quinta-feira, 21 de setembro de 2017

mãe!

(Obs.: Ao escrever sobre o filme, não pude evitar comentar alguns spoilers da trama. Portanto, caso não queira saber detalhes importantes sobre o longa, recomendo que retorne ao texto após assisti-lo.)

Darren Aronofsky não é um diretor conhecido por conceber experiências particularmente agradáveis para o espectador. A maioria de seus filmes exibe uma riqueza construída através de narrativas que, em maior ou menor grau, se revelam provocativas e inquietantes. Isso se repete neste mãe!, que dentro da carreira do diretor dialoga bastante com seus dois últimos trabalhos, Cisne Negro e Noé. Enquanto se desenvolve como um terror psicológico, o longa conta uma história cuja alegoria é claramente baseada em elementos bíblicos, o que Aronofsky usa com inteligência para discutir questões muito pertinentes com relação ao mundo em que vivemos e a sociedade que formamos.

Escrito pelo próprio Darren Aronofsky, mãe! traz Jennifer Lawrence interpretando a personagem-título, que vive em uma bela e isolada casa ao lado do marido (chamado de Ele e interpretado por Javier Bardem). Enquanto ela se esforça para reformar o lugar, que há algum tempo foi palco de uma tragédia, Ele luta contra um bloqueio criativo que o impede de continuar seu aclamado trabalho como poeta. É nesse contexto que eles recebem a visita do Homem e da Mulher (Ed Harris e Michelle Pfeiffer, respectivamente) e, a partir disso, estranhos eventos passam a ocorrer, quebrando a tranquilidade que reinava até então.


Trazendo um universo no qual a Mãe surge como a única figura de bom senso na história, o filme consegue se apresentar como um exercício de gênero bastante eficiente, já que tudo durante a projeção parece se recusar a ocorrer de acordo com o que a protagonista planeja. A partir disso, com a ajuda da fotografia de Matthew Libatique (que aposta quase sempre em tons sombrios), Darren Aronofsky é hábil ao criar uma verdadeira atmosfera de pesadelo que se faz presente durante todo o filme, impondo gradualmente tons surreais que impressionam pelos absurdos que exibem. Tais detalhes naturalmente criam um constante desconforto, o que ocorre principalmente por conta de nossa identificação com a protagonista e a situação em que se encontra. A Mãe, por sinal, é interpretada com talento por Jennifer Lawrence, que encarna convincentemente a sensação de deslocamento da personagem e sua vulnerabilidade, além da força que ela passa a encontrar a partir de seu profundo descontentamento com tudo o que presencia.

Mas as discussões que Darren Aronofsky traz para a narrativa fazem de mãe! um filme que vai além da tensão que proporciona. Desde o princípio, não podemos dizer que o diretor é sutil ao estabelecer as raízes bíblicas da trama que desenvolve, seja ao trazer um personagem com um ferimento na altura das costelas, uma cena envolvendo dois irmãos (vividos por Domhnall Gleeson e Brian Gleeson, irmãos na vida real) ou até diálogos como “Eu quero criar um paraíso” e “Vou cuidar do Apocalipse”. Mas, mesmo que fique óbvio, é interessante acompanhar a maneira com que Aronofsky utiliza a alegoria que desenvolve para comentar a desvalorização enfrentada pelas mulheres em meio à sociedade. Ao longo do filme, o roteiro apresenta a Mãe como uma peça primordial na concepção da casa onde vive (uma representação do nosso mundo), mas que mesmo assim é tratada com descaso e desrespeito pelas figuras ao seu redor, inclusive por Ele, tendo sua autoridade e suas ideias constantemente subestimadas e/ou ignoradas, enquanto o marido ganha um crédito muito maior pelo que faz e representa como artista, numa discrepância clara que não deixa de refletir de alguma forma a nossa sociedade machista.


E Aronofsky não para por aí. Sendo Ele uma representação de Deus, é mais uma vez curioso notar a visão que o diretor tem dessa figura. Se em Noé o Criador era um vilão inexorável em seu plano para a humanidade, aqui ele surge na pele do ótimo Javier Bardem como uma figura essencialmente egocêntrica, que permite que a adoração que recebe das pessoas em sua casa o cegue para os erros que comete e justifique o que elas fazem, mantendo-as por perto mesmo quando passam a agir de maneira absurda. É algo que não deixa de explorar a negação de muitos em aprender com seus erros e conhecer sua história, o que inevitavelmente os leva a repetir tudo, formando um loop infinito que é refletido pela narrativa na própria estrutura do roteiro. Além disso, Aronofsky não deixa de pôr em cheque a sociedade em si, sendo ela retratada como uma gama de pessoas sem consideração pelo que há em seu redor e que não pestanejam em destruir umas as outras, pontos que acabam servindo para questionar se vale a pena dar a elas o amor e a importância que Ele tanto dá em detrimento da Mãe e seu lar.

Há momentos em mãe! nos quais a impressão que se tem é a de que o longa fica sob o efeito de algum tipo de droga pesada, tamanho grau de insanidade que rege a espiral de emoções apresentada pela trama. Mas nada disso soa gratuito na tela, com Darren Aronofsky mostrando saber como tirar o espectador da zona de conforto, confrontando-nos com uma narrativa bastante intrigante, capaz de nos fazer pensar por muito tempo no que acabamos de assistir.

Nota:

quinta-feira, 7 de setembro de 2017

It: A Coisa

It: Uma Obra-Prima do Medo. Assim se chamou aqui no Brasil a minissérie de 1990 que adaptava pela primeira vez um dos livros mais conhecidos de Stephen King. No entanto, apesar do que o título brasileiro tenta vender, aquela produção fica longe de ser uma obra-prima, contando com uma boa parcela de irregularidades ao longo de suas três horas de duração, que acabavam não sendo tão marcantes mesmo com toda a tensão proporcionada pela presença desconfortante do palhaço Pennywise (então interpretado por Tim Curry). Tendo uma segunda chance no meio audiovisual nesta nova versão comandada por Andy Muschietti (de Mama), a história concebida por King rende agora um longa bem mais eficaz, contando com uma densidade maior para os dramas de seus personagens enquanto não se desvia das consequências horripilantes dos atos de seu vilão.

Escrito pela dupla Chase Palmer e Cary Fukunaga e por Gary Dauberman, It: A Coisa se passa no fim da década de 1980 na cidade de Derry, cujos habitantes têm sofrido com os desaparecimentos de algumas crianças da região, com muitas já sendo dadas como mortas. Mesmo assim, o jovem Bill (Jaeden Lieberher) se esforça ao máximo para descobrir onde está seu irmão mais novo. Durante as investigações, Bill e seus amigos de escola Richie (Finn Wolfhard), Eddie (Jack Dylan Grazer) e Stanley (Wyatt Oleff) se juntam aos colegas Ben (Jeremy Ray Taylor), Beverly (Sophia Lillis) e Mike (Chosen Jacobs), já que todos passam a ser assombrados pela coisa responsável pelos desaparecimentos, e que durante boa parte do tempo assume a aparência do palhaço Pennywise (dessa vez interpretado por Bill Skarsgård) para atrair suas presas.


Concentrando-se exclusivamente na fase infanto-juvenil de seus protagonistas e deixando de lado a parte da história focada na fase adulta, o filme aproveita o período no qual é situado e se desenvolve como uma aventura típica da década de 1980. Ao longo da projeção, é difícil não lembrar de produções recentes como Super 8 e a série Stranger Things (da qual o filme até pegou emprestado um dos protagonistas, Finn Wolfhard), que também abraçam com gosto o período em questão ao seguirem a linha de clássicos como Os Goonies e E.T.: O Extraterrestre. A diferença de It, claro, reside na abordagem mais pesada que Andy Muschietti emprega, e logo no começo, quando nos deparamos com o primeiro ataque de Pennywise, já podemos ver que o diretor não está para brincadeira ao conceber o terror da narrativa.

Nesse aspecto, Muschietti pode até apelar pontualmente para jump scares comuns, mas ainda é hábil ao construir uma narrativa envolvente e com atmosfera de tensão que se faz presente durante boa parte do tempo, algo que ganha força nas sequências em que Pennywise ataca os membros do Clube dos Perdedores (como os protagonistas se autointitulam) e outras vítimas, rendendo momentos que são capazes até de chocar ao retratar a violência sem pestanejar (a imagem de uma criança com o braço decepado é particularmente marcante). Para reforçar a tensão, o cineasta também tem o auxílio da ótima fotografia de Chung Chung-hoon (parceiro habitual do grande Park Chan-wook), que com sua paleta sombria traz um misto de melancolia e inquietude ao que se vê na tela, enquanto que o design de produção de Claude Paré não só faz um belo trabalho de reconstrução de época, mas também concebe cenários apropriadamente macabros, desde o porão escuro da casa de Bill até a casa abandonada visitada por ele e seus amigos em determinado momento.

No entanto, se o aspecto aterrorizante da narrativa funciona com eficácia, isso se deve principalmente ao fato de Andy Muschietti conseguir dar peso as duras vidas de seus personagens. Além de estarem num período que já não é particularmente fácil por conta da puberdade e todas as mudanças que ela traz (aliás, mesmo falando de crianças, o filme não deixa de tocar em questões sexuais dentro do que é possível), os membros do Clube dos Perdedores têm dramas pessoais que os afligem e os obrigam a amadurecer ainda mais rápido, o que consequentemente ajuda em sua humanização como personagens e na identificação do público com eles. Tendo tudo isso em vista, Pennywise naturalmente surge como um verdadeiro desafio ao crescimento de todos, até por conta do vilão poder ser a representação de qualquer medo que as crianças sentem diante do que vivem, funcionando como um bom bicho-papão.


Para completar, ainda que um ou outro se sobressaia um pouco mais (como Jaden Lieberher no papel de Bill e Sophia Lillis como Beverly), o filme traz em seu centro jovens atores que surpreendem com sua expressividade e carisma, sendo que eles também têm uma dinâmica brilhante em cena, tornando fácil para o espectador a tarefa de torcer pelo Clube dos Perdedores. Já Bill Skarsgård se destaca ao encarnar com segurança tanto a aparente infantilidade de Pennywise, característica presente quando ele tenta atrair suas vítimas, quanto o amedrontamento que ele espalha ao assumir sua natureza maléfica, não deixando nada a desejar comparado ao bom trabalho de Tim Curry na minissérie de 1990.

No que diz respeito a adaptações de livros de Stephen King lançadas esse ano, It: A Coisa compensa um pouco o gosto amargo deixado pelo fraco A Torre Negra. Exibindo uma boa dose de coração e arrepios, o filme consegue ser um exemplar de terror admirável, estabelecendo-se como uma das boas surpresas de 2017.

Nota:

quinta-feira, 31 de agosto de 2017

Atômica

“Não importa sobre o que é um filme, mas sim como o filme é sobre o que ele é”. Ao longo de Atômica, não pude evitar de pensar constantemente nessa frase do saudoso Roger Ebert. Essencialmente, o que temos aqui é uma obra que está longe de ter a originalidade como um de seus pontos fortes. A trama, o universo e a gama de personagens que apresenta seguem padrões que já vimos em uma série de outros filmes de ação. No entanto, a maneira como David Leitch (co-diretor dos ótimos longas da franquia John Wick) constrói a narrativa acaba tornando este um exemplar muito divertido e empolgante do gênero, ajudando também a firmar Charlize Theron como uma heroína de ação respeitável.

Baseado na graphic novel criada por Antony Johnston e Sam Hart, o roteiro escrito por Kurt Johnstad é situado na década de 1980, durante os estágios finais da Guerra Fria, e acompanha a agente do MI6 Lorraine Broughton (Theron), que é interrogada por seu superior Eric Gray (Toby Jones) e por Emmet Kurzfeld (John Goodman), um representante da CIA, sobre uma missão realizada em Berlim. Lá, Lorraine ficou encarregada não só de recuperar uma lista contendo nomes de agentes duplos, mas também de identificar e assassinar um agente conhecido como Satchel, que tem trabalhado com os soviéticos e traiu um colega do MI6. Para atingir esses objetivos, ela teve o auxílio de David Percival (James McAvoy).


Acredito que boa parte das pessoas já perdeu a conta de quantas vezes já viu essa lista de agentes duplos correr o risco de cair nas mãos erradas, de forma que revirar os olhos foi um ato até natural quando vi que ela seria usada novamente como objeto de interesse em um filme. Isso em uma trama que não deixa de ser um tanto boba e que não é composta por heróis e vilões, mas sim por personagens que basicamente agem a fim de atender seus próprios interesses, o que faz ninguém ser particularmente confiável na história. Isso é até ressaltado de um jeito óbvio na abertura, que traz o então presidente americano Ronald Reagan comentando a desconfiança que domina a relação entre o Ocidente e o Oriente, e pelas várias reviravoltas que pontuam a trama e nos fazem mudar constantemente nosso julgamento com relação àqueles indivíduos.

Ainda assim, com a ajuda da montagem de Elísabet Ronaldsdóttir, David Leitch cria uma narrativa envolvente ao impor um ritmo ágil e cativante, o que é até capaz de distrair um pouco o espectador quanto a esse lado bobo e clichê da trama. Aliás, falando na montagem, é preciso dizer que Ronaldsdóttir faz um belo trabalho lidando com a estrutura do roteiro, intercalando organicamente a interrogação que ocorre no presente com os flashbacks envolvendo a missão de Lorraine, com um ponto servindo eficientemente como base para o outro. Enquanto isso, a seleção musical do filme, composta basicamente por músicas pop e eletrônicas da década de 1980, ajuda a construir uma atmosfera mais leve e até mesmo cômica, auxiliando a narrativa a não se levar tão a sério quanto a história poderia fazer parecer.


O grande barato de Atômica, porém, é mesmo ver o filme partir para a ação com sua protagonista. Se as sequências em si já são maravilhosamente coreografadas, isso também pode ser dito sobre os movimentos da câmera de David Leitch, que acompanha toda a ação sem deixar o espectador perdido quanto ao que está acontecendo na tela. Assim, durante a projeção somos presenteados com um embate melhor que o outro, desde a pancadaria que ocorre dentro de um carro logo no início até a outra que ocorre dentro de um apartamento e envolve vários policiais. Mas o grande momento do filme nesse sentido, sem dúvida alguma, é o longo plano-sequência no qual Lorraine enfrenta agentes rivais. Iniciando em um elevador, passando por uma escadaria, um apartamento e encerrando em uma fuga de carro, trata-se de uma cena que vai se tornando cada vez mais insana, não economizando em tiros, socos e pontapés e presenteando o espectador com um verdadeiro espetáculo de ação. É verdade que se trata de um plano-sequência simulado (os cortes são bem escondidos), mas o resultado ainda é tecnicamente primoroso. Como se não bastasse, o filme também conta com a forte presença de Charlize Theron, que com talento consegue trazer segurança e credibilidade para Lorraine, que acaba sendo mais uma heroína de ação de destaque no cenário atual.

Atômica é uma bela surpresa no fim das contas. Nas mãos de realizadores menos talentosos, talvez pudesse ser só mais um thriller de ação genérico. Por sorte, este não é o caso e o que temos aqui é um longa que funciona admiravelmente dentro do gênero.


Nota:

domingo, 20 de agosto de 2017

Séries: Os Defensores

A calma que a Marvel tem para desenvolver seus projetos não deixa de ser admirável, expandindo gradualmente seu universo e apresentando cada um de seus principais personagens antes de coloca-los em uma única superprodução. Tem sido assim no cinema com Os Vingadores, algo que tem funcionado bem e é repetido com Os Defensores, que surge como o resultado de todas as produções que o estúdio fez em parceria com a Netflix, colocando Demolidor, Jessica Jones, Luke Cage e Punho de Ferro lado a lado em uma grande batalha. Isso rende uma série até divertida, mas que também exibe uma irregularidade que a impede de deixar grandes marcas no espectador ao final de seus oito episódios.

Desenvolvida por Marco Ramirez e Douglas Petrie (responsáveis pela segunda temporada de Demolidor), Os Defensores segue seus heróis exatamente a partir do ponto em que cada um estava ao final de suas respectivas séries. Matt Murdock (Charlie Cox) se esforça para largar a vida de Demolidor e ter uma rotina normal, enquanto Jessica Jones (Krysten Ritter) retorna aos poucos a suas investigações após seu embate com Kilgrave, exibindo sua costumeira antissociabilidade. Já Luke Cage (Mike Coulter) tenta retomar sua vida após seu aprisionamento, ao passo que Danny Rand (Finn Jones) continua sua luta contra o Tentáculo com a ajuda de Colleen Wing (Jessica Henwick). Mas quando este mesmo Tentáculo entra no foco de todos eles, a solução é juntar forças contra a líder da organização, Alexandra (Sigourney Weaver), cujo plano promete colocar Nova York e seus habitantes em risco e conta ainda com o envolvimento de sua nova pupila, Elektra (Elodie Yung).


Não deixa de ser uma trama repetitiva dentro dessas séries da Marvel com a Netflix, considerando que o Tentáculo já deu as caras quase da mesma forma na segunda temporada de Demolidor e na primeira de Punho de Ferro. E ainda que tenhamos a ótima presença de Sigourney Weaver no papel de Alexandra (a atriz impõe a superioridade da vilã quase sem se esforçar), a ameaça representada pela organização não é particularmente instigante, justificando a reunião dos heróis mais por conta do tamanho de seus planos. Aliás, no que diz respeito à maneira como os protagonistas se juntam, o início da série se revela bem conveniente. Mesmo que os roteiros busquem fazer com que o encontro deles não aconteça repentinamente (são necessários três episódios para chegar nesse ponto), a primeira vez que eles aparecem juntos ainda ocorre mais pela coincidência de todos estarem perseguindo as mesmas coisas ao mesmo tempo. Para completar, há questões no desenvolvimento da história capazes de tirar o espectador do sério, desde clichês como um personagem que abandona a equipe e retorna num momento propício até algumas reviravoltas anticlimáticas na reta final da temporada.


De qualquer forma, a união dos heróis (que é o grande atrativo do projeto) faz a série valer a pena. Exibindo durante boa parte do tempo uma desconfiança natural de figuras que mal se conhecem, aos poucos os protagonistas aprendem a respeitar uns aos outros e a trabalhar em equipe, construindo uma dinâmica que melhora gradualmente. Os grandes momentos da série resultam exatamente desse aspecto, chegando ao ápice sempre que os personagens discutem questões pessoais, como na cena em que Luke e Danny debatem suas motivações ou na outra em que Jessica comenta sobre o passado de Matt. Além disso, se os episódios são tecnicamente trôpegos em alguns pontos (as transições de cena usando os metrôs de Nova York não são muito criativas e cansam rapidamente, enquanto que o esquema dos realizadores de enquadrar um personagem no canto da tela com o resto desfocado é visualmente pavoroso), ao menos as cenas de ação são bem coreografadas e aproveitam eficientemente as habilidades do quarteto, merecendo destaque especial a luta no escritório de Alexandra e a batalha no último episódio.

Tendo em vista toda a organização para que pudéssemos chegar a série naturalmente (o que começou há dois anos, lá na primeira temporada de Demolidor), Os Defensores deixa um gosto de que poderia ser melhor. Por sorte, as qualidades apresentadas pela produção conseguem sustentar a jornada ao lado deste novo grupo de heróis.


Confira as críticas das outras séries da Marvel/Netflix:

quinta-feira, 3 de agosto de 2017

Planeta dos Macacos: A Guerra

No que diz respeito a superproduções lançadas nos últimos anos, o ressurgimento de Planeta dos Macacos certamente é uma das coisas mais interessantes e surpreendentes. Com uma proposta que mistura a ideia de prequel (mostrando o que ocorreu antes dos eventos do excepcional filme original de 1968) com a de um reboot (dando uma repaginada em certos pontos que vimos anteriormente), a franquia voltou não só exibindo efeitos visuais excelentes, mas também maturidade e coragem para fazer alegorias e comentários político-sociais inteligentes e relevantes. Sendo assim, se Planeta dos Macacos: A Origem foi um exemplar eficiente e sua continuação, O Confronto, mostrou-se ainda melhor, este A Guerra trata de concluir a trilogia brilhantemente, se estabelecendo como o melhor longa da série desde o original.

Escrito pelo diretor Matt Reeves e por Mark Bomback, A Guerra se passa cinco anos após os eventos do filme anterior, mostrando um César (Andy Serkis) ainda mais evoluído junto com sua comunidade de macacos, que ele lidera buscando firmar um espaço onde todos possam viver sem se preocupar com os humanos remanescentes. Estes, por sua vez, se veem cada vez mais ameaçados diante do crescimento dos símios, tendo declarado guerra a eles. É então que, depois de um ataque realizado pelo Coronel (Woody Harrelson) e sua tropa, César parte em uma jornada para confrontar aqueles que querem o fim de sua espécie, sendo auxiliado nisso por alguns de seus fieis aliados.


Em determinado momento do filme, o dizer “Kong bom é Kong morto” pode ser visto sendo ostentado pelos humanos em uma parede. É uma frase que ajuda a estabelecer os temas que A Guerra busca explorar ao longo da história, com uma espécie agindo violentamente ao ver sua existência ameaçada de alguma forma, dando voz a um medo que inevitável e até inconscientemente faz com que tal espécie se torne tão monstruosa quanto aquela que acredita estar condenando. Podemos até levar isso a outro patamar, com os humanos se sentindo ameaçados por aqueles que simplesmente são e/ou pensam diferente deles, não querendo ver figuras como essas dominando um território que, supostamente, não é seu (nisso, o fato de a construção de um muro ser inserida na trama é um toque apropriado tendo em vista os planos da era Trump nos Estados Unidos). Com esses pontos, o roteiro consegue explorar com inteligência e naturalidade aspectos muito vivos na sociedade atualmente, desde a intolerância política e ideológica até o preconceito e a xenofobia (já diria o cineasta Eric Rohmer: “Todo bom filme é um documento de sua época”).

Mas A Guerra não é admirável apenas pelos temas que aborda. Desde o princípio, Matt Reeves aposta em um tom sombrio que ganha força na tensão que ele impõe na tela, algo que percorre quase toda a história. São detalhes bem ressaltados pela fotografia de Michael Seresin e que chegam ao ápice nas sequências de ação. Estas, aliás, são conduzidas com segurança absoluta por Reeves, que aproveita o investimento do público nos personagens para fazer com que estes momentos sejam envolventes e inquietantes, desde o confronto inicial até o terceiro ato situado na base do Coronel e seus homens. É bom ressaltar em meio a isso a bela trilha de Michael Giacchino, que por vezes opta por tons melancólicos ao invés de algo mais épico, uma decisão interessante considerando que os conflitos do filme são essencialmente tristes, com vidas sendo perdidas em ambos os lados.


Para completar, é impossível falar sobre o longa sem mencionar a excepcional concepção dos macacos. Assim como ocorria nos exemplares anteriores (especialmente O Confronto), os animais não parecem meras figuras criadas em um computador, de tão convincentes e humanos que surgem na tela, o que se deve tanto aos efeitos visuais quanto ao trabalho de performance capture dos atores que os interpretam (durante a projeção, perdi a conta de quantas vezes esqueci que não são macacos de carne e osso que estão ali). E Matt Reeves várias vezes foca personagens como César e o orangotango Maurice (Karin Konoval) em primeiríssimos planos, como se fizesse questão de mostrar o brilhantismo do filme nesse aspecto.

Falando em performance capture, Andy Serkis novamente se destaca no papel de César, que se firma de vez como o personagem mais complexo de toda a série Planeta do Macacos, mostrando aqui como o ódio e o rancor são capazes de consumir alguém por mais que este preze por paz e compaixão. Em uma atuação que transmite uma série de emoções só pelo olhar, Serkis encarna a força de César com propriedade, fazendo dele um líder que inspira seus companheiros e que é inspirado por eles, de forma que a dinâmica deles chama a atenção pelo carinho e pelo respeito mútuo que todos têm uns pelos outros. Mas se Serkis é o grande nome do filme, Woody Harrelson (um ator do qual sou fã confesso) não fica muito atrás, com seu Coronel se estabelecendo como um contraponto perfeito a César. E é bom ver que o roteiro não o trata como um vilão unidimensional, o que culmina em um monólogo longo e até mesmo tocante no qual ele deixa suas motivações muito claras, naquele que certamente é um dos melhores momentos do filme. Outros destaques são o Macaco Mau interpretado com um carisma encantador por Steve Zahn, que serve eficientemente como alívio cômico, e a jovem personagem interpretada pela expressiva Amiah Miller, que consegue ser uma figura que faz o público ter um pouco de esperança na humanidade.

Ao sair de Planeta dos Macacos: A Guerra, o pensamento de que a franquia não precisa de outros filmes me veio em mente. Uma ideia que provavelmente não será seguida pelo estúdio, seja por conta do lado comercial ou pelo potencial alegórico da série. Mas, por ora, o que temos aqui é uma obra impressionante tecnicamente, rica em seu conteúdo e que encerra seus arcos narrativos de maneira digna e emocionante.


Nota:

quarta-feira, 26 de julho de 2017

Dunkirk

Apesar de focar em um evento importante da Segunda Guerra Mundial, Dunkirk é menos um filme de guerra e mais um filme de sobrevivência nos moldes de Gravidade e Até o Fim. Retratando o resgate aos soldados britânicos na cidade francesa do título, este novo filme de Christopher Nolan joga o espectador no meio do drama angustiante em que se encontram àqueles indivíduos, que tentam se salvar enquanto exércitos alemães os rodeiam constantemente. A partir disso, o diretor realiza aquele que é seu trabalho mais objetivo até agora, conseguindo contar de maneira primorosa uma história muito humana situada no caos desumano de uma guerra.

Escrito pelo próprio diretor, Dunkirk se divide em três linhas narrativas. Na primeira, situada ao longo de uma semana, o jovem Tommy (o estreante Fionn Whitehead) tenta se manter vivo ao lado de seus companheiros de batalha, esperando o resgate no molhe situado na praia da cidade. Na segunda, no período de um dia, o Sr. Dawson (Mark Rylance) atende ao chamado da Marinha e parte com seu barco para tentar resgatar quantos soldados puder, tendo o auxílio de seu filho, Peter (Tom Glynn-Carney), e do jovem empregado George (Barry Keoghan). E na terceira, que acompanha uma hora, os pilotos de caça Ferrier (Tom Hardy) e Collins (Jack Lowden) voam em combate, dando auxílio aéreo às tropas que aguardam resgate ao tentar impedir que aviões alemães realizem ataques à superfície.


Desenvolvendo o roteiro em cima desses três núcleos situados em espaços de tempo diferentes e recorrendo a diálogos apenas quando necessário, Christopher Nolan dá voz a recursos que não são nenhuma novidade em sua filmografia, concebendo uma estrutura não linear que permite que ele utilize à vontade a montagem paralela para seguir o que ocorre em cada parte da história. São coisas que talvez pudessem soar desnecessárias, tendo em vista que a trama em si não deixa de ser bastante simples, mas Nolan consegue fazer com que esses elementos resultem num filme instigante, mantendo o espectador curioso quanto ao desenrolar dos eventos e à maneira como os núcleos auxiliam uns aos outros. Com uma estrutura assim, o diretor e o montador Lee Smith merecem crédito por pularem de um ponto da trama a outro com imensa naturalidade, jamais quebrando o ritmo tenso do filme, que cresce à medida que o tempo passa e o caminho dos soldados rumo à possibilidade de salvação se torna mais estreito.

Aliás, tensão é o que definitivamente não falta em Dunkirk, já que Christopher Nolan é hábil ao explorar o drama daquelas tropas de forma que a narrativa mantenha o público constantemente inquieto. Sendo assim, o filme quase não nos permite respirar, considerando que qualquer paz encontrada pelos soldados é interrompida pouco tempo depois, seja por bombardeios inimigos ou por desavenças entre os personagens. São aspectos que acabam rendendo sequências profundamente angustiantes, como o ataque na praia logo no início, a discussão entre os soldados escondidos em um barco ou o terceiro ato envolvendo um mar repleto de óleo. Também é preciso destacar em meio a isso a trilha de Hans Zimmer, elemento que toca quase ininterruptamente durante a projeção a fim de ressaltar toda a tensão que permeia a narrativa, algo feito com maestria.


O mais curioso é que o filme conta com uma série de personagens que nunca chegam a ser desenvolvidos (alguns nem têm o nome revelado), e ainda assim ele consegue fazer com que nos importemos com eles. Isso se deve não só a situação de vulnerabilidade na qual eles se encontram (é fácil e até natural nos identificarmos com posições desse tipo), mas também porque a humanidade deles é gradualmente revelada pela maneira como eles agem naquele contexto. Está em momentos como aquele em que Tommy ajuda um aliado, ou no outro em que um personagem mente para um soldado para que este não conviva com o peso de um erro. Sem falar no fato de figuras como o Sr. Dawson e Ferrier colocarem suas vidas em risco para tentar salvar compatriotas que eles nem conhecem, fazendo apenas o que eles acreditam ser o certo. E claro que o elenco também exerce um papel importante nessa parte humana ao conseguir dar peso emocional às figuras que interpretam, desde atores iniciantes como Fionn Whitehead (a grande revelação do projeto), Tom Glynn-Carney e Harry Styles até os mais experientes e conhecidos como Mark Rylance, Kenneth Branagh, Cillian Murphy e Tom Hardy.

Dunkirk não se trata de um longa ambicioso ou de escala épica a exemplo de outros trabalhos de Christopher Nolan (A Origem, Interestelar e a trilogia do Cavaleiro das Trevas são as obras mais evidentes nesse sentido). Mas é um relato poderoso sobre um evento marcante do maior conflito bélico da História, se estabelecendo assim como um dos melhores filmes de seu diretor e, certamente, como um dos melhores do ano.


Nota:

Em Ritmo de Fuga

Tendo começado a chamar a atenção a partir do excelente Todo Mundo Quase Morto, Edgar Wright desde então tem se mostrado um realizador com talento para divertir o público com suas narrativas, nos conquistando com inteligência e, por vezes, sabendo brincar até com a própria linguagem cinematográfica. Em Ritmo de Fuga, seu mais novo filme, segue essa linha com naturalidade, de forma que Wright leva apenas alguns minutos para conquistar o espectador não só com a diversão que proporciona, mas também com a precisão técnica com a qual a realiza.

Escrito pelo próprio Edgar Wright, Em Ritmo de Fuga acompanha o jovem Baby (Ansel Elgort), piloto de fugas que tem o hábito de ouvir músicas quase o tempo todo. Devido a uma dívida, ele é sempre chamado por Doc (Kevin Spacey) para ajudar ele e sua equipe de ladrões nos roubos que planejam. Mas após conhecer Debora (Lily James), Baby se preocupa mais do que nunca com a possibilidade de sua vida pessoal se misturar com a profissional, o que pode colocar em perigo as pessoas com as quais ele se importa.


Em Ritmo de Fuga não demora para revelar ser uma espécie de irmão de obras como Caçador de Morte (dirigido por Walter Hill em 1978) e Drive (para citar um exemplo relativamente recente), com a diferença de que aqui Edgar Wright se distancia da seriedade e da melancolia daqueles longas. Sendo assim, logo ao abrir a projeção o diretor traz uma sequência de perseguição insana e divertida que se coloca desde já entre os grandes momentos do cinema em 2017, apresentando ali as habilidades de seu protagonista, que faz coisas inacreditáveis com um carro. Mas mais do que o talento de Baby, as perseguições que pontuam a narrativa exibem a segurança de Wright como diretor de ação. Mesmo com todas as manobras feitas com os veículos, o cineasta nunca deixa o espectador desorientado em cena, conseguindo estabelecer a organização espacial sempre de maneira clara, além de injetar energia às sequências sem precisar recorrer a uma montagem repleta de cortes rápidos, o que também ajuda a manter o espectador envolvido durante a maior parte do tempo.

Tal energia também ganha auxílio da fantástica seleção musical, que se torna um elemento importante não só do protagonista, mas também da própria narrativa como um todo, inevitavelmente lembrando o que James Gunn faz em Guardiões da Galáxia. Aqui, o que é apresentado na tela entra em perfeita sincronia com canções como “Bellbottoms”, “Harlem Shuffle” e “Brighton Rock”, que embalam a trama de maneira cativante. Para completar, é impossível não citar momentos onde Edgar Wright tem sacadas técnicas e visuais inspiradíssimas, que ajudam na construção de uma narrativa ágil e divertida. Isso inclui desde o plano-sequência nos créditos iniciais até as elipses que acompanham Baby em um novo emprego, passando por raccords (cortes que mantém continuidade entre um plano e outro) como aquele em que pulamos de um copo de café para um botão de elevador ou o outro que sai de um estacionamento para um ferro velho.


Enquanto isso, apesar de ser um ator um tanto inexpressivo, Ansel Elgort revela-se um protagonista carismático o bastante para que o espectador se identifique com Baby, fazendo do personagem uma espécie de mistura do Motorista (interpretado por Ryan O’Neal em Caçador de Morte) e Scott Pilgrim, tendo as habilidades do primeiro e a vivacidade do segundo. Além disso, Elgort tem uma ótima dinâmica tanto com Lily James e quanto com CJ Jones (que interpreta Joseph, o pai adotivo e surdo de Baby), que conquistam o espectador e formam com o protagonista um núcleo emocional essencial para que nos importemos com eles. E se digo essencial é porque grandes atores como Kevin Spacey, Jamie Foxx e Jon Hamm conseguem fazer com que Doc, Bats e Buddy não sejam meras caricaturas vilanescas, se apresentando como ameaças palpáveis e gerando tensão a partir de qualquer passo em falso de Baby.

Em Ritmo de Fuga é o tipo de filme que faz o espectador sair da sala de cinema contagiado com sua energia e diversão. Somando-o aos outros belos trabalhos de Edgar Wright, o longa ainda ajuda a estabelecê-lo como um diretor cuja força criativa é cada vez mais admirável.


Nota: