu Coronel se estabelecendo como um contraponto perfeito a César. E é bom ver que o roteiro não o trata como um vilão unidimensional, o que culmina em um monólogo longo e até mesmo tocante no qual ele deixa suas motivações muito claras, naquele que certamente é um dos melhores momentos do filme. Outros destaques são o Macaco Mau interpretado com um carisma encantador por Steve Zahn, que serve eficientemente como alívio cômico, e a jovem personagem interpretada pela expressiva Amiah Miller, que consegue ser uma figura que faz o público ter um pouco de esperança na humanidade.

Ao sair de Planeta dos Macacos: A Guerra, o pensamento de que a franquia não precisa de outros filmes me veio em mente. Uma ideia que provavelmente não será seguida pelo estúdio, seja por conta do lado comercial ou pelo potencial alegórico da série. Mas, por ora, o que temos aqui é uma obra impressionante tecnicamente, rica em seu conteúdo e que encerra seus arcos narrativos de maneira digna e emocionante.


Nota: