quarta-feira, 19 de julho de 2017

Transformers: O Último Cavaleiro

Transformers é uma franquia impressionante, mas pelos motivos errados. Apesar de já estar completando dez anos nos cinemas, a única coisa memorável que ela tem conseguido mostrar com seus filmes é a estupidez profunda que os permeia, sendo até ofensivo acompanhar o quanto eles subestimam a inteligência do público, como se este fosse tão estúpido quanto. E o diretor Michael Bay e sua equipe pelo visto sentem prazer em abordar o material dessa forma, trazendo sempre a mesma fórmula. Sendo assim, não é surpresa alguma constatar que este Transformers: O Último Cavaleiro, o quinto exemplar da série, simplesmente é mais do mesmo. Ou seja, uma longa tortura.

Assim como seus antecessores, Transformers 5 já começa jogando no lixo qualquer coerência envolvendo a linha temporal da série, revelando que os robôs alienígenas tiveram participação até nas batalhas da Inglaterra nos anos 400, quando formaram uma aliança com o Rei Arthur, Lancelot e Merlin. Já nos tempos atuais, Cade Yeager (Mark Wahlberg) continua sendo um fiel aliado dos Autobots e, após um confronto no qual passa a ter a ajuda da jovem Izabella (Isabela Moner), se vê em posse de um importante talismã referente àqueles velhos tempos da história, objeto que chama a atenção tanto dos maléficos Decepticons quanto do historiador Edmund Burton (Anthony Hopkins). Enquanto isso, Optimus Prime ainda está em busca de seus criadores, se deparando com Quintessa, entidade que conspira destruir a Terra para restaurar Cybertron, o lar dos Transformers.


O que Transformers 5 apresenta ao longo da projeção é simplesmente ridículo, e o mais triste é que Michael Bay parece não perceber isso ou só não se importa, levando a sério o material que tem em mãos e despejando uma série de idiotices no espectador à medida que avançamos na trama. Isso vai desde as ligações antigas dos Transformers com os humanos (é risível que alguém tenha achado que envolver Merlin e Rei Arthur foi uma boa ideia) até a subtrama romântica óbvia e forçada entre Cade e a professora Viviane Wembly (Laura Haddock), passando por cenas constrangedoras como aquela em que o protagonista é questionado por não fazer sexo há algum tempo.

Aliás, o desenvolvimento da trama (se é que podemos chama-la desse jeito) é uma bagunça tremenda, trazendo diálogos pavorosamente expositivos. Logo no início, por exemplo, temos uma narração que trata de estabelecer os principais pontos que acompanharemos, denotando a preguiça dos roteiristas em apostar num desenrolar mais orgânico (não à toa ela é descartada após cumprir seu papel), ao passo que em outros momentos vemos os personagens falando detalhadamente o que irão fazer. E nem sei o que dizer sobre cenas como aquela em que Merlin está claramente bêbado e diz “Deus! Estou embriagado!”. Além disso, o filme traz vários personagens e núcleos narrativos, mas os desenvolve tropegamente, sendo que alguns (como a participação do Agente Simmons, interpretado por John Turturro) poderiam muito bem ter sido cortados para encurtar o desastre.


Mas talvez eu esteja exigindo muito ao querer que Michael Bay conceba algo minimamente consistente nesses aspectos, já que tudo isso pode ser apenas uma desculpa para que se tenha um palco para as sequências de ação. No entanto, de nada isso adianta quando o cineasta basicamente é o rei de criar um verdadeiro caos visual em cena, com rápidos movimentos de câmera e uma montagem picotada que tornam a ação simplesmente incompreensível e entediante, de forma que é inacreditável que tenham sido necessários seis montadores para as coisas ficarem desse jeito. Para completar, o filme não conta com um único personagem com o qual possamos nos importar, já que todos não passam de figuras unidimensionais que desperdiçam o talento de atores como Mark Wahlberg e Anthony Hopkins. Assim, a narrativa não tem peso algum em meio a suas enormes explosões (marcas registradas de Michael Bay), que no fim são apenas sinais da bomba que o filme realmente é.

Há um momento genuinamente engraçado em Transformers 5, quando Michael Bay usa o Transformer-mordomo de Edmund Burton para fazer uma brincadeira com a trilha do filme. Mas essa rara sacada divertida dura meros segundos, não fazendo com que o resto das duas horas e meia de projeção sejam suportáveis ou passem mais rápido. A verdade é que estamos falando de um longa que só existe por conta de seu apelo comercial, porque como narrativa ele apenas estende uma franquia sofrível, que parece determinada a fazer com que cada um de seus exemplares seja um atentado a arte cinematográfica.

Nota:

quinta-feira, 6 de julho de 2017

Homem-Aranha: De Volta ao Lar

Apresentada em Capitão América: Guerra Civil, a nova versão do Homem-Aranha nos cinemas (a terceira depois daquelas de Tobey Maguire e Andrew Garfield) mostrou ser uma figura divertida e cheia de energia, estabelecendo-se como um elemento de destaque naquele ótimo longa lotado de super-heróis. Diversão, aliás, é a palavra-chave deste Homem-Aranha: De Volta ao Lar, novo filme-solo do personagem e que traz uma narrativa disposta a fazer jus ao que o herói apresentou naquela breve participação, conseguindo ser uma produção que entretém o espectador imensamente durante toda a projeção.

Com um roteiro que passou pelas mãos de três duplas de roteiristas, Homem-Aranha: De Volta ao Lar retoma a história do jovem Peter Parker (Tom Holland) alguns meses depois de ele ter se metido na briga que os Vingadores tiveram entre si, tentando lidar tanto com sua vida escolar e pessoal quanto com a vida de herói. Nisso, ele se esforça ao máximo para provar seu valor a Tony Stark (Robert Downey Jr.), que o mantém sob sua supervisão. É então que Peter se depara com a ameaça de Adrian Toomes (Michael Keaton), também conhecido como Abutre, que ao lado de sua gangue tem usado utensílios alienígenas da Batalha de Nova York (vista no primeiro Os Vingadores) para cometer crimes.


Assim é colocado nos trilhos um filme que desde o início busca explorar as melhores qualidades de seu protagonista, desde seu senso de humor até sua empolgação juvenil, detalhes que já se estabelecem logo no começo quando vemos um breve documentário que o próprio personagem realizou com seu celular, trazendo sua visão dos acontecimentos em Guerra Civil de maneira muito divertida. E enquanto esses elementos são bem utilizados para criar uma narrativa leve e que rende vários risos, o diretor Jon Watts não esquece de desenvolver a humanidade de Peter Parker, mostrando que ele é um adolescente que está passando por questões comuns do período (seja a vida escolar e seus compromissos ou até o interesse amoroso não correspondido), sendo difícil não notar também a atenção dada a própria humildade do rapaz, que ainda anda de ônibus, frequenta a lojinha da esquina e mora em um apartamento pequeno com sua tia May (Marisa Tomei), figura que ele se esforça para não preocupar. São detalhes pequenos, mas que ajudam o espectador a se aproximar do personagem, além de diferencia-lo bastante da maior parte dos outros heróis do universo do qual faz  parte.


No entanto, se por um lado Jon Watts acerta em cheio no tom da narrativa, na energia que a permeia e no próprio timing das piadas que vão surgindo ao longo do caminho, por outro ele não chega a conduzir cenas de ação particularmente empolgantes. É indubitavelmente divertido ver o Homem-Aranha em ação e Watts até se esforça para criar grandes momentos nesse aspecto (a sequência do elevador em Washington e a outra envolvendo uma barca são as principais), mas é um pouco decepcionante que o diretor aposte na cartilha da montagem picotada e dos rápidos movimentos de câmera, de forma que o resultado na tela acaba sendo confuso, principalmente quando as cenas são situadas à noite, já que a escuridão se torna mais um obstáculo para a compreensão do que está acontecendo. E se digo isso tendo assistido a cópia 2D do filme, imagino que a 3D piore tudo. Por sorte isso não chega a prejudicar gravemente a narrativa, que ainda consegue manter o espectador envolvido com a história e seus personagens durante a maior parte do tempo.


Falando nos personagens, vale dizer que o elenco talentoso faz um belo trabalho com eles. A começar por Tom Holland, que encarna Peter Parker com um carisma impressionante ao mesmo tempo em que mostra como o rapaz simplesmente adora ser o Homem-Aranha, encarando com gosto qualquer tipo de altruísmo que possa exercer, por mais que ainda tenha muito a aprender. O ator também tem uma ótima dinâmica tanto com o expressivo Jacob Batalon (que interpreta Ned, o melhor amigo de Peter) quanto com Jon Favreau (de volta ao papel de Happy Hogan dos longas do Homem de Ferro) e Robert Downey Jr. Este último, por sinal, nunca tenta roubar o filme para si com suas pontuais aparições (que em determinados momentos são verdadeiros deus ex machina). Aqui, Tony Stark assume um natural papel de mentor, mostrando-se genuinamente preocupado em fazer de Peter um super-herói melhor que ele. E se Marisa Tomei tem uma presença simpática e vivaz como a tia May, apesar de não ter muito espaço para desenvolvê-la (tomara que isso seja corrigido futuramente), Michael Keaton cria em Adrian Toomes um vilão que já se coloca entre os melhores desse universo da Marvel, se destacando não tanto pela ameaça que representa, mas sim por ter motivações plenamente compreensíveis e surpreendentemente dignas, revelando-se um indivíduo que se revolta por ver os poderosos sempre jogando os menos afortunados para baixo e que quer cuidar de sua família de qualquer jeito.

Este novo Homem-Aranha dos cinemas encanta o público com certa facilidade. Até por isso é bom vê-lo render um filme eficiente como este Homem-Aranha: De Volta ao Lar, que aproveita admiravelmente o potencial do personagem que tem em mãos e já nos deixa curiosos quanto a suas futuras aventuras.

Obs.: Há cenas durante e depois dos créditos finais.

Nota:

segunda-feira, 19 de junho de 2017

Ao Cair da Noite

É raro um filme terminar deixando o espectador com uma sensação de ter carregado um grande peso nos ombros durante toda a projeção, mas foi assim que saí de Ao Cair da Noite, segundo longa-metragem de Trey Edward Shults (o mesmo do ótimo Krisha, de 2015). Ao longo de sua uma hora e meia de duração, este terror traz uma atmosfera de tensão incrivelmente densa e angustiante, de forma que podemos até sentir algum alívio quando os créditos finais começam a rolar, nos livrando gradualmente desse peso. Tudo isso é o resultado perfeito de uma narrativa que explora com inteligência o lado sombrio de seus personagens, o que ocorre sem perder de vista a humanidade deles.

Escrito pelo próprio Trey Edward Shults, Ao Cair da Noite nos coloca diante de um mundo com claros tons pós-apocalípticos, no qual uma doença fatal está afligindo as pessoas, liquidando-as uma a uma. É nesse contexto que conhecemos Paul (Joel Edgerton), sua esposa Sarah (Carmen Ejogo) e o filho deles, Travis (Kelvin Harrison Jr.), família que vive praticamente isolada em sua casa e faz o possível para se proteger de quaisquer ameaças. É então que eles se deparam com Will (Christopher Abbott), que lhes pede para ajudar a ele e sua família. Mas apesar de eles entrarem em um acordo com relação a isso, as atuais circunstâncias ainda mantém uma constante inquietação entre todos.

Como o mundo entrou nesse estado trágico em que somos inseridos nunca fica claro, assim como não temos grandes explicações sobre a doença e como exatamente ela é transmitida, se pelo ar ou por contato físico. Mas essas questões não chegam a ser um problema, já que as informações apresentadas são o suficiente para colocar a narrativa nos trilhos dentro daquilo que Trey Edward Shults deseja fazer. E isso se resume basicamente a desenvolver os personagens e as relações entre eles naquele universo para que, a partir desses elementos, ele possa extrair a maior tensão possível.


Nisso, é fascinante ver o cineasta evitar caminhos simplistas para conceber aquele universo e os personagens. Desde o início, Shults deixa claro que todos ali são figuras desesperadas, e é exatamente por isso que as coisas acabam se revelando complexas ao longo da história. Por um lado, compreendemos como eles ficam felizes e mais tranquilos quando encontram um grupo de pessoas que podem ajuda-los em meio a toda dificuldade que vivem. Mas por outro, não deixamos de notar certa amargura nisso tudo, porque as circunstâncias fazem cada um defender seus interesses, impedindo que uma relação de confiança se crie por ali, de forma que qualquer passo em falso feito por parte de alguém deixa a atmosfera imediatamente mais pesada.


O ambiente inóspito do filme, aliás, é construído admiravelmente por Trey Edward Shults, sendo que para isso ele conta com o auxílio da ótima fotografia de Drew Daniels. Enquanto as cenas externas são pintadas com tons acinzentados, as internas situadas na casa de Paul e sua família são predominantemente escuras, geralmente trazendo apenas uma luminária como fonte de iluminação, detalhes que contribuem para estabelecer uma atmosfera que consegue ser melancólica ao mesmo tempo em que é extremamente opressiva e claustrofóbica. Além do mais, isso também não deixa de estabelecer o próprio estado de espírito dos personagens, que já pararam de agir de acordo com o que é certo há muito tempo, dando mais atenção para aquilo que é necessário para sobreviverem, o que consequentemente faz eles abraçarem o que há de mais condenável em si mesmos. E Shults sabe aproveitar esses pontos para criar momentos de pura tensão, como o primeiro encontro entre Paul e Will ou toda a sequência do terceiro ato, sendo que essa tensão ainda é realçada sutilmente pela trilha de Brian McOmber.

Contando também um elenco talentoso que cria personagens multidimensionais com os quais nos importamos (o cada vez mais admirável Joel Edgerton, em especial, impressiona com a intensidade que traz a Paul), Ao Cair da Noite é um exercício de gênero fabuloso e que consegue extrair o melhor de sua premissa do início ao fim. Trey Edward Shults inclusive encerra o longa com aquele que é desde já um dos planos mais desoladores que o cinema produzirá este ano. Um final digno de um grande filme, sem dúvida.

Nota:

sábado, 10 de junho de 2017

A Múmia

Universos compartilhados parecem ter virado moda como modelo de produção para os estúdios, algo até natural considerando os altos números de bilheteria que tem rendido. Depois de termos um universo focado em heróis da Marvel, outro nos heróis da DC Comics e outro com Godzilla e King Kong, agora é a vez de figuras clássicas como Drácula, Monstro de Frankenstein e Lobisomem ganharem seu próprio mundo particular, projeto que dá seu ponta pé inicial nesta nova versão de A Múmia dirigida por Alex Kurtzman, em sua segunda empreitada na função após fazer seu nome como roteirista ao lado de Roberto Orci. No entanto, nem mesmo Tom Cruise consegue tornar animador este início da nova franquia.

Escrito por uma galeria de roteiristas (a versão final do roteiro é creditada a David Koepp, Christopher McQuarrie e Dylan Kussman, enquanto que o argumento foi concebido por Kurtzman, Jon Spaihts e Jenny Lumet), A Múmia nos apresenta a Nick Morton (Cruise), soldado que constantemente corre atrás de valiosas relíquias, tarefa na qual tem o auxílio do sargento Chris Vail (Jake Johnson). Ao lado da arqueóloga Jenny Halsey (Annabelle Wallis), a dupla encontra a tumba da princesa Ahmanet (Sofia Boutella), que foi mumificada e enterrada viva milhares de anos antes. Mas quando ela acorda destruindo tudo o que encontra pelo caminho e tendo um interesse particular por Nick, nem ele nem a Prodigium, organização especializada em estudar e combater o mal e que é liderada pelo Dr. Henry Jekyll (Russell Crowe), parecem ser capazes de para-la.


Reencarnações, vilã que suga outras pessoas para recuperar sua forma física, exército de mortos-vivos perseguindo os mocinhos, casal que se odeia inicialmente, mas gradualmente cria sentimentos um pelo outro. É praticamente impossível assistir a este A Múmia sem sentir que o roteiro aposta em clichês que já vimos em outras produções, sejam estas focadas no monstro do título ou não. Mas esse, na verdade, mostra ser o menor dos problemas do filme, já que ele pega cada um de seus pontos e os conecta com uma trama que não poderia ser mais desinteressante, sendo que o roteiro ainda a desenvolve de maneira bem expositiva para o espectador (como na sequência inicial em que Henry Jekyll conta a história de Ahmanet ou nas pontuais aparições de Vail) e trazendo ideias que beiram o ridículo, como as visões que Nick tem ao longo da projeção.

Enquanto isso, as cenas de ação são conduzidas de maneira burocrática por Alex Kurtzman, rendendo uma série de momentos esquecíveis e que tornam difícil para o diretor envolver o público. Nem a principal sequência do filme, que ocorre com cerca de vinte minutos e é a única que exibe algum esforço criativo ao focar a queda de um avião, consegue impressionar. Ao mesmo tempo, o longa exibe um senso de humor que lembra um pouco o tom da trilogia meia-boca estrelada por Brendan Fraser entre 1999 e 2008 (e que inclusive é referenciada em determinado momento), mas é um aspecto que acaba soando excessivamente bobo e forçado, com direito a uma cena em que devemos rir por Nick sentir cócegas.


Mas o que mais decepciona em A Múmia certamente é seu grande astro. Já comentei em algumas ocasiões o quanto admiro Tom Cruise como ator, mas aqui é profundamente frustrante vê-lo em cena sem fazer esforço para criar um personagem. Seu Nick Morton nada mais é do que uma versão genérica e insossa de heróis de ação que o ator interpretou ao longo da carreira, não tendo nem um terço da intensidade e (o que mais espanta) do carisma que sempre marcaram os trabalhos dele. Já Annabelle Wallis surge inexpressiva como Jenny Halsey, sendo que sua química com Cruise praticamente inexiste, ao passo que Jake Johnson se revela particularmente irritante como Vail, cumprindo pobremente a função de alivio cômico do projeto. E se Sofia Boutella não consegue fazer de Ahmanet uma vilã ameaçadora, Russell Crowe não tem muitas chances para tornar seu Henry Jekyll uma figura interessante, servindo apenas para apontar que o universo do filme é maior do que o que é apresentado aqui, o que só deve ser explorado futuramente nos outros exemplares da franquia.

Espera-se que A Múmia não seja uma amostra do que serão os filmes deste novo universo de monstros. Caso contrário, acompanhar cada um deles promete ser uma experiência cinematográfica triste.

Nota:

quinta-feira, 1 de junho de 2017

Mulher-Maravilha

O histórico de adaptações cinematográficas baseadas em super-heroínas dos quadrinhos é deprimente. Além de elas terem recebido poucas chances como protagonistas ao longo dos anos, principalmente se compararmos com o número de filmes focados nas contrapartes masculinas, tais chances ainda resultaram em verdadeiros desastres, resumindo-se a trinca Supergirl (aquele lançado em 1984), Mulher-Gato e Elektra. Levando isso em consideração, chega a ser um alívio ver esse primeiro filme da Mulher-Maravilha, uma das principais heroínas da DC Comics e que aqui ganha uma bela aventura pelas mãos da talentosa diretora Patty Jenkins, que finalmente faz seu segundo longa-metragem, quatorze anos após sua estreia no ótimo Monster: Desejo Assassino.

Situado praticamente um século antes da breve aparição da protagonista, Diana (Gal Gadot), em Batman vs. Superman, o filme mostra as origens dela como guerreira amazona na ilha de Temiscira e o auxílio que ela decide dar ao espião americano Steve Trevor (Chris Pine) na Primeira Guerra Mundial, depois que o avião do sujeito cai acidentalmente em seu lar. No conflito, Diana pretende destruir Ares, Deus da Guerra e figura que ela acredita estar por trás de toda a destruição que está acontecendo entre os humanos.

Assim como O Homem de Aço, Mulher-Maravilha não tem como um de seus principais focos construir um universo cinematográfico dos heróis da DC Comics, como ocorreu às pressas em meio a bagunça de Batman vs. Superman e teve continuidade ainda pior em Esquadrão Suicida. Sim, há pequenas referências que ligam o filme aos seus antecessores (a principal delas inclusive aparece logo de cara), mas o roteiro escrito por Alan Heinberg, a partir do argumento concebido por ele, Jason Fuchs e Zack Snyder, prefere seguir um caminho mais simples e objetivo, contando a história que tem em mãos e explorando no processo as possibilidades que esta abre. Afinal, além de ter uma super-heroína no centro da narrativa, o filme ainda a situa em um contexto histórico obviamente conservador em 1918, com lugares unanimemente sendo preenchidos por homens enquanto as mulheres ficam submissas a eles, não assumindo posições de destaque (o que lamentavelmente ainda ocorre bastante em pleno 2017). Nisso, o fato de Diana vir de um mundo completamente diferente, habitado e regido por mulheres, e ser uma espécie de peixe fora d’água no mundo dos humanos possibilita que o filme toque com naturalidade nessa desigualdade, seja em um pequeno comentário que a personagem faz sobre o trabalho de secretária ou no silêncio que ela causa com sua mera presença em uma sala cheia de militares.


Aliás, ver Diana se impor diante dos homens ao seu redor é uma das melhores coisas do filme, de forma que ela constantemente puxa para si a responsabilidade que outros não querem ou preferem não assumir em determinadas situações. Nesse sentido, uma das melhores sequências do filme é exatamente o confronto em um vilarejo no qual ela surge no front de batalha como uma líder nata, sendo seguida por Steve Trevor e sua equipe formada por Sameer (Saïd Taghmaoui), Charlie (Ewen Bremmer) e o Chefe (Eugene Brave Rock). E já que falei em confronto, vale ressaltar que as cenas de ação são conduzidas com uma segurança admirável por Patty Jenkins, que mantém a geografia delas sempre clara para o espectador ao mesmo tempo em que impõe um ritmo ágil e envolvente, algo que não se perde nem diante do uso excessivo do slow motion, que aqui até funciona para ressaltar as habilidades da protagonista e outros detalhes das batalhas. Além disso, com o auxilio do excelente design de produção de Aline Bonetto, a diretora concebe maravilhosamente a grandiosidade da ilha de Temiscira e a recriação de época do nosso mundo em 1918, também sendo notável em meio a isso a ótima fotografia de Matthew Jensen, que cria um contraste apropriado entre os dois ambientes, com o primeiro surgindo em cena de maneira calorosa, ressaltando a natureza cheia de humanidade das amazonas, enquanto que o segundo é coberto de tons sombrios condizentes com a guerra.


Depois de ter uma participação pequena demais para dizer a que veio em Batman vs. Superman, Gal Gadot obviamente tem aqui a chance de realmente se destacar, exibindo grande carisma no papel de Diana e encarnando com personalidade a força da personagem e a indignação dela diante da natureza autodestrutiva dos humanos, tornando-a uma super-heroína que rapidamente conquista a simpatia do espectador. A atriz ainda tem uma bela dinâmica com o igualmente carismático Chris Pine, cujo Steve Trevor se estabelece como o óbvio interesse amoroso da protagonista, mas sendo também um elo emocional importante para fortalecer a visão otimista que ela tem da humanidade. E se Robin Wright e Connie Nielsen se destacam mesmo com pouco tempo de tela, fazendo de Antíope e Hipólita (tia e mãe de Diana, respectivamente) personagens fortes e de autoridade inquestionável em Temiscira, o mesmo não se aplica a David Thewlis e Danny Huston, que têm papeis meio subdesenvolvidos como Sir Patrick Morgan e o vilão Erich Ludendorff.

Apesar de decepcionar um pouco em sua batalha final, que tenta se sustentar mais na grande escala dos efeitos visuais do que em qualquer outra coisa, Mulher-Maravilha consegue se estabelecer como um exemplar bastante consistente entre os filmes de super-heróis, o que é importante especialmente em tempos em que a falta de representatividade vem sendo cada vez mais questionada. Assim, o filme é um sopro de ar fresco para os projetos focados em super-heroínas dos quadrinhos e uma boa companhia a outras superproduções protagonizadas por mulheres (como O Despertar da Força, Caça-Fantasmas e Rogue One). Perto disso, ser o acerto que o universo cinematográfico da DC Comics estava precisando é um bônus.


Nota:

sábado, 27 de maio de 2017

Piratas do Caribe: A Vingança de Salazar

Depois de uma trilogia consistente, que se desenrolou de maneira divertida e cada vez mais grandiosa até sua satisfatória conclusão, foi frustrante ver Piratas do Caribe escorregar em seu quarto capítulo, Navegando em Águas Misteriosas, que se revelou decepcionante e totalmente descartável. Mas mais frustrante que isso é ver o mesmo erro ser cometido novamente. É o que ocorre neste quinto filme, A Vingança de Salazar, que nunca justifica a própria existência.

Escrito por Jeff Nathanson a partir do argumento concebido por ele e Terry Rossio (que roteirizou os exemplares anteriores em parceria com Ted Elliot), Piratas do Caribe: A Vingança de Salazar começa nos apresentando ao jovem Henry Turner (Brenton Thwaites), filho de Will Turner e Elizabeth Swann (Orlando Bloom e Keira Knightley, respectivamente) e que quer livrar o pai da maldição do Holandês Voador, navio do qual ele virou capitão ao final do terceiro filme. Para isso, Henry sai em busca do Tridente de Poseidon com a ajuda da astrônoma Carina Smyth (Kaya Scodelario) e do velho conhecido de seus pais, Jack Sparrow (Johnny Depp), cuja morte agora é desejada pelo capitão fantasma Armando Salazar (Javier Bardem), que passa a persegui-lo pelos mares com sua tripulação igualmente amaldiçoada.

Não demora muito para que possamos perceber que este novo exemplar tenta resgatar o espírito dos três primeiros filmes. No entanto, é uma pena que ele faça isso reciclando preguiçosamente uma série de elementos que já vimos antes, de forma que no fim ele acaba soando como uma cópia piorada do que a franquia construiu inicialmente. Temos o vilão amaldiçoado junto com sua tripulação, o filho que quer libertar o pai de uma maldição, o casal de jovens que guardam pra si os sentimentos que têm um pelo outro, a bússola de Jack Sparrow tendo papel importante... Quer dizer, ao que parece não há mais para onde ir ou o que inventar por aqui, com os diretores Joaquim Rønning e Espen Sandberg (os mesmos do bom Operação Kon-Tiki) não tendo chances de trazer coisas novas e expandir o que conhecíamos sobre esse universo. E considerando essa repetição, é até inevitável que alguns pontos da trama se tornem previsíveis.


Não que A Vingança de Salazar não tenha bons momentos. O plano que traz o Pérola Negra dentro de uma garrafa (onde está desde o filme anterior) sendo alinhado com o mar tem sua beleza, ao passo que a participação de um músico famoso se destaca mesmo durando alguns segundos. Da mesma forma, a sequência em que Jack Sparrow quase tem sua cabeça cortada na guilhotina é o tipo de absurdo que tornou a franquia divertida. Mas tudo isso ainda é pouco considerando que a narrativa construída por Rønning e Sandberg se mostra insossa no restante do tempo, com a dupla concebendo cenas de ação que não divertem tanto quanto deveriam (como o roubo ao banco logo no início ou a sequência com os tubarões-fantasma), além de perder tempo com coisas que pouco acrescentam a trama ou são absolutamente descartáveis (o casamento que surge em certo ponto não poderia ser mais constrangedor).

Enquanto isso, Johnny Depp volta ao icônico papel de Jack Sparrow não tendo muita chance de desenvolver um pouco mais o personagem, que ele já interpreta no piloto automático com seus maneirismos. Já seus jovens companheiros de cena, Brenton Thwaites e Kaya Scodelario, até se esforçam como Henry Turner e Carina Smyth, mas não têm uma presença tão cativante ou uma boa dinâmica com Depp, ao contrário daquela que o astro tinha com Orlando Bloom e Keira Knightley. E se Geoffrey Rush até consegue adicionar novas camadas a Barbossa, retornando confortavelmente ao papel e chegando a protagonizar aquele que é o momento mais belo do filme, Javier Bardem pouco pode fazer com Salazar, um vilão que chama atenção visualmente, mas não tem nada de realmente interessante além disso, empalidecendo principalmente quando comparado ao Barbossa do primeiro filme ou ao Davy Jones dos filmes posteriores.

O máximo que A Vingança de Salazar consegue fazer é esticar a série Piratas do Caribe sem exibir qualquer força criativa, apenas tentando aproveitar a nome da marca e contar os milhões de bilheteria que ele ainda é capaz de render. Algo que aparentemente não encontrará um fim tão cedo.

Obs.: Há uma cena após os créditos finais.


Nota:

terça-feira, 23 de maio de 2017

O Retorno de Twin Peaks


(Obs.: Texto referente aos dois primeiros episódios da nova temporada. Ao contrário das críticas habituais aqui do blog, ele contém alguns SPOILERS. Estão avisados.)

Quando séries de TV são canceladas precocemente, o sentimento de decepção é mais do que natural. Mas acho que é seguro dizer que poucas vezes a decepção foi tão grande quanto a proporcionada pelo cancelamento de Twin Peaks em 1991. Famosa por criar um dos maiores mistérios da TV americana (“Quem matou Laura Palmer?”), a série criada por David Lynch e Mark Frost apresentava um universo que fascinava com sua atipicidade, uma hora parecendo algo calcado na realidade apenas para depois passar a exibir toques oníricos, surreais e sobrenaturais, ao mesmo tempo em que nos colocava diante de uma galeria incomum de personagens, que nos guiavam por uma narrativa ambiciosa e inteligente, evitando caminhos fáceis. Seu ciclo na televisão se encerrou com um cliffhanger de deixar os cabelos em pé e que nunca viu uma resolução, o que não poderia ser mais frustrante em se tratando de uma produção como essa, que influenciou várias outras obras televisivas desde então.

Por tudo isso, é difícil não abrir um sorriso ao ver a série receber uma nova chance para explorar seu material e, no processo, instigar o espectador com o que mostra na tela, o que finalmente ocorre nesta nova temporada produzida pelo canal Showtime e cuja exibição no Brasil ficou a cargo da Netflix. E é ainda melhor que isso acontece mantendo o espírito original da série.

Mesmo que já faça 25 anos desde que o universo de Twin Peaks foi visitado pela última vez (o cancelamento foi em 1991, mas David Lynch lançou o filme Os Últimos Dias de Laura Palmer em 1992) e o público provavelmente esteja com saudades de tudo que a série proporcionou, esse retorno não começa querendo acatar desejos nostálgicos de revisitar logo de cara tudo o que conhecemos anteriormente. Sim, reencontramos alguns personagens e voltamos a locais famosos como a delegacia e o Great Northern Hotel, mas ainda são poucas coisas perto de tudo que já faz parte da mitologia da produção. Ao invés de se focar nisso, Lynch prefere já enfiar o pé na porta e apresentar gradualmente peças novas e antigas que devem mover a trama da vez (novamente aviso: se não quiser saber detalhes dessa nova temporada, retorne a este texto após assistir aos dois episódios), mostrando que o agente do FBI Dale Cooper (Kyle MacLachlan) passou todos esses anos preso na Black Lodge, onde ficou ao final da 2ª temporada. Enquanto isso, seu doppelgänger (ou réplica) do mal faz serviços sujos com pessoas igualmente mal encaradas, ao passo que uma estranha caixa de vidro é vigiada em Nova York e a polícia de South Dakota começa a investigar o assassinato brutal de uma bibliotecária.


David Lynch e Mark Frost podem até reabrir as portas para aquele mesmo universo que criaram, mas nunca este se mostrou tão estranho, o que se deve principalmente à atmosfera imposta por Lynch nos episódios (toda a temporada foi comandada por ele, diga-se de passagem). O que encontramos aqui é um mundo que se aproxima bastante de um pesadelo, até lembrando Cidade dos Sonhos e Império dos Sonhos, os últimos longas que Lynch dirigiu. Sendo assim, os dois episódios iniciais dessa temporada se revelam inquietantes e passam uma constante sensação de desconforto, que cresce em determinados momentos graças ao talento do diretor para criar imagens assustadoras, como o ataque sofrido por um casal, o espírito visto em uma cela de prisão ou o corpo da bibliotecária sendo encontrado pela polícia. E se as imagens em si já deixam o público com os olhos arregalados, a excelente trilha de Angelo Badalamenti trata de ressaltar a tensão ainda mais. Não que o humor da série esteja ausente, pois retorna pontualmente com suas excentricidades e provando que ainda é capaz de divertir, como quando Lucy (Kimmy Robertson) recepciona um agente de seguros ou as cenas com a vizinha da bibliotecária, ainda que esta acabe esticando momentos que poderiam ser mais objetivos. Mas ao menos nesse início trata-se de um detalhe que fica um pouco de lado diante dos outros elementos.

Apresentando questões que são capazes de deixar o público zonzo de tão perdido enquanto se pergunta o que diabos está acontecendo, algo que provavelmente renderá discussões e teorias até a chegada do novo episódio na semana seguinte (o que é a caixa de vidro? E as pistas mencionadas pelo Gigante? Como Dale escapará da Black Lodge? Que viagem foi aquela do personagem pela caixa?), esse início de Twin Peaks aponta que a nova jornada não será um quebra-cabeça de fácil resolução. Mas o que ela traz por enquanto já nos deixa intrigados pelo que vem por aí. Basicamente, a série voltou sendo aquilo que costumava ser. E se a placa na entrada da cidade-título nos dá boas-vindas àquele universo, não custa nada devolver a gentileza: Bem-vinda de volta, Twin Peaks!