quinta-feira, 1 de fevereiro de 2018

A Forma da Água

Ao longo de sua carreira, o diretor Guillermo del Toro já demonstrou algumas vezes ter apreciação por figuras marginalizadas, além de mostrar que os próprios seres humanos são capazes de serem verdadeiros monstros. Blade e Hellboy eram heróis que ajudavam a proteger uma sociedade que provavelmente tentaria queima-los em uma fogueira se soubessem de sua existência, dando voz ao próprio medo, ao passo que filmes como A Espinha do Diabo, O Labirinto do Fauno e A Colina Escarlate lidam com fantasmas e outros seres fantásticos, mas sem encará-los como as ameaças de suas histórias, papel exercido por humanos poderosos e odiosos. Esses pontos de interesse do diretor ajudam a reger este A Forma da Água, uma fábula na qual ele mais uma vez exibe sua grande visão e imaginação.

Escrito pelo próprio Guillermo del Toro em parceria com Vanessa Taylor, A Forma da Água nos leva até o início da década de 1960 e apresenta Elisa Esposito (Sally Hawkins), mulher muda que trabalha no setor de limpeza de um laboratório do governo e tem como únicos amigos o vizinho homossexual Giles (Richard Jenkins) e a colega Zelda (Octavia Spencer). Levando uma vida relativamente simples, Elisa vê sua rotina sofrer uma reviravolta quando um homem anfíbio (Doug Jones) é trazido ao laboratório para ser estudado, sofrendo torturas pelas mãos do coronel Richard Strickland (Michael Shannon). Aos poucos, Elisa se aproxima do ser recém-descoberto, iniciando um relacionamento no qual ambos parecem ser os únicos capazes de entender um ao outro.


Podemos notar rapidamente que Guillermo del Toro parece ter buscado inspiração em A Bela e a Fera, seguindo mais ou menos o mesmo caminho de Tim Burton em Edward Mãos de Tesoura. No entanto, del Toro usa a premissa não só para desenvolver o romance entre a protagonista e o homem anfíbio, mas também para explorar os preconceitos da sociedade e que afloram, principalmente, na figura de Richard Strickland. Nesse sentido, considerando que temos uma muda, um homem anfíbio, um homossexual e uma negra entre os personagens pelos quais torcemos ao longo da projeção, o diretor faz em A Forma da Água uma espécie de levante das minorias contra aqueles que as oprimem.

Del Toro conduz tudo isso com sensibilidade, sabendo inclusive equilibrar momentos dramáticos com outros mais divertidos, sendo que a narrativa fabulesca concebida pelo diretor é tão cheia de doçura que é possível ver na tela o carinho dele por essa história e pelos personagens, algo que não deixa de ser ressaltado pela linda trilha de Alexandre Desplat. Além disso, como é comum nos trabalhos de del Toro, a parte puramente técnica e estética do filme é de encher os olhos. O design de produção, por exemplo, é hábil ao conceber os lares de Eliza e Giles como lugares simples, mas aconchegantes e cheios de calor humano, enquanto que o laboratório que resguarda o homem anfíbio surge de maneira intimidante, e a excelente fotografia de Dan Laustsen trata de drenar a vida daquele local ao apostar em cores frias, revelando muito sobre a natureza de quem comanda tudo por ali.


Já o ótimo elenco faz um trabalho formidável com seus personagens. Se Richard Jenkins e Octavia Spencer conferem um carisma arrebatador e uma grande força de caráter a Giles e Zelda, tendo também uma bela dinâmica de companheirismo com a protagonista, Michael Stuhlbarg se destaca ao fazer do cientista Robert Hoffstetler um homem capaz de sacrificar a própria integridade moral a fim de fazer o que acredita ser certo (aliás, considerando sua participação memorável em Me Chame Pelo Seu Nome e a outra menor em The Post, Stuhlbarg pode se orgulhar bastante de seu 2017). E se Michael Shannon usa sua persona rígida e um tanto insana para fazer de Richard Strickland um vilão apropriadamente odiável e frio, mas jamais unidimensional (reparem que ele não exibe reação nem quando recebe um simples beijo do filho pequeno), Doug Jones traz uma humanidade essencial ao homem anfíbio mesmo com toda a excelente maquiagem usada para conceber o personagem visualmente. Mas o filme pertence mesmo a Sally Hawkins, que surge em uma de suas melhores atuações, conseguindo fazer de Elisa uma mulher que conquista a simpatia do público com sua bondade e determinação, estabelecendo-a como uma protagonista extremamente forte ainda que sua aparência e sua mudez apontem vulnerabilidade.

Mas é exatamente disso que a fábula de A Forma da Água se trata. Aparências não são nada quando comparadas com o que temos em nossos corações. E é bom ver Guillermo del Toro mostrar isso de maneira rica em mais um longa de destaque, celebrando o amor e a empatia e condenando o ódio e o medo que tanto nos atrasam como sociedade.


Nota:

quarta-feira, 3 de janeiro de 2018

Jumanji: Bem-Vindo à Selva

Lançado em 1995, Jumanji é uma aventura escapista deliciosa, que parte de uma premissa bem imaginativa, desenvolvendo-a de maneira divertida e com um elenco carismático liderado pelo saudoso Robin Williams (e tendo eu sido uma criança que cresceu na década de 1990, o filme foi uma das obras que marcou esse período para mim). É exatamente por este caminho que essa continuação, Jumanji: Bem-Vindo à Selva, busca seguir, mesmo que sua trama seja diferente daquela que havíamos acompanhado há pouco mais de 20 anos. E o novo longa até que se sai bem dentro dessa proposta.

Voltando ao universo do livro escrito por Chris Van Allsburg no início da década de 1980, Jumanji 2 nos apresenta aos jovens Spencer (Alex Wolff), Fridge (Ser’Darius Blain), Bethany (Madison Iseman) e Martha (Morgan Turner), que ficam em detenção na escola após se meterem em confusões. É quando eles se deparam com uma versão em videogame de Jumanji, que acaba sugando-os direto para dentro de seu universo, onde cada um deles assume um avatar diferente. Com isso, o quarteto se vê encarnando, respectivamente, o Dr. Smolder Bravestone (Dwayne Johnson), seu ajudante Franklin “Mouse” Finbar (Kevin Hart), o Professor Shelly Oberon (Jack Black) e a comando Ruby Roundhouse (Karen Gillan), passando a enfrentar uma série de desafios para poderem voltar para casa.


Ao trocar o tabuleiro pelo videogame, o filme já mostra seu desejo de atualizar a premissa que vimos em seu original. Não deixa de ser uma decisão desnecessária, mas o roteiro consegue fazer com que isso abra espaço para que ele aposte em ideias que o afastem de ser apenas uma repetição da fórmula. Assim, por mais que a estrutura narrativa seja um tanto episódica, com os desafios encarados pelos personagens surgindo como fases do jogo, isso possibilita que o diretor Jake Kasdan (filho do diretor e roteirista Lawrence Kasdan) conceba cenas de ação um pouco mais elaboradas e absurdas comparadas com aquelas do primeiro filme, algo natural tendo em vista que o astro da produção dessa vez é Dwayne Johnson. Nisso, o longa diverte na maior parte do tempo, ainda que em momento algum o diretor consiga dar peso a narrativa ou trazer ameaças realmente convincentes, sendo que nesse último quesito o vilão Van Pelt (agora interpretado por Bobby Cannavale, assumindo o papel que antes fora de Jonathan Hyde) é simplesmente ridículo.


Porém, o que acaba realmente sustentando Jumanji 2 é a dinâmica de seu elenco principal, que se mostra simpática pela confiança que eles vão criando entre si gradualmente, se importando uns com os outros e conquistando no processo a torcida do público. Além disso, o fato de os personagens serem adolescentes em corpos de adultos se revela um prato cheio para que os atores se divirtam em suas composições, merecendo destaque especial Dwayne Johnson com o jeito nerd e um tanto desajeitado de Spencer (aliás, o talento cômico do ator brilha em seu “olhar intenso”) e Jack Black e os toques afeminados com os quais ele vive Bethany.

Jumanji 2 fica longe de ser uma aventura memorável, sendo até bastante previsível no desenvolvimento de sua trama e dos dramas de seus personagens. Mesmo assim, o que temos aqui é um entretenimento válido, que funciona bem até a hora de as luzes da sala de cinema serem acesas.

Nota:

domingo, 31 de dezembro de 2017

Os Melhores e os Piores Filmes de 2017


Chegamos ao costumeiro momento em que anuncio aqui no blog aqueles que, para mim, foram os melhores e os piores filmes lançados nos nossos cinemas durante o ano. Sem mais delongas, vamos a eles.

Começando pelas bombas. Confiram com cautela.

Os piores filmes lançados no Brasil em 2017:


10) Baywatch: S.O.S. Malibu (Baywatch), de Seth Gordon

Versão para o cinema da famosa série de TV, Baywatch é um filme sofrível, para dizer o mínimo. Ao acompanhar a equipe de salva-vidas liderada por Mitch Buchannon (Dwayne Johnson), é clara a intenção do longa de querer apostar em uma narrativa irreverente para contar a história, mas quando o material é ruim as coisas se complicam. Trazendo uma série de gags bobas e ridículas (quando não são constrangedoras), o filme não diverte como gostaria, além de contar com subtramas clichês que o tornam mais longo do que o necessário e deixam óbvio seu caráter episódico. Nem mesmo Dwayne Johnson, um cara que geralmente exala carisma, tem uma presença cativante por aqui.


9) Tempestade: Planeta em Fúria (Geostorm), de Dean Devlin

Filme que marcou a estreia do produtor Dean Devlin na direção, Tempestade: Planeta em Fúria até exibe boas intenções ao focar numa trama onde as pessoas se unem para combater um desastre natural global que elas mesmas causaram. Mas é doloroso ver que isso é feito a partir de uma narrativa pobre, que tenta se sustentar em seus efeitos visuais grandiosos, detalhes que no fim só pontuam um espetáculo vazio e aborrecido. A crítica completa sobre o filme pode ser lida aqui.


8) xXx: Reativado (xXx: The Return of Xander Cage), de D.J. Caruso

Eu devo admitir que os primeiros cinco minutos deste xXx: Reativado me fizeram rir. Mas dali pra frente o filme foi ladeira abaixo, se entregando a uma trama estúpida e uma ação burocrática, que desperdiça até as habilidades de Donnie Yen. É o tipo de produção que só quer aproveitar a fama de seu astro, Vin Diesel, para fazer alguns trocados, já que se o objetivo era reativar (sem trocadilhos) uma franquia que já foi esquecida, o plano não deu certo.


7) Assassin’s Creed, de Justin Kurzel

Se no ano passado Warcraft se revelou uma bela surpresa entre as adaptações de games, Assassin’s Creed deu continuidade a maldição dessas produções, que em 90% das vezes acabam rendendo porcarias homéricas. A partir de um roteiro que desenvolve um fiapo de história e personagens que não poderiam ser mais rasos, o filme concebe uma narrativa sem vida, desperdiçando um elenco repleto de grandes nomes. A crítica completa sobre o filme pode ser lida aqui.


6) Emoji: O Filme (The Emoji Movie), de Tony Leondis

Na boa, a ideia de um filme baseado nos famosos emojis que tanto usamos em conversas na internet é idiota por natureza. Mas mesmo assim é triste ver Emoji: O Filme confirmar essa idiotice, nos colocando diante de uma animação tão irritante e sem graça que a vontade que fica ao final da projeção é a de nunca mais usar emojis.


5) O Chamado 3 (Rings), de F. Javier Gutiérrez

Quando Hollywood decidiu refilmar alguns belos exemplares do terror asiático, Gore Verbinski surpreendeu ao fazer em O Chamado um filme que fazia jus a seu ótimo original japonês. Mas se a continuação dirigida por Hideo Nakata (o mesmo do original) já não havia prestado, este terceiro filme trata de piorar as coisas. Sendo falho como terror, não conseguindo causar nenhum susto ou alguma tensão, e desenvolvendo ideias bobas sobre o universo da temível Samara, o longa acaba se mostrando totalmente descartável, provando que a franquia não tem mais para onde ir. Assistir a fita de Samara talvez seja uma opção melhor.


4) Fica Comigo (You Get Me), de Brent Bonacorso

Já é velha a história do rapaz que trai a namorada e depois passa a ser perseguido pela garota obsessiva e psicótica com quem ficou, mas Fica Comigo consegue ser uma das piores versões disso (caso não seja a pior). Formuláico até não poder mais, além de contar com um elenco inexpressivo e uma direção preguiçosa, o filme jamais consegue fazer com que nos importemos com o que quer que esteja acontecendo ali. Certamente uma das piores coisas que a Netflix já adquiriu para seu catálogo.


3) Resident Evil 6: O Capítulo Final (Resident Evil: The Final Chapter), de Paul W.S. Anderson

Se ao longo de toda sua existência a franquia cinematográfica de Resident Evil nunca foi mais do que medíocre, este sexto capítulo tratou de leva-la ao fundo do poço, sendo sem dúvida seu pior exemplar. A crítica completa sobre o filme pode ser lida aqui.


2) Cinquenta Tons Mais Escuros (Fifty Shades Darker), de James Foley

O romance dessa franquia é um troço assustador, sendo carregado de um machismo doentio. Acompanha-lo acaba sendo uma tortura, não só pelas ideias ali desenvolvidas, mas também porque é inacreditável que os envolvidos no projeto tratem tudo aquilo como algo normal. Além disso, como esse filme é chato!


1)      Transformers: O Último Cavaleiro (Transformers: The Last Knight), de Michael Bay

Nem sei mais o que dizer sobre esse filme, essa franquia e seu diretor. Só sei que é impressionante que a série consiga piorar a cada novo exemplar, já totalizando cerca de doze horas de história sem ter concebido absolutamente nada de memorável fora sua ruindade. E este quinto capítulo só é mais um lixo audiovisual que parece ter prazer em torturar o espectador com sua fórmula narrativa, suas ideias estúpidas e seus barulhos. A crítica completa sobre o filme pode ser lida aqui.

Outros 29 filmes que merecem menção desonrosa (em ordem alfabética):

Além da Morte (Flatliners), de Niels Arden Oplev
Alien: Covenant, de Ridley Scott
O Assassino: O Primeiro Alvo (American Assassin), de Michael Cuesta
Beleza Oculta (Collateral Beauty), de David Frankel
Boneco de Neve (The Snowman), de Tomas Alfredson
Bright, de David Ayer
A Cabana (The Shack), de Stuart Hazeldine
O Círculo (The Circle), de James Ponsoldt
Depois Daquela Montanha (The Mountain Between Us), de Hany Abu-Assad
O Espaço Entre Nós (The Space Between Us), de Peter Chelsom
Fragmentado (Split), de M. Night Shyamalan
Jogos Mortais: Jigsaw (Jigsaw), de Michael Spierig e Peter Spierig
A Lei da Noite (Live by Night), de Ben Affleck
Max Steel, de Stewart Hendler
Meu Malvado Favorito 3 (Despicable Me 3), de Pierre Coffin e Kyle Balda
A Morte Te Dá Parabéns (Happy Death Day), de Christopher B. Landon
A Múmia (The Mummy), de Alex Kurtzman
Passageiros (Passengers), de Morten Tyldum
Piratas do Caribe: A Vingança de Salazar (Pirates of the Caribbean: Dead Men Tell No Tales), de Joaquim Rønning e Espen Sandberg
O Poderoso Chefinho (The Boss Baby), de Tom McGrath
Polícia Federal: A Lei é Para Todos, de Marcelo Antunez
Power Rangers, de Dean Israelite
Real: O Plano Por Trás da História, de Rodrigo Bittencourt
Sandy Wexler, de Steven Brill
Suburbicon: Bem-Vindos ao Paraíso (Suburbicon), de George Clooney
Tinha Que Ser Ele? (Why Him?), de John Hamburg
A Torre Negra (The Dark Tower), de Nicolaj Arcel
Vida (Life), de Daniel Espinosa
A Vigilante do Amanhã: Ghost in the Shell (Ghost in the Shell), de Rupert Sanders

Agora vamos para a parte boa...

Os melhores filmes lançados no Brasil em 2017:


10) A Tartaruga Vermelha (La Tortue Rouge), de Michael Dudok de Wit

Animação produzida pelo fantástico estúdio Ghibli, famoso por ser a casa artística do mestre Hayao Miyazaki, A Tartaruga Vermelha se coloca facilmente entre as grandes obras feitas por lá. Acompanhando um homem naufragado em uma ilha e seus encontros com uma tartaruga que revela não ser bem o que parece, o filme abre mão dos diálogos e usa o poder de suas imagens evocativas para contar uma história sensível e repleta de calor humano. E a animação rica nos mínimos detalhes é um bônus natural tendo em vista a qualidade dos trabalhos de seu estúdio.


9) Era o Hotel Cambridge, de Eliane Caffé

Focando o dia-a-dia de um grupo de pessoas que está prestes a ser despejado pelo governo após ter ocupado um prédio e fazer dele sua casa, Era o Hotel Cambridge cria uma narrativa que mistura ficção e documentário a fim de fazer um retrato bastante humano daqueles indivíduos e sua situação. Considerando o nosso atual contexto político-social, Eliane Caffé (a mesma diretora responsável pelo igualmente maravilhoso Narradores de Javé) faz aqui um filme essencial.


8) Blade Runner 2049, de Denis Villeneuve

Quando anunciada, essa continuação soou totalmente desnecessária, até porque o filme original de Ridley Scott era muito bem resolvido. Mas quando chegou aos cinemas, Blade Runner 2049 se mostrou uma experiência que mantém o espectador em transe, tamanha a riqueza de suas ideias e a forma como as desenvolve, abrindo discussões interessantíssimas sobre a natureza humana. Com isso, o longa faz mais do que jus a seu original. A crítica completa sobre o filme pode ser lida aqui.


7) Uma Mulher Fantástica (Una Mujer Fantástica), de Sebastián Lelio

Um raro filme protagonizado por uma artista transexual, Uma Mulher Fantástica retrata em detalhes toda a falta de respeito por trás da transfobia que sua protagonista, Marina (Daniela Vega), enfrenta, com o diretor Sebastián Lelio conduzindo uma narrativa constantemente revoltante, já que a personagem é tratada pela maioria das outras pessoas como qualquer coisa, menos um ser humano. Enquanto isso, é admirável a maneira respeitosa e digna como o filme trata Marina, interpretada com extrema sensibilidade por Daniela Vega em uma das grandes atuações do ano.


6) Star Wars: Os Últimos Jedi (Star Wars: The Last Jedi), de Rian Johnson

Se O Despertar da Força acendeu uma faísca empolgante ao iniciar a nova trilogia de Star Wars, Os Últimos Jedi dá continuidade a isso brilhantemente. Trata-se de um longa que arrepia, diverte, fascina com a complexidade com a qual aborda seus temas e traz um peso emocional admirável aos caminhos trilhados por seus personagens. Um filme fantástico da série, conseguindo até se igualar a O Império Contra-Ataca.


5) Logan, de James Mangold

Depois de dois filmes-solo esquecíveis (especialmente o primeiro), Wolverine ganhou aqui um longa que não poderia ter encerrado de maneira melhor seu arco nos cinemas (ao menos no que diz respeito a versão interpretada por Hugh Jackman por quase vinte anos). Ao mesmo tempo que é uma obra violenta e visceral ao partir para a ação, Logan exibe um carinho com seus personagens e as relações entre eles que é capaz de deixar um nó na garganta do público. E o plano final é simplesmente perfeito. A crítica completa sobre o filme pode ser lida aqui.


4) Manchester à Beira-Mar (Manchester by the Sea), de Kenneth Lonergan

Kenneth Lonergan faz em Manchester à Beira-Mar um filme sobre luto e de como superar este sentimento pode ser impossível. Ao longo da história, o diretor cria uma narrativa que trata os dramas de seus personagens com grande humanidade, de forma que nos sensibilizamos e compreendemos como aquelas pessoas agem sem conseguir esquecer as tragédias e perdas que tanto as marcaram. Assim, mesmo conseguindo equilibrar momentos delicados com outros mais leves, o longa deixa um impacto emocional muito forte.


3) Moonlight: Sob a Luz do Luar (Moonlight), de Barry Jenkins

Um filme extremamente poético na forma como conta a trajetória de seu protagonista, Chiron, desde a infância até a fase adulta. Aqui, o diretor Barry Jenkins exibe uma sensibilidade ímpar não só no retrato que faz da realidade em volta do personagem, mas também (e principalmente) na forma como ele lida com a própria homossexualidade. Tudo isso dá razões de sobra para que Moonlight seja sempre lembrado por seu valor artístico, de maneira que ficarei decepcionado se as pessoas ligarem o filme primeiramente ao jeito bizarro como ele recebeu seu Oscar de Melhor Filme.


2) A Criada (Ah-ga-ssi), de Park Chan-Wook

Em A Criada, Park Chan-wook (o sensacional diretor por trás de filmes como Sede de Sangue e a trilogia da vingança – formada por Mr. Vingança, Oldboy e Lady Vingança) concebe uma obra intrigante, capaz de empolgar o espectador a cada reviravolta, mostrando assim uma carpintaria dramática admirável na construção da trama, dos arcos dos personagens e de como eles manipulam uns aos outros. Ao final, só resta concluir mais uma vez que Park Chan-wook é um gênio. Simples assim.


1) mãe! (mother!), de Darren Aronofsky

Muitos provavelmente irão torcer o nariz para este 1º lugar. Mas mãe! foi a experiência mais rica que tive em uma sala de cinema este ano. Apresentando-se como um terror psicológico com elementos bíblicos, o filme tem uma narrativa instigante, com Darren Aronofsky desenvolvendo temas fascinantes que nos levam a discussões inteligentes sobre o nosso mundo e a sociedade que formamos. É algo que muitas vezes ocorre de maneira bizarra, mas que resulta em uma obra que nos mantém inquietos e pensativos mesmo depois de as luzes da sala de projeção serem acesas.

Outros 39 filmes que merecem menção honrosa (em ordem alfabética):

Ao Cair da Noite (It Comes At Night), de Trey Edward Shults
Assassinato no Expresso do Oriente (Murder on the Orient Express), de Kenneth Branagh
Até o Último Homem (Hacksaw Ridge), de Mel Gibson
Atômica (Atomic Blonde), de David Leitch
A Babá (The Babysitter), de McG
Bingo: O Rei das Manhãs, de Daniel Rezende
Borg vs. McEnroe (Borg McEnroe), de Janus Metz
Como Nossos Pais, de Laís Bodansky
Corra! (Get Out), de Jordan Peele
Detroit em Rebelião (Detroit), de Kathryn Bigelow
Dunkirk, de Christopher Nolan
Em Ritmo de Fuga (Baby Driver), de Edgar Wright
O Estranho Que Nós Amamos (The Beguiled), de Sofia Coppola
Eu, Daniel Blake (I, Daniel Blake), de Ken Loach
Eu Não Sou Seu Negro (I Am Not Your Negro), de Raoul Peck
Feito na América (American Made), de Doug Liman
O Filme da Minha Vida, de Selton Mello
Gabriel e a Montanha, de Fellipe Barbosa
Guardiões da Galáxia: Vol. 2 (Guardians of the Galaxy: Vol. 2), de James Gunn
A Guerra dos Sexos (Battle of the Sexes), de Jonathan Dayton e Valerie Faris
Homem-Aranha: De Volta ao Lar (Spider-Man: Homecoming), de Jon Watts
It: A Coisa (It), de Andy Muschietti
Jackie, de Pablo Larraín
Jogo Perigoso (Gerald’s Game), de Mike Flanagan
John Wick: Um Novo Dia Para Matar (John Wick: Chapter 2), de Chad Stahelski
Kong: A Ilha da Caveira (Kong: Skull Island), de Jordan Vogt-Roberts
La La Land: Cantando Estações (La La Land), de Damien Chazzele
Lego Batman: O Filme (The Lego Batman Movie), de Chris McKay
Minha Vida de Abobrinha (Ma Vie de Courgette), de Claude Barras
Moana: Um Mar de Aventuras (Moana), de Ron Clements e John Musker
Mulher-Maravilha (Wonder Woman), de Patty Jenkins
Okja, de Bong Joon-ho
Planeta dos Macacos: A Guerra (War for the Planet of the Apes), de Matt Reeves
A Qualquer Custo (Hell or High Water), de David Mackenzie
Silêncio (Silence), de Martin Scorsese
Terra Selvagem (Wind River), de Taylor Sheridan
Toni Erdmann, de Maren Ade
Una, de Benedict Andrews
Z: A Cidade Perdida (The Lost City of Z), de James Gray

E isso é tudo, pessoal. Desejo a todos uma bela entrada de ano e que 2018 venha com muitos filmes legais.

Grande abraço!

terça-feira, 26 de dezembro de 2017

Grandes Momentos do Cinema em 2017

Quando o assunto é cinema, a reta final do ano pode servir não só para fazer as costumeiras listas de melhores e piores filmes (que lançarei aqui em breve), mas também para uma pequena recapitulação de momentos que marcaram as telonas ao longo dos últimos doze meses. Para não extrapolar e fazer um post grande demais, decidi fazer uma seleção de apenas quinze momentos, o que obviamente me fez deixar muita coisa de fora. Mas convido todos vocês a comentarem suas cenas, sequências e imagens favoritas dos filmes lançados nesse ano.

(Obs.: Há escolhas na lista que revelam spoilers. Mas, caso vocês não tenham assistido aos filmes e prefiram não saber coisas importantes, coloquei um pequeno aviso sinalizando quando irei abordar as cenas em maiores detalhes.)

Os filmes estão em ordem alfabética logo abaixo.


Augusto Mendes lê um roteiro com sua mãe em Bingo: O Rei das Manhãs

Bingo é um filme insano e repleto de energia, mas sem esquecer de ter um coração, algo que encontra ao desenvolver com sensibilidade seu protagonista, Augusto Mendes (Vladimir Brichta), e o relacionamento dele com a família, seja com o filho pequeno ou com a mãe. Essa cena da leitura do roteiro é belíssima nesse sentido.


Chris sendo hipnotizado em Corra!

No terror que certamente chega nessa época como uma das obras que marcaram o ano, o momento em que Chris é hipnotizado se destaca pela tensão e angústia que afundam o personagem, e de quebra deixam o espectador na ponta da cadeira quase sem fôlego.


Toda a sequência no Motel Algiers em Detroit em Rebelião

Kathryn Bigelow fez em Detroit em Rebelião um filme poderoso sobre preconceito e violência policial, de forma que por mais que ela utilize um cenário da década de 1960, as coisas que acompanhamos aqui refletem muito do que acontece nos dias de hoje. Dentro disso, a diretora cria uma narrativa angustiante, e a longa sequência no Motel Algiers, momento que serve de base para a trama, certamente é o ápice da tensão.


A perseguição no início de Em Ritmo de Fuga

Com essa sequência Edgar Wright começa Em Ritmo de Fuga metendo o pé na porta. Um momento eletrizante no qual o diretor exibe uma coordenação admirável, concebendo uma perseguição absurda e que empolga a cada manobra realizada pelo protagonista, um verdadeiro diabo atrás do volante.


O depoimento de Daniel Blake em Eu, Daniel Blake

Com a palavra, o próprio Daniel Blake: “Não sou um cliente, um consumidor, nem um usuário de serviços. Não sou um desistente, um fujão, um mendigo, nem um ladrão. Não sou um número de seguro social ou um ponto na tela. Eu pago minhas dívidas, nunca um centavo a menos, e me orgulho disso. Não baixo a cabeça, e sim olho meu vizinho nos olhos e o ajudo se posso. Não aceito nem procuro caridade. Meu nome é Daniel Blake. Sou um homem, não um cão. Assim, eu exijo meus direitos. Exijo que me tratem com respeito. Eu, Daniel Blake, sou um cidadão. Nada mais, nada menos. Obrigado”.


O final de Guardiões da Galáxia: Vol. 2 (SPOILER)

A franquia do universo cinematográfico da Marvel já dura nove anos, tendo 16 filmes lançados. Em toda essa história, o funeral de Yondu (Michael Rooker) certamente se apresenta como uma das cenas mais belas e comoventes entre as produções concebidas pelo estúdio.


O primeiro ataque de Pennywise em It: A Coisa

Ao escrever a crítica do filme há pouco mais de três meses, comentei que a imagem de uma criança com o braço decepado não iria sair da minha cabeça tão cedo. Pois bem, ainda não saiu.


O X de Logan (SPOILER)

Acredito que não poderia haver uma maneira melhor para encerrar a trajetória de Wolverine depois de ele ser interpretado por quase 20 anos por Hugh Jackman. Ver Laura pegando a cruz que marca o local em que ele foi enterrado e cravando-a na terra como um X dá um nó na garganta, dando um final poético a um personagem icônico e que teve aqui um filme espetacular.


O terceiro ato de mãe!

Poucas coisas foram tão amalucadamente lindas no cinema este ano quanto mãe!. E a piração que o filme exibe aumenta gradualmente ao longo da história, culminando em um terceiro ato fantástico no qual o diretor-roteirista Darren Aronofsky faz os ricos temas que desenvolveu até então se chocarem de maneira poderosa.


A conversa entre Lee e Randi em Manchester à Beira-Mar

Artisticamente falando, é a cena que justifica o Oscar que Casey Affleck recebeu e justificaria também a premiação de Michelle Williams caso ela tivesse vencido também (e se falei “artisticamente” é porque sei que Affleck tem histórias de assédio que poderiam ter feito ele sair derrotado da premiação). Trata-se de um momento onde duas pessoas que se amam encaram a trágica dor que os mantém emocionalmente ligados. Simplesmente arrebatador.


O encontro entre Chiron e Kevin em Moonlight: Sob a Luz do Luar (SPOILER)

Entre tantos momentos poéticos deste excepcional filme, o reencontro de Chiron (Trevante Rhodes) e Kevin (André Holland) se destaca por toda sua delicadeza, característica que rege uma conversa bastante contida antes de os personagens mostrarem o carinho que ainda têm um pelo outro.


Marina vê seu reflexo no espelho em Uma Mulher Fantástica

Certamente um plano que ganha força ao sintetizar maravilhosamente o arco de Marina (Daniela Vega), a protagonista transexual deste lindo longa chileno e que, ao longo da projeção, bate de frente com o preconceito de várias pessoas que não conseguem vê-la como a mulher que ela é. Tendo isso em vista, é perfeito que nesta cena o espelho adequadamente cubra seu sexo, fazendo-a ver apenas seu rosto.


A batalha na Terra de Ninguém em Mulher-Maravilha

Uma sequência na qual Diana Prince (Gal Gadot) prova seu altruísmo aos homens ao seu redor, mostrando que mais importante do que vencer guerras é salvar pessoas inocentes da situação de risco na qual elas se encontram.


O embate no terceiro ato de Star Wars: Os Últimos Jedi (SPOILER)

Foi difícil escolher apenas um momento de Os Últimos Jedi. Mas por ora ficarei com este, que diverte, empolga e arrepia não só por mostrar o alcance dos poderes de Luke Skywalker (Mark Hamill), mas também pelo sacrifício que reascende a Resistência quando esta mais precisa.


A festa de aniversário em Toni Erdmann

Isso é comédia de desconforto da melhor qualidade. Tendo em Ines (Sandra Hüller) uma protagonista que, nesse momento específico, se vê num ponto emocional no qual tocar o “foda-se” é o único caminho a seguir, Toni Erdmann nos apresenta a uma sequência onde o senso de humor peculiar da narrativa chega a níveis inesperados de hilaridade.

quarta-feira, 29 de novembro de 2017

Assassinato no Expresso do Oriente

Um dos personagens mais famosos dentre aqueles criados por Agatha Christie (ao lado de Miss Marple), o belga Hercule Poirot é um detetive fascinante. Ler as histórias protagonizadas por ele representa uma experiência deliciosa não só por conta do quão intrigante elas são, mas também pela grande inteligência e perspicácia que o personagem exibe para resolver os casos. É exatamente por isso que é bacana ver o potencial cinematográfico desse material ser novamente explorado, o que no passado rendeu longas interessantes como Morte Sobre o Nilo, protagonizado por Peter Ustinov, e Assassinato no Expresso do Oriente, lançado em 1974 e dirigido por ninguém menos que o mestre Sidney Lumet. É esta última adaptação que ganha uma nova versão agora pelas mãos de Kenneth Branagh, que além de dirigir também assumiu a responsabilidade de ser o novo Poirot dos cinemas. E o resultado não decepciona.

Escrito por Michael Green (que em 2017 já incluiu em seus créditos os roteiros dos excepcionais Logan e Blade Runner 2049), Assassinato no Expresso do Oriente traz Hercule Poirot pronto para descansar após resolver um caso em Jerusalém, um plano que muda quando ele é chamado para mais um trabalho em Londres. Para chegar lá, Poirot sobe a bordo do Expresso do Oriente, tendo uma viagem relativamente tranquila até o momento em que um dos passageiros surge assassinado, fazendo-o pôr em prática suas habilidades a fim de encontrar o culpado entre os outros passageiros do trem.


É uma história clássica de whodunnit (leia-se: quem matou?), e o roteiro desenvolve isso com calma, sem sentir a necessidade de entregar tudo facilmente para o espectador. Na verdade, Assassinato no Expresso do Oriente praticamente nos coloca na pele de Poirot, nos fazendo conhecer os outros personagens e ficar cientes de determinadas informações ao mesmo tempo em que o protagonista, o que faz toda a investigação transcorrer de forma orgânica, sem que grandes conclusões surjam repentinamente. E ainda que o final possa ser bastante conhecido (não se preocupem, eu não vou revela-lo nessa crítica), ver Poirot gradualmente pegar cada peça que aparece em seu caminho e montar o quebra-cabeça da trama é algo que não poderia ser mais instigante.

Assim, Kenneth Branagh concebe uma narrativa que envolve o público com naturalidade, e mesmo que o filme passe a maior parte do tempo em um único cenário (o Expresso do Oriente), ele jamais soa parado, seja porque o diretor consegue impor um ritmo ágil e ressaltar eficientemente a tensão quando precisa ou porque tem sempre alguma coisa acontecendo na trama. Além disso, a direção de Branagh conta com uma elegância que rende momentos bacanas tanto narrativa e quanto esteticamente, como o plano-sequência que segue Poirot atravessando o trem enquanto passa pelos outros passageiros ou a cena em que o corpo da vítima é descoberto, filmada em um belo plano plongé (quando a câmera filma por um ângulo de cima para baixo).


Enquanto isso, o fantástico elenco coadjuvante (que inclui nomes que vão desde veteranos como Judi Dench e Derek Jacobi, passando por Michelle Pfeiffer, Penélope Cruz, Johnny Depp e Willem Dafoe e chegando a atores que passaram a chamar atenção recentemente, como Daisy Ridley e Josh Gad) exerce admiravelmente suas funções, criando personagens com personalidades bem definidas e que exibem uma complexidade surpreendente. Aliás, o fato de Branagh incluir intérpretes negros e latinos no elenco (o que é inexistente tanto no livro original quanto na versão de Sidney Lumet) mostra uma preocupação com a diversidade que traz certa modernização ao filme, sendo que o roteiro ainda aproveita isso para fazer breves e certeiros comentários sociais. É algo que vemos, por exemplo, na cena em que Poirot é avisado de que, caso não investigue o assassinato, a polícia provavelmente irá culpar o Dr. Arbuthnot (Leslie Odom Jr.) ou o chofer Biniamino Marquez (Manuel Garcia-Rulfo), apenas por conta da etnia deles.


Mas é mesmo o próprio Kenneth Branagh quem acaba se destacando mais em frente às câmeras. Interpretando Hercule Poirot, o ator traz um carisma e um senso de humor que conquistam o espectador rapidamente, além de encarnar com naturalidade a inteligência do personagem (estabelecida já na ótima sequência inicial em Jerusalém) e seus maneirismos, como a vaidade dele com seu icônico bigode, o desconforto que sente ao ver algo errado (a cena em que ele pisa em um montinho de fezes é divertida nesse sentido) ou seu sotaque. Para completar, é bom ver que o filme não se desvia do peso enfrentado por Poirot por conta do que descobre ao longo da investigação, discutindo com sensibilidade a moral de sua resolução e dando ao protagonista um arco dramático interessante, tendo em vista a maneira complexa como tal resolução e os ideais de justiça dele (“Há o certo e o errado, e nada entre eles”) se chocam.

Assassinato no Expresso do Oriente mostra saber como prender a atenção do público assim como sua obra original, fazendo jus a esta. E tendo em vista a eficácia do filme e do trabalho de Kenneth Branagh, eu adoraria ver o ator-diretor interpretar Hercule Poirot mais vezes. Histórias com o personagem é que não faltam para isso.

Nota: