quarta-feira, 29 de novembro de 2017

Assassinato no Expresso do Oriente

Um dos personagens mais famosos dentre aqueles criados por Agatha Christie (ao lado de Miss Marple), o belga Hercule Poirot é um detetive fascinante. Ler as histórias protagonizadas por ele representa uma experiência deliciosa não só por conta do quão intrigante elas são, mas também pela grande inteligência e perspicácia que o personagem exibe para resolver os casos. É exatamente por isso que é bacana ver o potencial cinematográfico desse material ser novamente explorado, o que no passado rendeu longas interessantes como Morte Sobre o Nilo, protagonizado por Peter Ustinov, e Assassinato no Expresso do Oriente, lançado em 1974 e dirigido por ninguém menos que o mestre Sidney Lumet. É esta última adaptação que ganha uma nova versão agora pelas mãos de Kenneth Branagh, que além de dirigir também assumiu a responsabilidade de ser o novo Poirot dos cinemas. E o resultado não decepciona.

Escrito por Michael Green (que em 2017 já incluiu em seus créditos os roteiros dos excepcionais Logan e Blade Runner 2049), Assassinato no Expresso do Oriente traz Hercule Poirot pronto para descansar após resolver um caso em Jerusalém, um plano que muda quando ele é chamado para mais um trabalho em Londres. Para chegar lá, Poirot sobe a bordo do Expresso do Oriente, tendo uma viagem relativamente tranquila até o momento em que um dos passageiros surge assassinado, fazendo-o pôr em prática suas habilidades a fim de encontrar o culpado entre os outros passageiros do trem.


É uma história clássica de whodunnit (leia-se: quem matou?), e o roteiro desenvolve isso com calma, sem sentir a necessidade de entregar tudo facilmente para o espectador. Na verdade, Assassinato no Expresso do Oriente praticamente nos coloca na pele de Poirot, nos fazendo conhecer os outros personagens e ficar cientes de determinadas informações ao mesmo tempo em que o protagonista, o que faz toda a investigação transcorrer de forma orgânica, sem que grandes conclusões surjam repentinamente. E ainda que o final possa ser bastante conhecido (não se preocupem, eu não vou revela-lo nessa crítica), ver Poirot gradualmente pegar cada peça que aparece em seu caminho e montar o quebra-cabeça da trama é algo que não poderia ser mais instigante.

Assim, Kenneth Branagh concebe uma narrativa que envolve o público com naturalidade, e mesmo que o filme passe a maior parte do tempo em um único cenário (o Expresso do Oriente), ele jamais soa parado, seja porque o diretor consegue impor um ritmo ágil e ressaltar eficientemente a tensão quando precisa ou porque tem sempre alguma coisa acontecendo na trama. Além disso, a direção de Branagh conta com uma elegância que rende momentos bacanas tanto narrativa e quanto esteticamente, como o plano-sequência que segue Poirot atravessando o trem enquanto passa pelos outros passageiros ou a cena em que o corpo da vítima é descoberto, filmada em um belo plano plongé (quando a câmera filma por um ângulo de cima para baixo).


Enquanto isso, o fantástico elenco coadjuvante (que inclui nomes que vão desde veteranos como Judi Dench e Derek Jacobi, passando por Michelle Pfeiffer, Penélope Cruz, Johnny Depp e Willem Dafoe e chegando a atores que passaram a chamar atenção recentemente, como Daisy Ridley e Josh Gad) exerce admiravelmente suas funções, criando personagens com personalidades bem definidas e que exibem uma complexidade surpreendente. Aliás, o fato de Branagh incluir intérpretes negros e latinos no elenco (o que é inexistente tanto no livro original quanto na versão de Sidney Lumet) mostra uma preocupação com a diversidade que traz certa modernização ao filme, sendo que o roteiro ainda aproveita isso para fazer breves e certeiros comentários sociais. É algo que vemos, por exemplo, na cena em que Poirot é avisado de que, caso não investigue o assassinato, a polícia provavelmente irá culpar o Dr. Arbuthnot (Leslie Odom Jr.) ou o chofer Biniamino Marquez (Manuel Garcia-Rulfo), apenas por conta da etnia deles.


Mas é mesmo o próprio Kenneth Branagh quem acaba se destacando mais em frente às câmeras. Interpretando Hercule Poirot, o ator traz um carisma e um senso de humor que conquistam o espectador rapidamente, além de encarnar com naturalidade a inteligência do personagem (estabelecida já na ótima sequência inicial em Jerusalém) e seus maneirismos, como a vaidade dele com seu icônico bigode, o desconforto que sente ao ver algo errado (a cena em que ele pisa em um montinho de fezes é divertida nesse sentido) ou seu sotaque. Para completar, é bom ver que o filme não se desvia do peso enfrentado por Poirot por conta do que descobre ao longo da investigação, discutindo com sensibilidade a moral de sua resolução e dando ao protagonista um arco dramático interessante, tendo em vista a maneira complexa como tal resolução e os ideais de justiça dele (“Há o certo e o errado, e nada entre eles”) se chocam.

Assassinato no Expresso do Oriente mostra saber como prender a atenção do público assim como sua obra original, fazendo jus a esta. E tendo em vista a eficácia do filme e do trabalho de Kenneth Branagh, eu adoraria ver o ator-diretor interpretar Hercule Poirot mais vezes. Histórias com o personagem é que não faltam para isso.

Nota:

terça-feira, 28 de novembro de 2017

Jogos Mortais: Jigsaw

Independentemente da qualidade que exibem a cada novo filme, séries longas como Jogos Mortais não morrem com tanta facilidade, sendo formadas por exemplares que custam relativamente pouco para serem feitos e ganham grande fama em meio ao público. Por conta disso, o fato de o pavoroso Jogos Mortais: O Final ter sido lançado com um subtítulo conclusivo soa como ingenuidade, já que era apenas questão de tempo até que outro filme da franquia entrasse em cartaz. Podemos constatar isso agora com este Jogos Mortais: Jigsaw, que é exatamente o que nos acostumamos a ver em um capítulo da série. E isso não é necessariamente um elogio.

Situado dez anos após a morte de John Kramer (Tobin Bell), mais conhecido como o vilão Jigsaw, este novo longa mostra que cinco pessoas foram sequestradas para participar de um jogo tipicamente mortal, seguindo o famoso modus operandi de Kramer. Enquanto isso, o médico forense Logan (Matt Lamore) auxilia a polícia liderada pelos detetives Halloran (Callum Keith Rennie) e Hunt (Clé Bennett) na investigação para descobrir onde essas pessoas estão e quem está por trás do que está acontecendo, por mais que as pistas pareçam apontar para o próprio Jigsaw.

É o ponto de partida para uma trama que não acrescenta absolutamente nada de diferente a série, seguindo a risca sua fórmula e chegando a repetir vários elementos que víramos nos filmes anteriores, o que faz este novo capítulo parecer um produto reciclado. Sendo assim, o roteiro pode tentar enganar o público para que suas reviravoltas sejam surpreendentes, mas a verdade é que elas não causam muito impacto por já surgirem batidas por natureza, ao passo que a história pouco envolve graças à maneira boba como se desenrola, com a incompetência da polícia e a estupidez das vitimas convenientemente ajudando o plano do vilão a dar certo.


No fim, o que os irmãos diretores Michael e Peter Spierig (os mesmos do ótimo O Predestinado, um dos filmes mais malucos lançados nos últimos anos) têm em mãos é um material que só tenta criar uma desculpa para nos apresentar a novas armadilhas insanas, elementos que de certa forma se tornaram a razão de ser da série (algo parecido ocorre com as mortes vistas na franquia Premonição). Nisso, os realizadores obviamente mergulham numa criatividade absurda, concebendo jogos sanguinolentos que até deixam o espectador curioso quanto a como os personagens irão perecer, além de mostrarem o quão sacana o vilão é capaz de ser.

No entanto, devo dizer que seria agradável ter como torcer para que os personagens escapem vivos da situação em que se encontram, o que inclusive tornaria bem sucedidos os esforços dos diretores para criar tensão. Mas isso é difícil tendo em vista que o elenco não tem carisma algum e ainda encarna figuras canalhas que constantemente negam a própria canalhice, detalhe que só piora a situação deles diante do vilão e do espectador, que não poderia se importar menos com seus destinos. Enquanto isso, o astro da franquia, Tobin Bell, volta ao papel de Jigsaw usando sua voz rouca e congelante para impor a ameaça representada por ele, não tendo muito mais a fazer além disso.

Assim como seus antecessores, Jogos Mortais: Jigsaw acaba servindo mais para fazer dinheiro em cima da popularidade da franquia. Até porque se havia algum objetivo de dar vida nova a ela, isso não deu muito certo, mostrando apenas que existe uma grande escassez de ideias no que diz respeito ao que pode ser feito com esse universo.

Nota:

quarta-feira, 15 de novembro de 2017

Liga da Justiça

Ao escrever sobre Batman vs. Superman, comentei sobre como o filme exibia uma clara pressa dos realizadores para construir um universo cinematográfico da DC Comics, de forma que a narrativa praticamente entrava em colapso por ter que lidar com muito mais coisas do que poderia. Liga da Justiça chega como resultado disso, tratando de reunir logo os principais super-heróis da editora de quadrinhos a fim de fazer frente com sua rival, a Marvel. E apesar de o projeto por trás desse universo não ser dos mais organizados, este novo longa consegue driblar isso e se apresentar como uma produção eficiente e divertida, ainda que fique longe de ser um exemplar de destaque em seu subgênero.

Com roteiro escrito por Chris Terrio e Joss Whedon (que também ficou a cargo da direção de algumas filmagens adicionais) a partir do argumento de Terrio e do diretor Zack Snyder, Liga da Justiça mostra que o mundo está prestes a encarar a ameaça do poderoso Lobo da Estepe (Ciarán Hinds). Ao lado de seus capangas Parademônios, ele pretende encontrar três Caixas Maternas, objetos cujo poder pode ajuda-lo a conquistar o planeta. Com isso em vista e sem poder contar com Superman (Henry Cavill), Bruce Wayne (Ben Affleck) tem a ajuda de Diana Prince (Gal Gadot) para formar um grupo de super-heróis que possa enfrentar tal ameaça, conseguindo recrutar Arthur Curry (Jason Momoa), Barry Allen (Ezra Miller) e Victor Stone (Ray Fisher), também conhecidos respectivamente como Aquaman, Flash e Cyborg.


Já é possível notar pela premissa que Liga da Justiça é um filme simples em sua história, se preocupando menos com a construção de seu universo e mais com as peças que tem em mãos, possibilitando que Zack Snyder crie uma narrativa mais objetiva e coesa que a de sua empreitada em Batman vs. Superman. No entanto, vale dizer que ao mesmo tempo trata-se de uma trama bem básica e que não sai nada do lugar-comum, se rendendo a uma fórmula relativamente segura para dar rumo a grande reunião que toma a tela, não tendo maiores ambições além disso. O roteiro até busca usar seus super-heróis para ressaltar como vale a pena lutar pela humanidade por mais falha que esta seja, recuperando um pouco do otimismo tão bem abordado em Mulher-Maravilha, mas isso ainda fica muito em segundo plano em meio ao desenvolvimento da história, que encontra dificuldades para instigar o espectador por nunca se arriscar, preferindo apenas seguir caminhos já traçados por outros longas.

Apesar disso, o principal atrativo de Liga da Justiça funciona admiravelmente. Ver Batman, Mulher-Maravilha, Flash, Aquaman e Cyborg juntos é certamente o ponto alto do filme, sendo interessante também notar as personalidades de cada um, aspecto que inclusive ajuda a equilibrar o tom da narrativa conduzida por Zack Snyder, que nem fica tão séria como o Batman de Ben Affleck nem muito engraçada como o Flash de Ezra Miller. Aliás, o elenco merece créditos por encarnar com segurança e carisma seus respectivos personagens, além de conseguir trazer densidade a eles sempre que necessário, ajudando a fazer com que o espectador se importe com eles. E é bom ver que, ainda que Affleck e Gal Gadot ganhem um protagonismo um pouco maior, cada um tem sua chance de brilhar (o Aquaman de Jason Momoa, por exemplo, protagoniza um dos momentos mais divertidos do filme ao declarar algumas coisas para seus colegas).


Enquanto isso, Zack Snyder cria sequências de ação que não chegam a ser particularmente memoráveis, soando até burocráticas em determinados momentos, mas que entretém pela dinâmica cativante formada pelos heróis, que naturalmente se auxiliam e salvam uns aos outros em meio às batalhas, enquanto piadinhas são inseridas pontual e organicamente, funcionando na maioria das vezes. Isso compensa um pouco a ameaça incrivelmente pobre enfrentada por eles. Infelizmente, o Lobo da Estepe (que Ciarán Hinds interpreta através da tecnologia de captura de movimentos) surge como um vilão unidimensional e nada ameaçador, por mais que seus planos sejam grandiosos e destrutivos, de forma que ele acaba soando apenas uma mera desculpa para reunir a Liga.

Liga da Justiça se esforça bastante para ser um bom entretenimento para o espectador. Mesmo nisso ele não chega a ser um filme impressionante, mas consegue agradar o suficiente para não ser classificado como uma decepção.

Obs.: Há uma cena durante e outra depois dos créditos finais.

Nota:

domingo, 29 de outubro de 2017

Tempestade: Planeta em Fúria

Tendo se firmado como roteirista e, mais frequentemente, produtor ao longo das últimas duas décadas, Dean Devlin toma um novo rumo neste Tempestade: Planeta em Fúria, no qual ele se arrisca pela primeira vez na cadeira de diretor. E não chega a ser exatamente uma surpresa que ele tenha recorrido a um filme-desastre para isso, considerando sua parceria com Roland Emmerich, um dos nomes mais conhecidos no que diz respeito a esse tipo de filme (juntos eles produziram e escreveram Independence Day e o Godzilla de 1998, ambos dirigidos por Emmerich). No entanto, apesar de buscar entreter o público com toda a ação que se desenrola na tela, o máximo que Devlin consegue fazer nessa sua estreia é... Bem, um desastre.

Escrito por Devlin e Paul Guyot, Tempestade apresenta um futuro próximo no qual o mundo todo se uniu para se salvar de catástrofes climáticas que ameaçaram a humanidade, algo que os governos resolveram com a criação do Dutch Boy, uma rede de satélites cuja tecnologia mantém tais catástrofes sob controle. Anos depois, quando a máquina começa a apresentar problemas, seu criador, Jake Lawson (Gerard Butler), é convocado para ir até a estação espacial que a controla a fim de ver o que está acontecendo e impedir um desastre global.


Filmes-desastre têm uma fórmula clássica, buscando apresentar personagens com os quais o espectador possa se identificar para que, assim, tenhamos algum elo emocional em meio as destruições que ganham a tela. Com isso, quando os principais personagens chegam vivos ao final da projeção, o próprio espectador pode sentir que sobreviveu junto com eles. O filme até tem noção de tudo isso, mas segue esses pontos de um jeito extremamente rasteiro ao longo da história, com um roteiro que desenvolve os personagens e seus dramas pessoais de maneira superficial e boba, chegando ao ponto de trazer Jake e seu irmão, Max (Jim Sturgess), discutindo seus problemas (ou melhor, birras) durante uma transmissão via satélite ao invés de se concentrarem em salvar o mundo. Além disso, a própria trama não poderia ser mais clichê, ficando pior por tomar direções que beiram o ridículo em determinados momentos, seja pela previsibilidade de certas reviravoltas ou pelo terceiro ato conveniente.


Na verdade, o que vemos é um fiapo de trama que acaba servindo apenas para que o filme tenha uma base na qual Dean Devlin possa tentar criar um espetáculo de efeitos visuais. Mas é difícil se importar com qualquer coisa que surja na tela quando a narrativa em si não tem nenhum peso dramático. Se Devlin concebesse aqui a maior destruição da história do cinema, ela ainda não teria impacto por não haver nenhum elemento humano palpável diante do que está acontecendo. Assim, nem o elenco se salva, já que, mesmo tendo nomes interessantes como Gerard Butler (que está com o dedo cada vez mais podre pra escolher projetos), Ed Harris, Alexandra Maria Lara e Jim Sturgess, pouco pode fazer com a gama de personagens unidimensionais que carregam a narrativa. Para completar, as próprias sequências focadas nos diversos desastres que ocorrem são conduzidas sem a menor criatividade pelo diretor, podendo até ser bem realizadas no quesito efeitos visuais, mas ficando muito longe de impressionar, de forma que o que temos no fim das contas é só uma superprodução vazia e, consequentemente, aborrecida.

É possível ver boas intenções em Tempestade, considerando que ele situa sua trama em um universo no qual as pessoas estão unidas, pouco ligando para suas diferenças e tentando resolver os problemas ambientais causados por elas mesmas. Mas de boas intenções o inferno está cheio, e é uma pena que Dean Devlin insira esses detalhes em meio a uma narrativa tão pobre.

Nota:

quarta-feira, 11 de outubro de 2017

A Morte Te Dá Parabéns

Feitiço do Tempo logo vem em mente sempre que surge um novo filme que utiliza a estrutura de loop temporal para contar sua história, focando em um protagonista preso em um determinado período de tempo que se repete várias vezes e exatamente da mesma forma. É um recurso capaz de render uma narrativa que mantém o espectador curioso quanto a seu desenvolvimento, tendo originado outras obras admiráveis além da clássica comédia de Harold Ramis, com No Limite do Amanhã, Contra o Tempo e Corra Lola, Corra sendo exemplos disso. No entanto, infelizmente não consigo dizer que este A Morte Te Dá Parabéns se junta a essas produções.

Escrito por Scott Lobdell, A Morte Te Dá Parabéns acompanha Tree Gelbman (Jessica Rothe), jovem e arrogante estudante que inicia seu aniversário acordando no dormitório do tímido Carter (Israel Broussard) após uma noite de festa. Mas depois de seguir com seus compromissos ao longo do dia, ela é assassinada por um maníaco mascarado, ficando surpresa por isso fazê-la voltar a acordar no início do mesmo dia e nas mesmas condições de antes. Vendo-se presa nesse tempo, Tree passa a tentar descobrir quem está querendo mata-la, tendo diversas chances para resolver isso e contando com a ajuda de Carter.


A Morte Te Dá Parabéns não deixa de ser uma espécie de remake de Feitiço do Tempo, tendo em vista o arco dramático percorrido por Tree, que é basicamente o mesmo que o de Bill Murray naquele longa. Mas não é tanto isso que impede a produção de cativar o espectador, já que a ideia de usar essa estrutura de loop temporal em um filme de slasher (o subgênero de terror conhecido por ter um assassino geralmente mascarado que coleciona vítimas) não deixa de ser curiosa. A maneira como as coisas se desenvolvem por aqui é que incomoda por sua obviedade, algo que vale mesmo quando o roteiro tenta ser sutil, como na cena em que a protagonista desliga a TV em meio a uma notícia importante (aliás, é triste que esse recurso batido e preguiçoso ainda seja usado para apresentar informações). Com isso, o filme pode até querer surpreender com algumas reviravoltas, mas acaba não causando impacto por não conseguir impedir o espectador de antecipa-las.


Isso ocorre até por conta da direção de Christopher Landon (responsável pelo razoável Como Sobreviver a um Ataque Zumbi e pelo pavoroso Atividade Paranormal: Marcados Pelo Mal), aspecto que se revela meio pedestre durante boa parte do tempo. Apesar de criar um ou outro momento divertido (um personagem repentinamente surge na tela após uma breve queda de luz, por exemplo) e exibir coordenação na condução das diversas vezes em que Tree acorda e sai andando pelo campus da universidade, Landon ainda assim não evita de cair em clichês como o uso da trilha para ressaltar sustos, além de não criar tensão quando precisa, seja nas várias sequências de assassinato de Tree ou nos embates do terceiro ato. Para completar, o lado mais humano da história (calcado no passado da protagonista com a mãe e os atuais problemas dela com o pai) acaba apenas sendo fonte para o cineasta apostar num sentimentalismo barato, como se isso compensasse o desenvolvimento superficial dessa subtrama do filme.

É até louvável o esforço de A Morte Te Dá Parabéns para fazer algo de diferente em uma produção cujo subgênero é tão engessado por fórmulas e convenções. Mas ao mesmo tempo é lamentável que o máximo que os envolvidos no projeto conseguiram fazer foi um filme bobo e facilmente esquecível.

Nota:

sábado, 7 de outubro de 2017

Blade Runner 2049

Lançado em 1982, Blade Runner é um exemplo de como o tempo pode ser importante para a recepção de uma obra de arte. Adaptado a partir do livro de Philip K. Dick, o filme de Ridley Scott precisou de alguns anos (e várias versões) para ser reconhecido como um grande clássico, sendo não só um excelente neo-noir, mas também uma ficção científica que mergulha de cabeça em discussões sobre humanidade, rendendo até hoje belos debates. Trata-se também de um filme que termina de maneira bem resolvida, fazendo a ideia de uma continuação naturalmente soar desnecessária. Por sorte, com Blade Runner 2049, o diretor Denis Villeneuve e sua equipe conseguem levar essa ideia às telonas em um longa que mantém o espírito do original, fazendo jus a este.

Escrito por Michael Green e Hampton Fancher (um dos roteiristas do original) a partir do argumento deste último, Blade Runner 2049 se situa trinta anos após os eventos do longa anterior e segue os passos de K (Ryan Gosling), replicante que trabalha como blade runner (ou caçador de androides) para a polícia de Los Angeles, no departamento liderado por Joshi (Robin Wright). Após um encontro com o fazendeiro Sapper Morton (Dave Bautista), K embarca em uma grande investigação que pode revelar segredos importantes e que ainda o leva até o antigo blade runner Rick Deckard (Harrison Ford).


É uma investigação muito bem estruturada, por sinal, permitindo que Denis Villeneuve até repita muito do que havia feito no excepcional Os Suspeitos. Ou seja, além de desenvolver a história com calma, o diretor apresenta determinadas peças com naturalidade e sutileza, de forma que elas podem aparentar não ter importância inicialmente, mas surpreendem ao ganharem sentido mais tarde. No entanto, vale dizer que tudo isso na verdade é usado mais como base narrativa pelo roteiro, cuja ambição principal nivela com aquela do filme original ao ter um interesse maior em dar continuidade aos temas com os quais nos familiarizamos há 35 anos, evitando seguir por caminhos simples para isso.

Sendo assim, Blade Runner 2049 aproveita a riqueza de seu universo para expandir ideias fascinantes, o que faz a investigação conduzida por K representar uma espécie de jornada tanto pela natureza humana quanto pela natureza replicante. E com humanos e replicantes se parecendo cada vez mais (estes até já contam com uma certa divisão ideológica), o filme levanta questões curiosas. Afinal, o que realmente diferencia um do outro? O fato de humanos nascerem e replicantes serem construídos? Isso faz os primeiros supostamente terem alma e os outros não? E se este é o caso, como seria se replicantes pudessem se reproduzir? Questões como essas sempre fizeram parte do cerne de Blade Runner (tanto do primeiro filme quanto do livro de Philip K. Dick), e aqui ajudam a tornar a narrativa muito intrigante, sendo capaz de nos fazer refletir sobre o que é ser humano no fim das contas. E o roteiro é inteligente ao instigar esses pontos sem sentir a necessidade de entregar respostas fáceis, presando muito pela ambiguidade e convidando o espectador a tirar suas próprias conclusões em cima de tudo o que é apresentado.


Ao mesmo tempo, assim como Ridley Scott havia feito em 1982, entrar nesse universo distópico não é uma experiência que Denis Villeneuve torna agradável, já que por mais que ele renda imagens esteticamente belas, ainda se trata de um mundo futurista desesperançoso, dominado por grandes corporações e habitado em boa parte por figuras renegadas. Com isso em mente, Villeneuve impõe um ritmo bastante cadenciado, o que ajuda na ambientação opressiva pela qual passamos durante todo o filme. Além disso, o design de produção faz um trabalho primoroso ao conceber a Los Angeles de 2049 como um lugar que, apesar de ter evoluído tecnologicamente ao longo dos anos, ainda é a metrópole imponente e desolada que conhecíamos, ao passo que a belíssima fotografia do mestre Roger Deakins (desde já um forte concorrente ao Oscar) preenche aqueles espaços com tons sombrios que refletem o estado de espírito dos personagens e da própria narrativa. Isso entra em contraste direto com locais como a empresa do vilão Niander Wallace (Jared Leto) e o esconderijo de Deckard, que surgem na tela com tons mais vivaz que ressaltam o poder do primeiro e o deserto que domina os arredores do segundo. Já a trilha composta por Hans Zimmer e Benjamin Wallfisch consegue dar toques melancólicos e tensos a narrativa, sendo eficiente também em seus esforços para manter o estilo da clássica trilha que Vangelis fez para o primeiro filme.


Mostrando admirável segurança interpretando K, Ryan Gosling faz do novo protagonista uma figura que se deixa agir pela frieza, evitando exibir um senso de empatia até por outros replicantes, algo que naturalmente o ajuda em seu trabalho. É como se o fato de ele saber que é um replicante o fizesse não ver razão para exibir humanidade, algo sinalizado até pelo desinteresse dele em querer compartilhar uma de suas memórias em determinada cena (“Não são reais, são só implantes”, ele diz). Exatamente por conta desses detalhes é que o arco dramático percorrido por ele se revela tão rico. E se Ana de Armas vive Joi, a namorada digital de K, com uma bem-vinda doçura, formando com Gosling um elo emocional que ajuda a dar peso dramático aos dois personagens, Harrison Ford retorna ao papel de Rick Deckard com uma sensibilidade até maior que a da primeira vez em que encarnou o velho blade runner, dando mais densidade àquele que é, ao lado de Indiana Jones e Han Solo, um de dos personagens icônicos de sua carreira. Fechando o elenco principal, Robin Wright se destaca ao fazer de Joshi uma figura forte em sua autoridade, ao passo que Jared Leto vive o ambicioso Niander Wallace de maneira contida e com um constante ar de mistério que o torna um vilão imprevisível.

Ultimamente temos visto franquias famosas ganharem nova vida nos cinemas, com exemplos admiráveis em Mad Max, Star Wars e Caça-Fantasmas. Em meio a isso, Blade Runner 2049 surge como uma experiência surpreendente e enriquecedora. Uma continuação digna da obra-prima que a originou.

Nota:

quinta-feira, 21 de setembro de 2017

mãe!

(Obs.: Ao escrever sobre o filme, não pude evitar comentar alguns spoilers da trama. Portanto, caso não queira saber detalhes importantes sobre o longa, recomendo que retorne ao texto após assisti-lo.)

Darren Aronofsky não é um diretor conhecido por conceber experiências particularmente agradáveis para o espectador. A maioria de seus filmes exibe uma riqueza construída através de narrativas que, em maior ou menor grau, se revelam provocativas e inquietantes. Isso se repete neste mãe!, que dentro da carreira do diretor dialoga bastante com seus dois últimos trabalhos, Cisne Negro e Noé. Enquanto se desenvolve como um terror psicológico, o longa conta uma história cuja alegoria é claramente baseada em elementos bíblicos, o que Aronofsky usa com inteligência para discutir questões muito pertinentes com relação ao mundo em que vivemos e a sociedade que formamos.

Escrito pelo próprio Darren Aronofsky, mãe! traz Jennifer Lawrence interpretando a personagem-título, que vive em uma bela e isolada casa ao lado do marido (chamado de Ele e interpretado por Javier Bardem). Enquanto ela se esforça para reformar o lugar, que há algum tempo foi palco de uma tragédia, Ele luta contra um bloqueio criativo que o impede de continuar seu aclamado trabalho como poeta. É nesse contexto que eles recebem a visita do Homem e da Mulher (Ed Harris e Michelle Pfeiffer, respectivamente) e, a partir disso, estranhos eventos passam a ocorrer, quebrando a tranquilidade que reinava até então.


Trazendo um universo no qual a Mãe surge como a única figura de bom senso na história, o filme consegue se apresentar como um exercício de gênero bastante eficiente, já que tudo durante a projeção parece se recusar a ocorrer de acordo com o que a protagonista planeja. A partir disso, com a ajuda da fotografia de Matthew Libatique (que aposta quase sempre em tons sombrios), Darren Aronofsky é hábil ao criar uma verdadeira atmosfera de pesadelo que se faz presente durante todo o filme, impondo gradualmente tons surreais que impressionam pelos absurdos que exibem. Tais detalhes naturalmente criam um constante desconforto, o que ocorre principalmente por conta de nossa identificação com a protagonista e a situação em que se encontra. A Mãe, por sinal, é interpretada com talento por Jennifer Lawrence, que encarna convincentemente a sensação de deslocamento da personagem e sua vulnerabilidade, além da força que ela passa a encontrar a partir de seu profundo descontentamento com tudo o que presencia.

Mas as discussões que Darren Aronofsky traz para a narrativa fazem de mãe! um filme que vai além da tensão que proporciona. Desde o princípio, não podemos dizer que o diretor é sutil ao estabelecer as raízes bíblicas da trama que desenvolve, seja ao trazer um personagem com um ferimento na altura das costelas, uma cena envolvendo dois irmãos (vividos por Domhnall Gleeson e Brian Gleeson, irmãos na vida real) ou até diálogos como “Eu quero criar um paraíso” e “Vou cuidar do Apocalipse”. Mas, mesmo que fique óbvio, é interessante acompanhar a maneira com que Aronofsky utiliza a alegoria que desenvolve para comentar a desvalorização enfrentada pelas mulheres em meio à sociedade. Ao longo do filme, o roteiro apresenta a Mãe como uma peça primordial na concepção da casa onde vive (uma representação do nosso mundo), mas que mesmo assim é tratada com descaso e desrespeito pelas figuras ao seu redor, inclusive por Ele, tendo sua autoridade e suas ideias constantemente subestimadas e/ou ignoradas, enquanto o marido ganha um crédito muito maior pelo que faz e representa como artista, numa discrepância clara que não deixa de refletir de alguma forma a nossa sociedade machista.


E Aronofsky não para por aí. Sendo Ele uma representação de Deus, é mais uma vez curioso notar a visão que o diretor tem dessa figura. Se em Noé o Criador era um vilão inexorável em seu plano para a humanidade, aqui ele surge na pele do ótimo Javier Bardem como uma figura essencialmente egocêntrica, que permite que a adoração que recebe das pessoas em sua casa o cegue para os erros que comete e justifique o que elas fazem, mantendo-as por perto mesmo quando passam a agir de maneira absurda. É algo que não deixa de explorar a negação de muitos em aprender com seus erros e conhecer sua história, o que inevitavelmente os leva a repetir tudo, formando um loop infinito que é refletido pela narrativa na própria estrutura do roteiro. Além disso, Aronofsky não deixa de pôr em cheque a sociedade em si, sendo ela retratada como uma gama de pessoas sem consideração pelo que há em seu redor e que não pestanejam em destruir umas as outras, pontos que acabam servindo para questionar se vale a pena dar a elas o amor e a importância que Ele tanto dá em detrimento da Mãe e seu lar.

Há momentos em mãe! nos quais a impressão que se tem é a de que o longa fica sob o efeito de algum tipo de droga pesada, tamanho grau de insanidade que rege a espiral de emoções apresentada pela trama. Mas nada disso soa gratuito na tela, com Darren Aronofsky mostrando saber como tirar o espectador da zona de conforto, confrontando-nos com uma narrativa bastante intrigante, capaz de nos fazer pensar por muito tempo no que acabamos de assistir.

Nota: