quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

Os Melhores e os Piores Filmes de 2014


2014 foi um ano triste e ao mesmo tempo interessante para o cinema. Triste porque vimos muitos ídolos partirem, alguns até precocemente, de forma que chamar 2014 de serial killer tornou-se comum entre muitos fãs da sétima arte. Philip Seymour Hoffman, Eduardo Coutinho, Robin Williams, Lauren Bacall, Eli Wallach, Gordon Willis e Mike Nichols foram alguns dos grandes nomes que nos deixaram e que farão falta no cinema.

Já a parte interessante vem no fato de que tivemos uma bela safra de filmes, com obras notáveis tanto na ala dos blockbusters quanto em obras mais autorais. Foram tantas produções bacanas que dessa vez a lista de menções honrosas abaixo do Top 10 ficou um pouco maior do que o esperado.

Particularmente falando, 2014 teve também um pouco mais de trabalho para mim. No total, foram 97 críticas escritas, número bem acima da média de 60 que eu tinha nos anos anteriores, sendo que a maioria delas foram para o Papo de Cinema. Isso custou uma diminuição na lista de filmes vistos ao longo do ano, que dessa vez chegaram aos 296, meu menor número desde que comecei a contar ("O cara viu quase 300 filmes e ainda reclama?", você deve estar se perguntando).

Com esses comentários feitos, vamos às listas. Como sempre, lembro que busco considerar todas as produções lançadas nos cinemas brasileiros em 2014, o que inclui até os filmes da temporada de premiações, que originalmente são de 2013. Claro que não há como ver tudo, mas não faltou esforço para ver o maior número possível. Enfim...

Os melhores filmes lançados nos cinemas brasileiros em 2014:

1) O Homem Duplicado (Enemy), de Dennis Villeneuve – Villeneuve mostra mais uma vez ser um diretor admirável, e aqui comanda um filme cuja história instigante nos desafia a desvendar seus significados, quaisquer que sejam eles. E Jake Gyllenhaal (que está em grande fase na carreira) brilha do início ao fim em seu papel duplo.

2) Boyhood: Da Infância à Juventude (Boyhood), de Richard Linklater – Representa uma experiência nostálgica e inesquecível ao mostrar não só como o tempo passa quase imperceptivelmente, mas também como os momentos pequenos da vida são tão essenciais na formação de nosso caráter quanto àqueles que consideramos mais importantes.

3) O Lobo Atrás da Porta, de Fernando Coimbra – Estreia de Coimbra na direção de longas-metragens, é um trabalho complexo e que não tem medo de levar sua história até as últimas consequências, tendo também grandes atuações do elenco, especialmente da fantástica Leandra Leal.

4) Garota Exemplar (Gone Girl), de David Fincher – Thriller excepcional, com personagens inteligentes e que tem em Fincher o diretor perfeito para comandar a história e suas grandes reviravoltas. E se Ben Affleck mostra uma segurança invejável em cena, Rosamund Pike tem uma atuação digna de prêmios.

5) O Passado (Le Passé), de Asghar Farhadi – Farhadi brilha novamente no modo como retrata as relações entre as pessoas, o impacto que nossos atos podem ter e de como isso nos impede de seguir nossas vidas tranquilamente.

6) O Lobo de Wall Street (The Wolf of Wall Street), de Martin Scorsese – Talvez o filme mais energético de Scorsese, onde seu retrato do lado sujo de Wall Street diverte com seus exageros e personagens desprezíveis, contando ainda com a melhor atuação da carreira de Leonardo DiCaprio.

7) Ela (Her), de Spike Jonze – Jonze trata com delicadeza o relacionamento entre o protagonista e seu sistema operacional, explorando a premissa o máximo que pode para montar uma história sensível e que discute com propriedade o amor em si e a relação do homem com a tecnologia.

8) Fruitvale Station: A Última Parada (Fruitvale Station), de Ryan Coogler – Ao deixar claro logo de cara o que acontecerá com o protagonista, Oscar Grant (interpretado pelo brilhante Michael B. Jordan), o roteiro faz com que a história dele tenha um peso cada vez maior à medida que o conhecemos. Um filme trágico, arrasador e que, infelizmente, permanece bastante atual.

9) O Grande Hotel Budapeste (The Grand Budapest Hotel), de Wes Anderson – Os elementos excêntricos típicos de Anderson se juntam com força total em uma obra que conquista o espectador rapidamente, enquanto conta uma história divertidíssima na qual somos guiados por ótimos personagens.

10) X-Men: Dias de Um Futuro Esquecido (X-Men: Days of Future Past), de Bryan Singer – Quase quinze anos se passaram desde o lançamento de seu primeiro filme e a franquia ainda se mostra capaz de fascinar e empolgar o público, rendendo aqui seu melhor exemplar ao juntar um elenco fantástico para dar vida a uma das histórias mais famosas dos mutantes.

Outros 40 títulos que merecem destaque (em ordem alfabética):

12 Anos de Escravidão (12 Years a Slave), de Steve McQueen
O Abutre (Nightcrawler), de Dan Gilroy
Alabama Monroe (The Broken Circle Breakdown), de Felix Van Groeningen
Amantes Eternos (Only Lovers Left Alive), de Jim Jarsmuch
Anjos da Lei 2 (22 Jump Street), de Phil Lord e Christopher Miller
Até o Fim (All ls Lost), de J.C. Chandor
Uma Aventura Lego (The Lego Movie), de Phil Lord e Christopher Miller
As Aventuras de Peabody e Sherman (Mr. Peabody & Sherman), de Rob Minkoff
Boa Sorte, de Carolina Jabor
Capitão América 2: O Soldado Invernal (Captain America: The Winter Soldier), de Anthony Russo e Joe Russo
Chef, de Jon Favreau
Clube de Compras Dallas (Dallas Buyers Club), de Jean-Marc Vallée
Como Treinar o Seu Dragão 2 (How to Train Your Dragon 2), de Dean DeBlois
Debi & Lóide 2 (Dumb & Dumber To), de Peter Farrelly e Bobby Farrelly
Entre Nós, de Paulo Morelli
O Espelho (Oculus), de Mike Flanagan
Êxodo: Deuses e Reis (Exodus: Gods and Kings), de Ridley Scott
Frozen: Uma Aventura Congelante (Frozen), de Chris Buck e Jennifer Lee
Festa no Céu (The Book of Life), de Jorge R. Gutierrez
Guardiões da Galáxia (Guardians of the Galaxy), de James Gunn
Hoje Eu Quero Voltar Sozinho, de Daniel Ribeiro
O Homem Mais Procurado (A Most Wanted Man), de Anton Corbijn
Inside Llewyn Davis: Balada de Um Homem Comum (Inside Llewyn David), de Joel Coen e Ethan Coen
Interestelar (Interstellar), de Christopher Nolan
Jogos Vorazes: A Esperança – Parte 1 (The Hunger Games: Mockingjay – Part 1), de Francis Lawrence
Magia ao Luar (Magic in the Moonlight), de Woody Allen
O Mercado de Notícias, de Jorge Furtado
Mesmo Se Nada Der Certo (Begin Again), de John Carney
Miss Violence, de Alexandros Avranas
Nebraska, de Alexander Payne
Ninfomaníaca (Nymphomaniac), de Lars von Trier
Noé (Noah), de Darren Aronofsky
No Limite do Amanhã (Edge of Tomorrow), de Doug Liman
Operação Big Hero (Big Hero 6), de Don Hall e Chris Williams
Planeta dos Macacos: O Confronto (Dawn of the Planet of the Apes), de Matt Reeves
Praia do Futuro, de Karim Aïnouz
Relatos Selvagens (Relatos Salvajes), de Damián Szifrón
RoboCop, de José Padilha
Sob a Pele (Under the Skin), de Jonathan Glazer
Trapaça (American Hustle), de David O. Russell

Agora protejam-se...

Os piores filmes lançados nos cinemas brasileiros em 2014:

1) O Apocalipse (Left Behind), de Vic Armstrong – Assim como ocorre com alguns personagens ao longo da história, eu gostaria de ter sumido enquanto via o filme. Dessa forma a tortura teria sido interrompida. Nicolas Cage realmente se superou quando foi escolher um projeto que o ajudaria a pagar as contas.

2) O Candidato Honesto, de Roberto Santucci – Há tempos procuro evitar as comédias da Globo Filmes, mas acabei vendo esse desastre que rouba a premissa de O Mentiroso, coloca Leandro Hassum no lugar de Jim Carrey e rende uma comédia assustadoramente insuportável.

3) Transformers: A Era da Extinção (Transformers: Age of Extinction), de Michael Bay – Muitos diziam que a franquia não podia ficar pior. E realmente não ficou. Continua no fundo do poço, dessa vez com uma aventura mais longa que as anteriores e consequentemente mais entediante, onde novamente acompanhamos personagens pelos quais não poderíamos nos importar menos.

4) Um Conto do Destino (Winter’s Tale), de Akiva Goldsman – Romance com boas doses de fantasia que acaba sendo bobo, ridículo e aborrecido, conseguindo ainda a proeza de trazer até Russell Crowe em uma atuação constrangedora. Goldsman estreia como diretor em algo que faz jus a sua picaretagem.

5) Frankenstein: Entre Anjos e Demônios (I, Frankenstein), de Stuart Beattie – Qualquer produção que lembre Van Helsing e Anjos da Noite não é flor que se cheire, e aqui temos uma releitura asquerosa de uma figura icônica do cinema e da literatura.
 
6) Hércules (The Legend of Hercules), de Renny Harlin – A versão estrelada por Dwayne Johnson lançada meses depois nem é das melhores e conseguiu deixar essa tragédia com Kellan Lutz no chinelo.

7) Juntos e Misturados (Blended), de Frank Coraci – Terceira parceria de Adam Sandler e Drew Barrymore, o filme talvez pudesse ser capaz de retomar a simpatia que a dupla trouxe em seus outros trabalhos. Mas quando Barrymore aparece cuspindo/vomitando uma sopa de cebola, percebe-se que não é o caso.

8) As Tartarugas Ninja (Teenage Mutant Ninja Turtles), de Jonathan Liebesman – Os personagens-título não apareciam em uma produção live-action há anos, e trazê-los de volta é uma ideia válida. Mas é uma pena que isso ocorra em uma produção que se contenta em seguir a linha dos filmes de Transformers.

9) Um Amor de Vizinha (And So It Goes), de Rob Reiner – Clichê, esquemático, previsível. É um filme que não parece ser dirigido por alguém com a bagagem de Reiner e ainda desperdiça o talento de Michael Douglas e Diane Keaton.

10) Mulheres ao Ataque (The Other Woman), de Nick Cassavetes – Incrível como o mesmo diretor de Um Ato de Coragem e Alpha Dog seja o responsável por essa grande besteira, que não consegue divertir nenhum pouco com seu trio principal enquanto este inferniza a vida de Jayme Lannister.

Outros 25 títulos que merecem menção desonrosa (em ordem alfabética):

3 Dias Para Matar (3 Days to Kill), de McG
13º Distrito (Brick Mansions), de Camille Delamarre
300: A Ascensão do Império (300: Rise of an Empire), de Noam Murro
Atividade Paranormal: Marcados Pelo Mal (Paranormal Activity: The Marked Ones), de Christopher Landon
Aviões 2: Heróis do Fogo ao Resgate (Planes: Fire and Rescue), de Roberts Gannaway
Caçadores de Obras-Primas (The Monuments Men), de George Clooney
De Repente Pai (Delivery Man), de Ken Scott
Drácula: A História Nunca Contada (Dracula Untold), de Gary Shore
Homens, Mulheres e Filhos (Men, Women and Children), de Jason Reitman
O Juiz (The Judge), de David Dobkin
Livrai-nos do Mal (Deliver Us From Evil), de Scott Derickson
Maze Runner: Correr ou Morrer (The Maze Runner), de Wes Ball
Namoro ou Liberdade (That Awkward Moment), de Tom Gormican
No Olho do Tornado (Into the Storm), de Steven Quale
Oldboy: Dias de Vingança (Oldboy), de Spike Lee
Quero Matar Meu Chefe 2 (Horrible Bosses 2), de Seth Gordon
Rio 2, de Carlos Saldanha
Se Eu Ficar (If I Stay), de R.J. Cutler
Sem Evidências (Devil’s Knot), de Atom Egoyan
Será Que? (What If), de Michael Dowse
Sex Tape: Perdido na Nuvem (Sex Tape), de Jake Kasdan
O Teorema Zero (The Zero Theorem), de Terry Gilliam
Toque de Mestre (Grand Piano), de Eugenio Mira
Transcendence: A Revolução (Transcendence), de Wally Pfister
Walt nos Bastidores de Mary Poppins (Saving Mr. Banks), de John Lee Hancock

E é isso. Pra encerrar, é claro, desejo a todos um Feliz Ano Novo. Que 2015 seja cheio de grandes realizações.

Um grande abraço!

terça-feira, 30 de dezembro de 2014

5 Anos de Brazilian Movie Guy



Antes de começar a escrever este breve post tradicional comemorando o aniversário do blog, dei uma olhada em cada um dos outros textos que escrevi neste dia entre 2010 e 2013. Em todos eles me lembro de ter encontrando com certa facilidade o fio da meada para escrever mais ou menos o que eu queria.

Não foi o que ocorreu dessa vez.

Desde 30 de dezembro de 2009, quando dei início ao Brazilian Movie Guy (já disse várias vezes que não gosto do nome, mas não custa ressaltar novamente), até hoje fui ficando mais exigente com as palavras que uso para compor meus textos, especialmente ao longo deste 2014, de forma que escrever tem se tornado uma tarefa cada vez mais difícil. Talvez isso possa ser percebido nas críticas. Mesmo assim, devo admitir que me sinto orgulhoso pelo fato de isso não ter diminuído o prazer que tenho ao digitar as letras no computador.

Sendo assim, vou aproveitar esse momento para fazer o de sempre: agradecer a todos que me acompanham por aqui. Sei que durante esse ano o blog ficou um pouco em segundo plano, o que se deve em boa parte ao trabalho que passei a fazer no Papo de Cinema ao lado de outros críticos, além da faculdade, é claro (estarei com o diploma na mão daqui dois meses). Mas espero conseguir equilibrar as coisas em 2015 enquanto desenvolvo mais alguns projetos pessoais, buscando sempre trazer um conteúdo interessante. Me esforçarei para isso.

Como de costume, amanhã publicarei minhas listas com os melhores e os piores filmes do ano para encerrar os trabalhos de 2014, e então restará apenas esperar que 2015 venha com uma bela safra de cinema.

Um grande abraço a todos.

segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

Crimes e Pecados

Woody Allen é um cineasta com tantas obras admiráveis em sua extensa filmografia, que se uma delas está entre as melhores é por ser realmente especial. Isso se encaixa perfeitamente em Crimes e Pecados, de 1989. Aqui, Allen desenvolve uma narrativa complexa e instigante para tratar alguns de seus temas queridos, e, em virtude da complexidade destes, é até surpreendente que haja espaço para o público se divertir.

Crimes e Pecados foca dois personagens. O primeiro é o oftalmologista Judah Rosenthal (Martin Landau), admirado pelas pessoas ao seu redor, mas às voltas com um grande problema: sua amante, Dolores Paley (Anjelica Huston), contará tudo sobre o caso deles para sua esposa, Miriam (Claire Bloom), se ele não se divorciar. Judah começa então a pensar em soluções para evitar que sua vida seja destruída. Já o segundo é o cineasta Cliff Stern (o próprio Woody Allen), cujo casamento com Wendy (Joanna Gleason) está indo ladeira abaixo. Fracassado profissionalmente, ele se vê obrigado a aceitar a proposta do cunhado pedante, Lester (Alan Alda), para fazer um documentário sobre ele, apaixonando-se no processo pela produtora Halley Reed (Mia Farrow), com quem passa a discutir o projeto sobre o filósofo Louis Levy (Martin S. Bergmann) que está desenvolvendo.
A partir disso, Woody Allen propõe discussões interessantíssimas de cunhos moral e existencial, refletindo sobre nossos atos como definidores para que nos sintamos melhores ou piores enquanto indivíduos. Com Judah, acompanhamos esses devaneios mais diretamente. Ao longo do filme, ele passa por grandes transformações devido às suas decisões, sendo que Allen inclui toques brilhantes de psicanálise na história, numa espécie de personificação de id, ego e superego. Isso ocorre mais especificamente quando o personagem discute em momentos distintos com seu irmão mafioso, Jack (Jerry Orbach), e o rabino Ben (Sam Waterston) sobre o que fazer com Dolores. Se Judah é o ego, Ben funciona como superego, dando conselhos que indicam algo moralmente adequado, ao passo que Jack serve como o id, empurrando sem pudores o irmão para um lado impulsivo, objetivo e drástico. E Ben ser estabelecido como figura de visão comprometida é uma sacada absolutamente genial de Allen, mostrando o estado do superego de Judah ao expor seu raciocínio com relação ao problema.
Com Cliff as reflexões são tratadas de modo diferente, surgindo mais observacionais, já que ele segue uma série de indivíduos que se revelam diferentes daquilo que aparentam. Ao descobrir que uma pessoa inteligente e admirável cometeu suicídio, por exemplo, é engraçado notar que Cliff se decepciona mais com o fato dela ter deixado uma carta com os dizeres “Saí pela janela” do que com o acontecimento em si, porque, segundo sua percepção, ela seria capaz de escrever palavras muito mais relevantes. Mas isso não é surpreendente por parte do personagem, considerando que ele é um homem que vê nas pessoas apenas aquilo que deseja, evitando aprofundar-se para saber quem elas realmente são.
No entanto, se a maior parte da força de Crimes e Pecados reside nessas discussões centralizadas nos personagens, é inegável que a estrutura do roteiro também é responsável por tornar o filme interessante. Intercalando as histórias de Judah e Cliff enquanto ocasionalmente insere alguns flashbacks, Allen desenvolve seus protagonistas de modo  ágil e cativante, fazendo um pequeno quebra-cabeça com as vidas deles. Nesse sentido, o primoroso trabalho da montadora Susan E. Morse merece aplausos por organizar a narrativa de forma orgânica e coesa sem quebrar o ritmo do filme (é até um mistério ela não ter sido lembrada nos mais variados prêmios na época). Além disso, as tiradas de humor do roteiro funcionam maravilhosamente, sobretudo nos diálogos rápidos de Allen, como quando alguém descreve Lester como um fenômeno e Cliff responde: “Chuva ácida também é”.
Com grandes atuações de todo o elenco (destaque especial para Martin Landau, que encarna o peso das decisões de Judah brilhantemente), Crimes e Pecados é um filme de Woody Allen no qual tudo se encaixa perfeitamente. Por um lado “dostoiévskiano”, é um trabalho que, inclusive, chega a dialogar com duas produções que o diretor realizaria quase duas décadas depois: a obra-prima Match Point: Ponto Final e o razoável O Sonho de Cassandra. E, assim como elas, surpreende pela boa dose de pessimismo com que encerra a realidade verossímil vista na tela. Mas o que poderíamos esperar? Afinal, como diz um personagem em determinado momento: “se você quer um final feliz, deveria assistir a um filme hollywoodiano”.
Nota:

sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

Setembro

Poucas vezes Woody Allen se preocupou tanto com relacionamentos pessoais como em Setembro, seu décimo sétimo filme, o segundo lançado em 1987 (o primeiro foi A Era do Rádio). Se concentrando exclusivamente em seis personagens que passam a história toda num único cenário (uma casa de campo em Vermont), o longa é uma das produções em que Allen deixa de lado o humor típico de suas obras para explorar o drama das figuras que desfilam pela tela. E o diretor acerta no modo como conduz tudo isso, realizando aqui um de seus trabalhos mais tocantes.

Setembro se passa ao longo de um fim de semana. Lane (Mia Farrow) se recupera de uma recente tentativa de suicídio, tendo para isso o apoio de sua amiga Stephanie (Diane Wiest) e de seus vizinhos, o professor Howard (Denholm Elliott) e o escritor Peter (Sam Waterston). Lane mal sabe do amor que Howard sente por ela, já que seus próprios sentimentos são direcionados a Peter, ele que, por sua vez, só tem olhos para Stephanie. Em meio a essas confusões amorosas, Lane recebe a visita de sua mãe insensível, Diane (Elaine Stritch), e de seu padrasto, Lloyd (Jack Warden), algo que arruína os planos que ela tinha para aqueles dias.
Setembro se revela um melodrama até novelesco em determinados momentos. Mas se o filme não aborrece nesse sentido é por conta dos personagens tão interessantes. Allen os desenvolve de tal forma habilidosa que fica difícil não se identificar ao menos um pouco com seus dilemas amorosos. Todos revelam uma triste solidão em suas respectivas existências feitas de amar e não ser amado de volta. Aliás, é curioso vê-los rejeitarem paixões enquanto veem seus próprios sentimentos recusados por quem amam. Sendo assim, vale dizer que a solidão sentida por todos traz um tom melancólico ao filme, detalhe que permeia toda a narrativa conduzida por Allen de um jeito um tanto teatral, seja pelos planos longos – que, inclusive, dão uma bem-vinda verossimilhança a história – ou pela própria mise en scène. Além disso, há de se ressaltar, por um lado mais estrutural, os fades inseridos em determinados momentos, que servem como uma espécie de intervalo entre uma cena e outra.
Já o elenco é hábil no modo como humaniza os personagens. Mia Farrow (esposa de Allen na época, aqui em sua nona parceria com ele) emociona com seu retrato de Lane, trazendo doçura por trás da introspecção, ao passo que Dianne Wiest se destaca ao encarnar Stephanie como uma mulher infeliz em sua vida de casada, mas que mesmo assim se sente culpada frente à possibilidade de trair. E se Sam Waterston e Denholm Elliott brilham como Peter e Howard, Elaine Stritch e Jack Warden têm momentos inspirados como Dianne e Lloyd. Ela, em especial, acaba pivô de grandes conflitos envolvendo Lane.
Setembro teve uma produção curiosa. Woody Allen o filmou duas vezes, tendo até mudado um pouco o elenco para a segunda rodada, que veio a ser a versão que vemos na tela. E é conhecido o fato de que, se pudesse, ele filmaria uma terceira vez. Nunca saberemos se o resultado teria sido melhor em outras versões, mas o que foi apresentado mostra uma obra admirável e de merecido destaque na carreira de seu excepcional realizador.
Nota:

quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

O Abutre

Em uma cena de O Abutre, a produtora Nina Romina (vivida por Rene Russo) fala para um colega que iniciará o telejornal da manhã com imagens pesadas de um homem sendo socorrido após um tiroteio. “Mas [nessa hora] as pessoas tomam café da manhã”, ele diz. “E elas discutirão a notícia no trabalho”, ela responde. É uma troca de diálogos que expõe a falta de noção tanto das emissoras de TV, que não se importam com o quão impróprio é o conteúdo de certas notícias desde que estas tragam audiência, quanto de grande parte do público, que de certa forma parece deixar sua natureza autodestrutiva florescer ao querer ver violência na tela. É um ponto relevante questionado pelo filme, que explora ao máximo o lado sensacionalista da mídia a partir de uma área pouco conhecida do jornalismo (a dos cinegrafistas freelancers) e de um protagonista muito interessante.

Escrito e dirigido pelo estreante Dan Gilroy, O Abutre se concentra em Louis Bloom (Jake Gyllenhaal), rapaz que está à procura de emprego. Em uma noite, ele vê o trabalho de Joe Loder (Bill Paxton), que chega ao local de um acidente de carro e filma os policiais salvando o motorista, tendo como objetivo vender as imagens para alguma emissora. Louis então monta seu próprio negócio como freelancer, buscando sempre eventos violentos, já que estes são os que dão mais audiência e quanto pior forem mais prestígio podem lhe render diante de Nina (que Russo, aliás, interpreta com o talento que há tempos não se via em seus trabalhos) e seus superiores. No entanto, não demora muito até que ele comece a ignorar princípios éticos e a manipular as coisas para alcançar seus objetivos.

Lidando com um assunto tão intrigante, Gilroy é hábil na forma em que critica a mídia como produtora de conteúdo e, em menor escala, o público como consumidor. Sendo assim, o fato de ele ter Louis como protagonista é bastante apropriado, já que por ele iniciar como um novato na área, nós conhecemos aquele universo junto com ele e aos poucos identificamos as coisas que o diretor-roteirista deseja questionar. Dessa forma, é fácil constatar que para boa parte das emissoras passar uma informação relevante e bem aprofundada para o público é o que menos importa. O que acaba sendo mais interessante para eles é tentar ser o primeiro a lançar um conteúdo bombástico na TV para alcançar grandes números na audiência, e conseguir esse conteúdo é exatamente o que Louis tenta fazer ao longo do filme.

Mas além de fazer esses bons apontamentos, O Abutre se apresenta como um thriller, e nesse aspecto o filme não decepciona. A tensão imposta por Dan Gilroy se faz presente durante quase toda a narrativa, de maneira que o filme se torna tão instigante que é difícil desviar o olho da tela. E se Gilroy já mereceria aplausos pelo suspense que cria em momentos como aquele em que Louis invade uma casa antes da chegada da polícia, a perseguição de carro que acontece no terceiro ato é a cereja do bolo, levando a sério a ideia de que a mídia pode fazer da vida real um verdadeiro espetáculo.

Enquanto isso, Jake Gyllenhaal (um ator que não canso de admirar e que ultimamente tem escolhido lindamente os projetos nos quais se envolve) mostra-se fascinante como o protagonista. Em uma daquelas atuações que fazem o intérprete passar por uma grande transformação física, Gyllenhaal faz de Louis Bloom alguém que beira o autismo, mas de uma forma um tanto sinistra. Trata-se de um sujeito que até pode parecer ingênuo de vez em quando, mas a verdade é que ele sempre sabe exatamente o que está fazendo, sendo uma figura manipuladora por natureza com sua fala rápida e seu olhar atento, algo que pode ser visto desde momentos mais simples, como quando ele tenta trocar uma bicicleta por equipamentos, até a relação que ele desenvolve com Rick (Riz Ahmed), rapaz que ele contrata para ser seu estagiário. Gyllenhaal encarna Louis com intensidade e determinação impressionantes, deixando mais do que clara a paixão que ele cria por seu novo trabalho, vendo este como uma verdadeira forma de arte e não medindo esforços para ser um profissional bem sucedido.

O Abutre busca fazer o público refletir sobre suas questões muito mais do que o manter entretido em toda sua ação. Felizmente, ele consegue fazer as duas coisas com inteligência, sendo mais uma obra que merece destaque em 2014.

Nota:

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

Operação Big Hero

Depois de passar uma boa parte da década passa sem se destacar tanto como antigamente, a Disney definitivamente tem se mostrado inspirada nos projetos que vem desenvolvendo nos últimos anos, montando uma sequência interessantíssima de longas de animação que chegou ao ápice com Detona Ralph e, claro, Frozen. Para tentar manter o nível alcançado por essas produções, o estúdio agora recorre a uma de suas propriedades mais valiosas, a Marvel, pegando personagens que não são tão conhecidos quanto os grandes super-heróis da editora. Mas esse detalhe deve estar prestes a mudar, já que as figuras vistas nesse Operação Big Hero  surpreendem, rendendo uma das melhores animações de 2014.

Escrito por Robert L. Baird em parceria com Jordan Roberts e Daniel Gerson, baseado nos quadrinhos de Duncan Rouleau e Steven T. Seagle, Operação Big Hero se passa na cidade futurística de San Fransokyo, onde vive o jovem de 14 anos Hiro Hamada (voz de Ryan Potter), que resolve seguir o conselho do irmão mais velho, Tadashi (Daniel Henney), e entrar para a faculdade. Ele, então, usa seu conhecimento em robótica para criar uma série de microbôs que impressionam o professor Robert Callahan (James Cromwell). Ao perder seu irmão em um trágico incêndio, Hiro é confortado por Baymax (Scott Adsit), robô que Tadashi havia criado para cuidar da saúde das pessoas. No entanto, o garoto descobre que os microbôs estão sendo usados por um misterioso indivíduo mascarado e que o incêndio pode não ter sido um acidente. Para saber o que realmente aconteceu, Hiro tem a ajuda de Baymax e dos colegas de Tadashi, Go Go (Jamie Chung), Wasabi (Damon Wayans Jr.), Honey Lemon (Genesis Rodrigues) e Fred (T.J. Miller).

Pelos dramas dos personagens e temas desenvolvidos pelo roteiro, Operação Big Hero claramente bebe das fontes da Disney e da Marvel, e quando a história começa nos deparamos com um mundo de grande energia, aspecto que se reflete imediatamente no design de produção repleto de cores quentes, que só saem de cena quando precisam dar lugar ao luto de Hiro com relação ao que aconteceu com o irmão. Aliás, visualmente o filme é um primor, sendo possível ver toques de animes japoneses na concepção tanto de San Fransokyo quanto dos personagens (a ótima trilha de Henry Jackman também é fortemente influenciada). Somando isso ao carisma arrebatador das figuras que nos guiam por aquele o universo, tem-se um filme que encanta ao mesmo tempo em que entretém o público de maneira inteligente do início ao fim.

Os diretores Don Hall e Chris Williams conduzem o filme com segurança, se saindo bem no timing das gags inseridas na história (destaque para quando Baymax tem que cuidar de alguns furos em seu corpo inflável) e, principalmente, nas cenas onde a ação é mais intensa, como nos embates entre os heróis e o vilão. Nesse último quesito, por sinal, é interessante notar não só a dinâmica de Hiro e seus amigos, que melhora de um confronto pro outro, mas também como o roteiro os coloca construindo armaduras que exploram criativamente as especialidades de cada um. Para completar, Hall e Williams, com a ajuda do montador Tim Mertens, conseguem impor um ritmo ágil a narrativa sem sacrificar a sensibilidade com a qual tratam os personagens. A relação de Hiro com Tashida, por exemplo, é tocante por deixar claro o amor que eles sentem um pelo outro além de sua camaradagem, enquanto que aquela que o garoto tem com Baymax não deve nada aos protagonistas da obra-prima O Gigante de Ferro, animação com a qual Operação Big Hero faria uma belíssima sessão dupla.

Operação Big Hero tem seus problemas. Em alguns momentos, o roteiro traz diálogos muito expositivos (“Você se formou na escola aos 13 anos”, diz Tadashi para Hiro), sem falar que a reviravolta envolvendo a identidade do vilão não é nenhum pouco surpreendente. Mas, felizmente, esses acabam sendo obstáculos pequenos, que não chegam a impedir o público de sair entusiasmado do cinema. E eu não me importaria de ver esses personagens em novas aventuras.

Obs.: Há uma cena depois dos créditos finais.

Nota:

terça-feira, 2 de dezembro de 2014

De Volta ao Jogo

Filmes de ação no estilo “exército de um homem só” não têm tido tanto espaço ultimamente, e quando ganham nem sempre são muito interessantes. É uma fórmula que parece não ser mais tão atrativa como foi antigamente. Mas às vezes ela ainda mostra que tem capacidade de surpreender, e se obras recentes como Operação Invasão e sua continuação lançada este ano são grandes exemplares, outras como Jack Reacher conseguem divertir. E eis que este De Volta ao Jogo chega aos cinemas e dá mais um bom respiro ao gênero, mesmo não tendo nada muito inovador.

Escrito por Derek Kolstad, De Volta ao Jogo traz Keanu Reeves interpretando John Wick, um assassino de aluguel que largou seus serviços para se dedicar a vida de homem casado. Mas quando sua esposa, Helen (Bridget Moynahan), morre devido a um câncer, John fica sem chão até o momento em que descobre que ela lhe deixou um último presente: um cachorro para lhe fazer companhia. No entanto, sua paz é rapidamente interrompida quando Iosef Tarasov (Alfie Allen), filho do chefão da máfia russa Viggo Tarasov (Michael Nyqvist), rouba seu carro e mata o pequeno animal. Mas, ao contrário do pai, que trabalhou com John quando este ainda estava na ativa, Iosef não tem ideia de com quem se meteu.

Não é uma história particularmente original, sendo um típico filme de vingança. Talvez a única grande diferença resida na motivação pessoal do protagonista, que é um tanto atípica para esse tipo de projeto. Muitos diriam que um cachorro seria uma razão boba para alguém fazer tanto estardalhaço, e sabendo disso o roteiro obviamente faz com que a pequena e adorável Daisy signifique mais do que “apenas um cachorro”. Quando John coloca a coleira ao lado do colar de sua esposa, por exemplo, sabemos o quê o animal representou para ele apesar do pouco tempo de convívio, justificando qualquer pancadaria que acontece.

E que pancadaria. Muito bem coreografadas e comandadas com segurança pelos estreantes Chad Stahelski e David Leitch (este último não foi creditado na função, mas apenas por conta de certos regulamentos do sindicato de diretores), as cenas de ação representam um dos pontos altos do filme, tendo um ritmo frenético e envolvente, além de explorarem com eficiência as habilidades do protagonista. E é impossível não ressaltar o contraste gritante entre a rapidez e objetividade que John demonstra quando entra em ação e a forma quase apática com a qual ele surge inicialmente. É como se o retorno a sua antiga vida lhe desse o gás que ele perdeu após as tragédias pelas quais passou.

Aliás, John Wick se revela um personagem interessante, não só pela maneira como age contra os vilões, mas também pelo respeito que todos têm por ele, o que inclusive rende cenas divertidas. Quando Viggo descobre quem seu filho resolveu cutucar, o “Oh!” que ele solta estabelece a grande reputação de John sem que ela seja mostrada pelo roteiro de alguma forma. Reputação esta que praticamente torna uma honra morrer pelas mãos dele. E, ainda que suas limitações como ator fiquem claras em momentos emocionais, Reeves merece créditos por encarnar John com força e determinação, convencendo como herói de ação, sem falar que sua inexpressividade parece trazer certa calmaria para o personagem, se encaixando bem no papel.

Claro que De Volta ao Jogo tem problemas que enfraquecem o resultado final. Mesmo que John exiba alguma vulnerabilidade em determinados momentos, ele ainda assim acaba sendo uma figura forte demais para que possamos temer pelo que vai acontecer com ele. Além disso, há elementos na história que nem são muito desenvolvidos e parecem servir apenas para que a projeção dure um pouco mais (a Srta. Perkins interpretada por Adrianne Palicki vem em mente). E por ter que dar um destino para mais coisas do que precisaria, o roteiro chega a aparentar ter vários finais, sendo que aquele que realmente encerra a trama é um tanto óbvio. Mas isso não é o suficiente para fazer com que o filme termine deixando um gosto meio amargo na boca. É uma produção cuja proposta funciona bem durante a maior parte do tempo, rendendo um entretenimento satisfatório e que não deixa de ser uma bela surpresa.

Nota:


quarta-feira, 19 de novembro de 2014

Following

Christopher Nolan é hoje um diretor bastante admirado, que vem construindo uma carreira repleta de grandes filmes. Mas todo cineasta começa em algum lugar, e nem sempre isso ocorre em uma produção de bom orçamento ou com um grande estúdio por trás. Feito a um custo de apenas seis mil dólares, Following é um trabalho que Nolan provavelmente não conseguiria fazer se não tivesse contado com a boa vontade de alguns amigos. Mesmo enfrentando suas limitações, o filme se revelou uma grata surpresa, chamando atenção para seu realizador.

Escrito pelo próprio Nolan, Following acompanha Bill (Jeremy Theobald), um jovem escritor que passa a seguir pessoas na esperança de quebrar um bloqueio criativo. Uma delas é Cobb (Alex Haw), ladrão que, ao perceber o que ele está fazendo, intima o rapaz a acompanhá-lo em suas atividades ilícitas. Quando os dois invadem a casa de uma Loira (Lucy Russell), o protagonista acaba se apaixonando. Tomado pelo sentimento, ele decide conhecê-la melhor, mesmo com as advertências feitas por Cobb, que deixa claro que isso pode trazer problemas.

Um detalhe óbvio, mas ainda assim curioso, no fato de Bill seguir qualquer pessoa é perceber que o ser humano em si é uma criatura fascinante em seus hábitos. Cada indivíduo tem seus próprios compromissos, moradias, hobbies, relacionamentos. E é interessante analisar esse tipo de riqueza que existe em cada um de nós. Essa ação do personagem, de certa forma, encontra reflexo quando ele passa a invadir casas com Cobb, já que o novo parceiro mostra que é possível prever características dos moradores daqueles estabelecimentos só de ver os pertences deles, uma habilidade que ganha ótimos toques quando entram em sua própria casa, fazendo-o com que perceba o quão patética é sua vida.

No entanto, esse aspecto não chega a ser o centro da trama, já que Christopher Nolan realiza aqui um thriller com toques de noir cujo ritmo ágil envolve o espectador durante a maior parte da história. Utilizando uma estrutura não linear (algo que viria ser usado nos futuros trabalhos do realizador), Following começa acompanhando um interrogatório de Bill na polícia, e a partir disso volta no tempo para mostrar como ele se envolve com Cobb, pulando aos poucos para eventos que são consequência dessa parceria. É um grande quebra-cabeça que soa confuso inicialmente, mas gradualmente as peças se encaixam, montando uma trama repleta de reviravoltas surpreendentes em uma narrativa conduzida com segurança pelo diretor, que consegue criar um cativante clima de suspense entre os personagens.
Enquanto isso, Jeremy Theobald traz um jeito de homem comum que combina bem com Bill, além de lhe conferir uma insegurança que o aproxima do espectador. Nesse aspecto, o Cobb de Alex Haw é o oposto, praticamente ditando como as coisas devem acontecer. Aliás, é notável a influência que ele tem no protagonista, que até substitui o visual precário que tem inicialmente pela elegância típica do parceiro. Já Lucy Russell surge como o ponto fraco do elenco, não conseguindo fazer com que sua Loira se torne uma femme fatale interessante, o que é lamentável considerando a importância que ela acaba tendo na trama.
É verdade que Following enfrenta alguns problemas. Nolan é um tanto desajeitado em determinadas cenas (como em uma briga que ocorre no final do segundo ato) e os fades que dividem a estrutura do roteiro às vezes quebram o ritmo da trama. Mas é um filme eficiente ao longo de seus rápidos 68 minutos de duração, apresentando com propriedade o talento de um diretor que desde então amadureceu muito na arte de contar histórias.
Nota:

segunda-feira, 17 de novembro de 2014

Ajuste Final

Donos de uma filmografia riquíssima, os irmãos Joel e Ethan Coen sempre mostraram habilidade invejável para transitar entre gêneros diferentes, criando obras notáveis e que nunca deixaram de ter as marcas de seu cinema. Logo no início da carreira, a dupla apareceu com o eficiente thriller Gosto de Sangue, partindo depois para o divertidíssimo Arizona Nunca Mais. Para confirmar de vez seus talentos, realizaram este Ajuste Final, um filme de gângster que não só faz jus aos melhores do gênero, mas que também funciona como belíssimo estudo de personagem.

Ajuste Final se passa na época da Lei Seca e foca conflitos entre as máfias locais de uma cidade americana. Nesse contexto, o chefe do crime, Johnny Caspar (Joe Polito), avisa seu rival, Leo O’Bannon (Albert Finney), que pretende matar o apostador Bernie Bernbaum (John Turturro), em virtude de trapaça. Apesar de ter o apoio de seu conselheiro, Tom Regan (Gabriel Byrne), Leo decide proteger Bernie, já que se trata do irmão de sua namorada, Verna (Marcia Gay Harden), ela que mantém um caso com Tom. Tal decisão dá início a uma guerra e Tom passa a tentar manter a paz entre os dois chefões, ainda que isso venha a afetar seus próprios interesses.
Assim, os Coen apresentam um mundo de traições e desconfianças, repleto de figuras desprezíveis, onde não há espaço para ingenuidade, covardia e nem mesmo para amizades. Este último aspecto, por sinal, parece até importante, mas não passa de uma ilusão, porque no final das contas os negócios sempre vêm em primeiro lugar. Ninguém pode ficar por baixo nesse universo corrupto, e isso rege boa parte dos atos dos personagens frios e calculistas que guiam a trama e tornam a experiência de assistir a Ajuste Final tão fascinante.
Tudo é comandado com elegância pelos Coen (sim, o filme é reconhecidamente dirigido pelos dois, mesmo com Ethan não sendo creditado na função ao lado do irmão, como passaria a ser a partir de Matadores de Velhinha). Em determinados momentos, eles demonstram prezar bastante pela sutileza. Quando um personagem é socado escada abaixo, por exemplo, a ideia de que ele está sendo rebaixado é perceptível sem grandes alardes. Além disso, é interessante ver o contraste que os Coen criam entre o que se vê geralmente na tela e o tom às vezes melancólico (apesar da violência que acompanhamos), o que até pode ser creditado em boa parte à fantástica trilha de Carter Burwell. Para completar, é admirável como os irmãos cineastas impõem um visual que faz a narrativa lembrar constantemente os filmes noir, seja pela impecável recriação de época feita pelo design de produção ou pelo belo jogo de luzes da fotografia de Barry Sonnenfeld.
Enquanto isso, o elenco é irrepreensível em suas composições. O veterano Albert Finney interpreta Leo como uma figura de autoridade e inteligência inquestionáveis, algo que fica claro desde sua primeira cena. O momento em que ele escapa de um atentado é, sem dúvida, um dos melhores do filme. Já o excelente Jon Polito aposta em uma ansiedade que de certa forma torna seu Johnny Caspar o oposto de Leo, já que enquanto este se sente seguro em seu poder, aquele deve correr mais um pouco para alcançá-lo. E se Marcia Gay Harden se destaca ao tornar Verna uma mulher forte e que beira a femme fatale, John Turturro brilha ao fazer de Bernie um homem bobo por almejar mais coisas do que deveria, mas cujos atos ainda assim se revelam imprevisíveis.
Mas o grande nome do filme é mesmo Gabriel Byrne que, como o protagonista Tom Regan, surge como a figura mais íntegra da galeria apresentada pelos Coen ao longo da história. Tom mostra ter a ética que Johnny Caspar logo no início diz tanto valorizar. Mesmo que aja como um verdadeiro anti-herói, isso não o impede de ser o único a demonstrar sentimentos por outras pessoas, como Leo e Verna. Sem falar que seu arco dramático é muito bem desenvolvido, detalhe evidente em duas cenas específicas e aparentemente iguais envolvendo Bernie, mas que têm resultados diferentes. Byrne encarna o personagem com a sensibilidade que ele merece, em uma das melhores atuações de sua carreira.
Impressionante em todos os sentidos, Ajuste Final se estabelece facilmente como uma das obras-primas dos irmãos Coen. Aliás, este é um elogio considerável se levarmos em conta que a dupla vem conseguindo manter a genialidade vista nesse início de carreira durante a maior parte de sua filmografia, algo que chegaria ao ápice no premiadíssimo Onde os Fracos Não Têm Vez. O que, convenhamos, é digno de aplausos.
Nota:

sexta-feira, 14 de novembro de 2014

Debi & Lóide 2

Quando um bom filme faz sucesso e sua desejada continuação fica vários anos no limbo sem ser desenvolvida, algumas dúvidas pairam no ar. É realmente válido trazer os personagens em uma nova história ou seria melhor deixá-los quietos, já que estariam saindo por cima? Debi & Lóide passou por isso. Apontada por muitos como uma das melhores comédias da década de 1990, o longa em vários momentos pareceu estar prestes a ganhar uma continuação, mas esta nunca ia pra frente (deixemos o prequel lançado em 2003 no esquecimento que merece). No entanto, 20 anos depois, Jim Carrey e Jeff Daniels finalmente retornam aos seus famosos personagens neste Debi & Lóide 2, novamente sob o comando dos irmãos Peter e Bobby Farrelly. E é um alívio poder dizer que a espera valeu a pena e quaisquer receios com relação ao projeto foram em vão.

Escrito pelos próprios diretores em parceria com Bennett Yellin (que contribuiu no primeiro filme), Mike Cerrone, Sean Anders e John Morris, Debi & Lóide 2 coloca Lloyd Christmas (Carrey) e Harry Dunne (Daniels) voltando a conviver juntos depois de o primeiro pregar uma peça épica no amigo. Eles então descobrem que a antiga namorada de Harry, Fraida Felcher (Kathleen Turner), teve uma filha com ele e a deu para adoção. Considerando que Harry está precisando de um transplante de rim e a garota, Penny (Rachel Melvin), pode ser a única doadora compatível, a dupla parte em uma viagem para encontrá-la. Obviamente, causam confusões homéricas pelo caminho, principalmente quando se envolvem com o pai adotivo dela, Dr. Pinchelow (Steve Tom), cuja esposa, Adele (Laurie Holden), quer tirá-lo de circulação para ficar com a herança.
Debi & Lóide 2 segue mais ou menos a mesma fórmula usada anteriormente, usando uma estrutura de road movie em sua história e chegando a repetir situações e piadas. De certa forma, isso pode denotar alguma falta de criatividade por parte dos roteiristas. Mas a verdade é que não chega a incomodar tanto, servindo como base para que as sacadas do roteiro divirtam em sua maioria. É bacana e até mesmo nostálgico ver Lloyd e Harry fazendo as patetices com as quais nos acostumamos, provando que são mais estúpidos do que imaginávamos, o que não poderia ser mais apropriado (o que dizer, por exemplo, do caminho que fazem para ver os pais de Harry?). Além disso, o roteiro não deixa de prestar homenagens ao longa original, trazendo de volta elementos conhecidos daquele universo, como a van canina dos protagonistas e o vizinho cego Billy (Brady Bluhm), que novamente vira alvo de piadas hilárias.
Jim Carrey e Jeff Daniels retomam admiravelmente a química entre seus personagens, algo que se não acontecesse certamente faria o projeto perder sua razão de ser. Se as piadas funcionam, isso se deve à incrível inocência adotada pelos atores ao encarnarem seus personagens, agindo como se a estupidez deles fosse perfeitamente normal diante das outras pessoas. A reação deles a uma revelação sobre sexo, por exemplo, é engraçada exatamente por estarmos falando de duas crianças grandes. Aliás, a dupla é tão parada em sua imaturidade que usa exatamente as mesmas roupas de adolescente do primeiro filme, e se lá elas já soavam deslocadas, aqui isso é ainda mais perceptível – afinal, estamos falando de dois homens de meia-idade.
Debi & Lóide 2 não é excepcional como seu antecessor. Seria surpreendente se isso acontecesse. Mas é um filme bem sucedido não só em suas tentativas de causar o riso do público ao longo da projeção, mas também em tornar prazeroso rever seus cativantes protagonistas, que definitivamente não mudaram nada nestas duas décadas.
Obs.: Há uma cena depois dos créditos finais.
Nota:

Debi & Lóide: Dois Idiotas em Apuros

Debi & Lóide deve ser um dos filmes mais subestimados da década de 1990. Claro que esta estreia dos irmãos cineastas Peter e Bobby Farrelly tem vários admiradores, mas é uma comédia que não parece ser referenciada como uma obra-prima, um clássico do gênero. No entanto, está mais do que na hora de dar o devido crédito a esse filme. Mesmo não sendo inovador e contando com um humor que pode soar idiota (ao menos à primeira vista), Debi & Lóide acaba representando uma experiência absolutamente hilária ao colocar o público em frente a duas figuras que não poderiam ser mais estúpidas.

Escrito pelos Farrelly em parceria com Bennett Yellin, Debi & Lóide acompanha as desventuras dos amigos fracassados Lloyd Christmas (Jim Carrey) e Harry Dunne (Jeff Daniels), que decidem atravessar o país até as montanhas gélidas de Aspen, no Colorado. O objetivo: devolver a maleta que Mary Swanson (Lauren Holly), mulher por quem Lloyd se apaixonou, teria esquecido no aeroporto antes de viajar. O que eles não sabem é que tal maleta deveria concluir uma transição entre Mary e alguns bandidos, que passam então a ficar no encalço da dupla ao longo de toda sua jornada.
Há comédias que disparam piadas para todos os lados e acertam muito pouco (ou até mesmo nada). Há outras que conseguem divertir, mas deixam algum espaço entre as risadas que causa. E há aquelas que fazem o espectador gargalhar constantemente durante sua história. Debi & Lóide se encaixa facilmente neste último tipo. Os irmãos Farrelly exploram com eficiência as personalidades de seus dois protagonistas em todas as sacadas do roteiro. Nisso, eles apostam em um humor que vai desde tiradas rápidas (a cena em que Lloyd comemora a chegada do homem à lua), passando por gags politicamente incorretas (como aquela envolvendo o periquito presenteado a um menino cego, uma das melhores do filme) e chegando ao ponto de brincar com informações que são de conhecimento do público, mas não dos personagens (o policial bebendo uma “cerveja”).
Mas Debi & Lóide não é admirável apenas por suas piadas inspiradas, pois do ponto de vista de estrutura ele também é exemplar, tendo um roteiro que não apresenta uma série de elementos secundários à toa. Em vários momentos, são inseridos no filme personagens e certas informações que inicialmente aparentam cumprir rapidamente sua função na narrativa, ou simplesmente não soam tão importantes. Mas quando voltam a ganhar atenção, não só pegam o espectador de surpresa, como também o fazem rir pela forma como são usados (as corujas que surgem em determinada cena são exemplo disso).
Só que o filme provavelmente perderia forças caso a dupla de protagonistas não fosse tão interessante. Por sorte, Jim Carrey (que na época fazia da comédia seu principal nicho e chegava estrelato absoluto com o sucesso de Ace Ventura e O Máskara) e Jeff Daniels (ator que sempre transitou bem entre vários gêneros) encarnam Lloyd e Harry com uma divertida ingenuidade, tendo ainda uma dinâmica excepcional e um carisma que nos faz simpatizar com eles rapidamente. A grande camaradagem entre os dois é a alma de Debi & Lóide, sendo curioso notar como eles se completam à sua própria maneira, como pode ser visto, por exemplo, quando um mostra não saber ler direito, fazendo o outro dizer o que está escrito em um jornal.
Quando uma comédia é realmente boa, tendemos a rir de suas piadas sempre que a revisitamos ao longo dos anos, não importa quantas vezes façamos isso. No caso de Debi & Lóide se passaram exatos 20 anos e o filme mesmo assim é capaz de causar ataques de risos como se o víssemos pela primeira vez. É outra prova de como ele é bem sucedido dentro de tudo o que almeja – como se ainda precisasse de mais uma evidência disso.
Nota: