terça-feira, 29 de setembro de 2015

Perdido em Marte

Aparentemente, há uma espécie de cota anual para superproduções sobre grandes missões espaciais, rendendo filmes que desafiam a perseverança e a paciência de seus personagens em busca da salvação deles mesmos ou da própria humanidade. Gravidade e Interestelar preencheram bem essa demanda nos últimos anos e agora chega a vez de Perdido em Marte, que representa mais uma ida ao espaço para o diretor Ridley Scott. Adaptando o livro de Andy Weir, o diretor realiza um longa interessante, ainda que peque na tensão envolvendo seu protagonista.

Escrito por Drew Goddard, Perdido em Marte é quase uma versão marciana de Náufrago. Mark Watney (Matt Damon) é um astronauta que está em uma missão no Planeta Vermelho ao lado de sua equipe quando é abatido por uma forte tempestade. Ao acordar, ele se encontra sozinho no local, com seus companheiros o dando como morto e já estando a caminho da Terra. Mark então passa a usar todos seus conhecimentos para sobreviver, e quando a NASA descobre que ele está vivo todos começam a bolar um plano para resgatá-lo.

Diferente dos já citados Gravidade e Interestelar ou de outras produções do gênero, como Apollo 13, Perdido em Marte é um longa com uma abordagem claramente mais leve, detalhe que se percebe, por exemplo, no bom humor quase constante de Mark, na escolha das músicas que tocam em determinadas cenas e no fato de os personagens pontualmente soltarem piadinhas mesmo diante da situação apresentada. Ridley Scott surpreende ao lidar muito bem com esse lado da história, chegando até a inserir eficientemente algumas punchlines, como na cena em que o diretor de missões da NASA, Vincent Kapoor (Chiwetel Ejiofor), pensa em como Mark deve se sentir solitário, sendo que, na verdade, o sujeito não poderia estar mais relaxado naquele momento específico. Dessa forma, Scott constrói uma leveza contagiante na narrativa, algo que de quebra também dá personalidade ao filme.

Mas não é só nisso que o diretor acerta, já que ele conduz a própria estrutura da trama com a segurança que se esperaria de alguém experiente como ele. Se dividindo em três núcleos (Mark em Marte, sua equipe na nave Ares 3 e o pessoal da NASA na Terra), o filme se organiza de maneira que o que acontece em Marte pode afetar a estratégia que os personagens dos outros núcleos estão seguindo, numa dinâmica interessante e muito bem coordenada. Nesse sentido, o trabalho do montador Pietro Scalia também merece elogios por pular com naturalidade de um núcleo para o outro, além de conseguir manter um belo ritmo na história ao longo das quase duas horas e meia de projeção.

Enquanto isso, o roteiro nos apresenta a uma gama de personagens que não ganham muito aprofundamento. Levando isso em conta, o filme se apoia muito no belíssimo elenco que conseguiu reunir, dando sorte de todos os atores, em maior ou menor grau, tornarem os personagens interessantes com suas presenças, desde Jessica Chastain como a comandante Melissa Lewis até Jeff Daniels como o administrador da NASA Teddy Sanders, passando por Chiwetel Ejiofor, Donald Glover, Michael Peña, Kristen Wiig, Kate Mara e Sean Bean. Mas é claro que o maior destaque é Matt Damon, que encarna Mark Watney com seu talento habitual, tendo um carisma essencial para que possamos nos importar com o personagem, nossa âncora emocional no filme.

No entanto, por mais que nos importemos com Mark, Perdido em Marte encontra problemas ao não conseguir passar a impressão de que a vida dele está mesmo em risco constante, algo grave considerando que é isso que está em jogo no fim das contas. Mark precisa se virar sozinho em Marte, com recursos limitados e enfrentando dois grandes vilões: a passagem de tempo e o ambiente inóspito do planeta. Através de relatórios em vídeo, o personagem deixa claro para o espectador tudo o que pode fazer para se manter vivo, e nisso é bom ver a ciência ganhar os holofotes com todas as maravilhas que possibilita. O problema é que na maior parte do tempo o roteiro faz as coisas parecerem muito fáceis e seguras para o protagonista, tirando o peso das dificuldades que ele enfrenta e impedindo a narrativa de ter um pouco mais de urgência em meio à leveza que lhe é imposta.

Apesar de falho nesse aspecto, Perdido em Marte consegue manter o espectador cativado, representando uma jornada inteligente e bem humorada ao lado um protagonista que não deixa de acreditar em sua sobrevivência. No fim, isso acaba sendo o bastante para sustentar o filme como um entretenimento eficiente.

Nota:


domingo, 27 de setembro de 2015

Olhos de Serpente

(Crítica originalmente publicada no Papo de Cinema)

Olhos de Serpente é exemplo de que um roteiro problemático ainda é capaz de render um bom filme. Terceira parceria entre Brian De Palma e o roteirista David Koepp, que haviam colaborado em O Pagamento Final e Missão: Impossível, o filme traz os dois em sintonias diferentes, com Koepp parecendo montar o roteiro (escrito a partir do argumento concebido por ele e De Palma) meio às pressas. Contudo, o longa tem muito espaço para o diretor mostrar seu melhor, a habilidade para criar uma narrativa bastante instigante. 

O filme nos apresenta a Rick Santoro (Nicolas Cage), policial corrupto de Atlantic City que vai a um cassino da cidade conferir a luta de boxe que coloca em jogo o título dos pesos-pesados. No local, o melhor amigo de Rick, Kevin Dunne (Gary Sinise), é o responsável pela segurança do secretário de defesa que, mesmo vigiado, acaba baleado em meio à multidão atenta ao confronto no ringue, vindo a morrer pouco depois. Tomando as rédeas da investigação, Rick descobre que o assassinato pode fazer parte de uma conspiração, e passa a tentar descobrir quem está por trás disso.

O início de Olhos de Serpente é brilhante e está entre os grandes momentos da carreira de Brian De Palma. Criando um plano-sequência de quase quinze minutos (que na verdade foi simulado, com os cortes sendo muito bem mascarados pela montagem), o diretor estabelece a premissa e os personagens com uma economia admirável, numa mise-en-scène maravilhosa não só por deixar clara a organização espacial da sequência, mas também por tornar a ação bastante natural com sua precisão técnica. Aliás, De Palma utiliza todas as armas possíveis para construir a narrativa do filme. Seus enquadramentos e movimentos de câmera elegantes se fazem presentes, assim como a tela dividida, a montagem ágil de Bill Pankow e a trilha cheia de tensão composta por Ryûichi Sakamoto. Tudo contribui para o longa prender a atenção e manter o espectador inquieto. Nisso, merece destaque a cena de Rick correndo pelo cassino tentando encontrar Julia Costello (Carla Gugino), mulher que falava com o secretário antes de ele ser atacado, sem saber que o próprio líder da conspiração está próximo de acha-la.
O roteiro de Koepp merece créditos pela maneira como estrutura a investigação de Rick, criando um quadro mais completo da situação ao abrir espaço para que, a cada pessoa questionada pelo protagonista, passemos a ver através de flashbacks outros pontos de vista relativos ao atentado. Aqui, De Palma faz ótimo uso da câmera subjetiva para nos colocar na pele desses personagens. Mas o roteiro encontra problemas em outros aspectos, como na relação entre Rick e Kevin, grandes amigos que cuidam um do outro, mas cuja afinidade é pouco convincente pela forma como é desenvolvida, o que tira boa parte do peso dramático do filme considerando as direções da história. Felizmente, isso não impede Nicolas Cage e Gary Sinise de terem atuações competentes, principalmente o primeiro, que se diverte com o jeito extravagante de Rick. E se é louvável o fato de Brian De Palma pegar o espectador pela mão no início do filme e só o soltar ao fim da projeção, vale dizer que ele quase nos perde no terceiro ato, quando os acontecimentos não chegam a fazer jus à tensão vista até ali.
Caso fosse feito por um diretor menos talentoso, Olhos de Serpente teria grandes chances de não ser muito interessante. Mas não é o que acontece. Apesar de não estar entre os melhores trabalhos de Brian De Palma, o filme ainda é um thriller eficiente e cativante, com momentos em que só nos resta tirar o chapéu para o realizador.
Nota:

terça-feira, 22 de setembro de 2015

Séries: Bloodline


“Por favor, não nos julgue. Nós não somos más pessoas. Mas fizemos uma coisa errada”, diz o protagonista John Rayburn em sua narração em off logo no primeiro episódio de Bloodline, série da Netflix. Pode ser apenas um claro pedido feito ao público, que acabara de ser apresentado àquele sujeito e a toda sua família, figuras que passamos a acompanhar ao longo dos treze episódios dessa primeira temporada. Mas essa fala específica não deixa de ser uma espécie de cartão de visitas da série, indicando que ela, além de explorar os relacionamentos entre os personagens, também dará atenção a moral e as próprias personalidades deles, aspectos que no fim ajudam a formar a riqueza narrativa vista aqui.

Criada por Glenn Kessler, Todd A. Kessler e Daniel Zelman, o mesmo trio responsável por Damages (série que agora certamente subiu algumas posições em minha lista de prioridades), Bloodline concentra sua trama na Flórida, onde Robert Rayburn (Sam Shepard) e sua esposa Sally Rayburn (Sissy Spacek) têm um dos hotéis à beira da praia mais bem sucedidos da região. No aniversário de 45 anos dos negócios, eles decidem reunir toda a família para comemorar, incluindo o já citado filho John (Kyle Chandler), que faz parte da polícia local, e os mais novos, Kevin (Norbert Leo Butz) e Meg (Linda Cardellini). Mas o retorno do filho mais velho e ovelha negra do clã, Danny (Ben Mendelsonh), traz tensão entre todos.

Bloodline é perfeita para binge-watching (expressão que passou a ser usada para descrever as maratonas com todos os episódios). Com uma estrutura que acompanha os personagens no presente, mas que insere pontualmente flashbacks de eventos importantes e flashforwards de algo chocante que irá acontecer, a série acaba sendo instigante em vários sentidos, conseguindo desenvolver uma história envolvente ao mesmo tempo em que faz o espectador querer saber mais sobre os personagens. É difícil tirar o olho da tela quando se fica curioso com o porquê de John e seus irmãos agirem da maneira que se vê na tela e o quê os levará a um ato tão extremo. A capacidade dos realizadores de manter o espectador na palma de suas mãos é grande, de forma que os ganchos que encerram a maior parte dos episódios tornam difícil ignorar o aviso de “O próximo episódio começará em 15 segundos” da Netflix.

Estamos falando de uma história sobre família e todos os conflitos que esse tipo de núcleo pode ter, então é natural que seja exatamente nos personagens e na complexidade dos relacionamentos entre eles que Bloodline encontre suas maiores forças. Por mais felizes que os Rayburns possam parecer inicialmente, gradualmente isso se desmistifica, ganhando grande peso ao trazer à tona memórias dolorosas que não cicatrizaram tão bem (algumas dessas memórias, por sinal, são tão fortes que a série evita mostra-las por inteiro, apresentando-as através de flashes para que saibamos o necessário). Isso vem, principalmente, pelo impacto causado por Danny, que acende o pavio para que o roteiro possa explorar lados sombrios da família, já que a desconfiança gerada pela presença dele percorre todo o ambiente. E é a partir da relação que o primogênito tem com a família que o roteiro põe em xeque a fala de John que abriu este texto. Afinal, os Rayburns são estabelecidos como pessoas essencialmente boas, mas os erros que eles cometem dão muita voz ao que eles têm de pior dentro de si, e Danny conhece esse lado melhor do que ninguém.

É claro que a excelente dinâmica do elenco também é essencial para que esses conflitos entre os personagens soem naturais e tenham força na tela. Nisso, o nível das atuações é admirável, desde Norbert Leo Butz e Linda Cardellini como Kevin e Meg até os veteranos Sam Shepard e Sissy Spacek como Robert e Sally. Spacek, aliás, encarna Sally com uma delicadeza notável, com a matriarca sempre acreditando no potencial de seus filhos, detalhe que torna compreensível o porquê de em vários momentos eles evitarem decepcioná-la ou entristece-la. No entanto, Kyle Chandler e Ben Mendelsonh são os que se sobressaem nessa temporada, protagonizando os momentos mais impactantes. Chandler assume o papel de John com segurança, buscando fazer dele um sujeito paciente e compreensivo como a mãe, mas tendo o lado estressado e até explosivo de seu pai, nuances que ele encarna com enorme talento. Já Mendelsonh como Danny fica longe dos traços das composições de seus colegas, decisão apropriada considerando a posição do personagem na família. O ator cria um homem há muito perdido em sua desmoralização e que constantemente exibe indignação com a forma como é tratado. E se seus erros não são ignorados pelos irmãos, o próprio Danny não consegue esquecer os erros deles, como se vê na fita que ele escuta várias vezes enquanto dirige.

Ao lado de produções como Sense8, Orange is the New Black e House of Cards, Bloodline é mais um acerto da Netflix na hora de apostar em projetos originais para seu catálogo de streaming. A série pode não surpreender tanto com algumas de suas revelações, mas faz isso de sobra com sua construção narrativa, sendo capaz de manter o espectador grudado na tela até o último segundo. Levando em conta o gancho deixado ao final da temporada e sua promessa de que os personagens não percorrerão caminhos fáceis, a espera pelo próximo ano da série não poderia ser mais inquietante.


segunda-feira, 21 de setembro de 2015

Horas de Desespero

(Crítica originalmente publicada no Papo de Cinema)
Horas de Desespero parte de uma fórmula que, pelo menos na teoria, poderia dar certo: dedicar seus primeiros minutos para apresentar os personagens, buscando criar um elemento humano no qual possamos nos ancorar ao longo da narrativa que, então, parte para a tensão, colocando essas figuras em risco. Só “poderia”, porque quando se tem personagens como os vistos no filme, uma direção frágil e um roteiro questionável, as coisas dessa fórmula se complicam. A verdade é que, quando não causa risos involuntários, o resultado aqui é apenas desagradável.
Escrito pelo diretor John Erick Dowdle em parceria com seu irmão Drew Dowdle, dupla mais conhecida por filmes de terror como Demônio e Assim na Terra Como no InfernoHoras de Desespero nos apresenta a Jack Dwyer (Owen Wilson), engenheiro que se muda para um país asiático do “quarto mundo” (e que nunca é revelado) a fim de representar sua empresa que promete melhorar o sistema de tratamento de água local. Sua esposa, Annie (Lake Bell), e as filhas, Lucy e Beeze (Sterling Jerins e Claire Geare, respectivamente), vão junto, esperando ter uma boa vida no país. Mas pouco depois de chegar, eles se veem no meio de uma zona de guerra na qual Jack é um dos alvos principais, porque os rebeldes dali não querem saber de estrangeiros mexendo em sua água. Para se salvar, a família tem a ajuda de Hammond (Pierce Brosnan), sujeito que eles conhecem no aeroporto e que, claro, não é um mero turista.
A partir daí, o filme engata a ação quase ininterrupta, envolvendo as correrias de Jack e sua família para fugir dos rebeldes asiáticos (ou ao menos passar despercebidos por eles). Isso seria ótimo, caso conseguíssemos ficar tensos junto de personagens tão unidimensionais. O elenco não consegue se salvar, mesmo tendo atores interessantes como Owen Wilson e Lake Bell. E se os personagens já não são muito cativantes, a condução de John Erick Dowdle, aspirante a nos deixar pouco espaço para respirar, chega a ser cômica em determinados momentos. Numa das principais cenas do filme, por exemplo, Jack precisa atirar sua família de um prédio para outro, algo que causa risos pelo péssimo uso tanto do slow motion quanto da montagem em si, com a inserção de closes dramáticos que acabam sendo ridículos.
Enquanto isso, o roteiro nunca foge do óbvio, além de apelar para soluções fáceis quando os personagens se encontram sem saída. Hammond, quase uma paródia de James Bond, basicamente entra na história só para resgatar Jack sempre na hora certa das mãos dos rebeldes asiáticos. Aliás, é incrível que 90% dos orientais vistos no filme sejam figuras selvagens, movidas por um sentimento anti-estrangeiro em um contexto político que nunca sai do superficial. E o próprio roteiro dos irmãos Dowdle parece ter noção disso, incluindo uma cena em que certo personagem assume a culpa por eles agirem dessa forma. Contudo, isso soa como tentativa furada dos realizadores de justificar tal retrato.
Horas de Desespero é capaz de fazer o espectador ansiar pelo final antes mesmo da metade da projeção. Infelizmente, às vezes, é o que resta a ser feito quando o que se vê na tela é uma história previsível, que não prende a atenção, inserida numa narrativa sem qualquer tipo de peso.
Nota:

quarta-feira, 16 de setembro de 2015

Maze Runner: Prova de Fogo

(Crítica originalmente publicada no Papo de Cinema)

Utilizando uma fórmula comum à maior parte das sagas infanto-juvenis da literatura, com toques de O Senhor das Moscas como pequeno diferencial, Maze Runner: Correr ou Morrer não foi um filme muito interessante, chegando até a empalidecer bastante se comparado a outras adaptações, como as da ótima série Jogos Vorazes, principal expoente desse filão na atualidade. O longa nem provocava muita curiosidade com relação ao que viria em seu capítulo seguinte. Até por isso, tal capítulo, Maze Runner: Prova de Fogo, se revela uma boa surpresa, pois aproveita suas influências para manter o espectador envolvido na narrativa ao mesmo tempo em que expande o universo apresentado anteriormente.
Escrito por T.S. Nowlin (que já fazia parte do trio de roteiristas estreantes do filme anterior), Maze Runner: Prova de Fogo começa de onde havíamos parado, com Thomas (Dylan O’Brien), Teresa (Kaya Scodelario) e outros habitantes da Clareira conseguindo fugir, sendo resgatados posteriormente pelos homens liderados por Janson (Aidan Gillen). Este os leva a um esconderijo onde todos supostamente ficarão seguros da CRUEL, organização que os colocou diante do grande labirinto. Mas, como já havia sido estabelecido, tudo isso é parte dos planos da própria CRUEL e de sua líder, Ava Paige (Patricia Clarkson), algo que Thomas não demora muito a perceber. Ele foge com seus amigos para, então, enfrentar a realidade do que restou do mundo fora da Clareira, o que inclui os Cranks, monstros que poderíamos chamar de zumbis, sendo eles as pessoas infectadas pelo vírus que pôs a humanidade em risco.
Enquanto no primeiro filme a influência era majoritariamente O Senhor das Moscas, desta vez a história se aproxima mais de produções como Eu Sou a Lenda ao mostrar um universo pós-apocalíptico no qual a ameaça surge quando menos se espera. O design de produção parece ter estudado filmes que seguem esse estilo, já que o visual aqui não tem nada de particularmente novo. Mas o que é admirável com relação à abordagem da história nesta continuação é que o diretor Wes Ball consegue fazer com que tudo contribua para a atmosfera de tensão desenvolvida na narrativa. É um detalhe notável, principalmente, nas cenas de ação, que se revelam envolventes e ágeis mesmo consistindo basicamente em grandes correrias, seja para fugir de um lugar ou escapar dos Cranks (a exceção fica por conta do belo clímax). Aliás, a situação dos personagens agora é tão mais urgente que em determinado momento um deles diz ter saudades da Clareira. O fato de podermos sentir o peso dessas palavras prova a eficácia do longa em estabelecer o universo no qual estamos inseridos.
O jovem elenco também contribui para que o filme prenda a atenção, sendo convincente ao interpretar personagens obrigados a amadurecer rapidamente diante das circunstâncias. Nisso, Dylan O’Brien novamente se destaca pelo carisma e determinação que traz a Thomas, enquanto seus colegas Kaya Scodelario, Thomas Brodie-Sangster e Ki Hong Lee surgem como apoios eficientes nos papeis de Teresa, Newt e Minho, respectivamente. Já o elenco adulto, que conta com figuras conhecidas como Giancarlo Esposito, Aidan Gillen e Patricia Clarkson, faz o que pode com o pouco tempo de tela, exibindo a boa presença esperada dele.
No entanto, vale dizer que o filme soa longo demais, dedicando tempo a cenas que pouco acrescentam à narrativa, como a festa alucinógena que Thomas presencia em determinado momento. Da mesma forma, o flashback que abre a projeção parece ser uma pista para algo que ganharia importância mais tarde, mas pelo menos aqui ele não leva a nada, servindo apenas para explorar superficialmente o passado do protagonista com a CRUEL. Além disso, como nem todos os personagens são desenvolvidos a ponto de serem importantes, algumas cenas não têm tanto peso quanto poderiam.
Ainda assim, Maze Runner: Prova de Fogo é claramente superior ao primeiro filme, mostrando um potencial que a série (ao menos no cinema) parecia não ter. E se antes era difícil ficar curioso quanto à continuidade da história, dessa vez ocorre o contrário. Convenhamos, isso já é um avanço.
Nota:

domingo, 13 de setembro de 2015

Carga Explosiva 3

(Crítica originalmente publicada no Papo de Cinema)

Responsável por lançar Jason Statham como um dos heróis de ação mais populares da atualidade, além de ajudar a estabelecer sua persona de cara durão, a série Carga Explosiva não chegou a ser grande coisa em seus dois primeiros exemplares, produções que até podem divertir, mas que são do tipo que esquecemos pouco depois de assistir. E se isso já ocorria antes, a situação não muda nesse fraco Carga Explosiva 3Aqui, a fórmula da franquia, com suas perseguições e cenas de luta, se mostra desgastada e cansativa.
No filme, Frank Martin (Statham) leva uma vida pacífica, pescando ao lado de seu velho amigo Tarconi (François Berléand). Mas a tranquilidade acaba quando ele se envolve com Johnson (Robert Knepper), que o obriga a pegar seu carro e dirigir até os pontos que lhe forem ordenados, atravessando a Europa com a jovem Valentina (Natalya Rudakova) na carona. Para que Frank se atenha ao trabalho, Johnson o obriga a usar uma pulseira explosiva que o mandará pelos ares caso se afaste demais do carro. Tudo parte de um plano maior envolvendo a entrada de cargas de lixo tóxico em Odessa.
A história bolada por Luc Besson e Robert Mark Kamen é uma costumeira bobagem, ainda que esse aspecto não seja bem o que interessa por aqui. O principal foco de Carga Explosiva sempre foi nas cenas de ação, colocando seu astro para bater em todo mundo ao passo que ele também prova ser o melhor motorista das redondezas. Nisso, o diretor Olivier Megaton parece ter como único propósito mostrar o quanto Frank Martin é bom naquilo que faz, de forma que antes das pancadarias começarem nós já sabemos que o herói será bem sucedido em derrubar os adversários. O próprio Jason Statham nem se esforça mais para deixar isso claro. Até por isso, o que se vê na tela não tem muita graça. Sim, é possível se divertir em alguns momentos, como na luta que traz o protagonista preservando seu precioso terno, ou quando tem que correr atrás do carro, só que é pouco para um filme como esse.
Mas as sequências mais dinâmicas ao menos mantém Carga Explosiva 3 em movimento, diferente do que acontece quando o roteiro resolve desenvolver sua trama ilógica e os personagens, sendo que Besson e Kamen não deixam de cometer o erro de achar que podemos nos importar com eles. A relação entre Frank e Valentina, por exemplo, é a pior coisa do filme, especialmente porque a garota é muito aborrecida e irritante, enquanto que os momentos compartilhados pelo casal beiram o constrangimento na maioria das vezes. E se os diálogos se revelam rasos e óbvios, ainda são melhores que o vilão de Robert Knepper, ridículo em suas tentativas de ser uma ameaça para o protagonista.
A sensação que fica ao final de Carga Explosiva 3 é de que a franquia já deu o que tinha que dar. Mesmo assim, ganhou anos depois uma série de TV e o reboot Carga Explosiva: O Legado, projetos sem envolvimento de Jason Statham. Talvez estejam aí para provar que a impressão deixada nesse terceiro capítulo é equivocada. Mas, se não for o caso, estamos falando de apenas mais uma franquia querendo se estender além do que deveria.
Nota:

terça-feira, 8 de setembro de 2015

Nocaute

Filmes que trazem esportes como parte importante de suas histórias raramente são sobre os esportes em si, mas sim sobre seres humanos. Na maior parte das vezes, vemos personagens que são colocados em situações desfavoráveis, precisando dar a volta por cima em meio a vários obstáculos, e quase sempre uma vitória pessoal está à espera deles no final. E isso é seguido por este Nocaute, que demonstra compreender bem o tipo de material que tem em mãos. Mas é uma pena que o filme se desenvolva de maneira óbvia e convencional, de forma que se ele acaba sendo eficiente, isso se deve mais a atuação de Jake Gyllenhaal do que a qualquer outra coisa, com o ator novamente passando por uma grande transformação física para um papel, virando agora o oposto do que vimos em O Abutre.

Escrito por Kurt Sutter, roteirista mais conhecido por seu trabalho na televisão (é ele o criador da excelente série Sons of Anarchy), Nocaute acompanha o boxeador Billy Hope (Gyllenhaal), campeão invicto dos meio-pesados e que leva uma vida feliz ao lado da esposa Maureen (Rachel McAdams) e da filha Leila (Oona Laurence), ainda que as lutas o arrasem fisicamente. Mas depois de uma grande tragédia, Billy entra em uma verdadeira crise de decadência e autodestruição, perdendo tudo o que tem, incluindo a filha, que passa a ficar sob os cuidados do serviço social. É então que ele se junta ao treinador Tick Wills (Forest Whitaker) para tentar voltar à direção certa e recuperar sua vida.

É muito claro o caminho que o roteiro de Sutter toma ao desenvolver a história: fazer o protagonista cair o máximo possível para que sua eventual superação tenha um peso ainda maior. E quando achamos que Billy já chegou ao fundo do poço, o roteirista trata de provar que este é um pouco mais embaixo. No entanto, tudo isso ocorre se sustentando demais em clichês, e certas coisas revelam-se muito convenientes e até esquemáticas. A maneira como Leila e seus sentimentos pelo pai são desenvolvidos, por exemplo, serve mais para acatar necessidades do roteiro do que para moldá-la como personagem, o que é uma pena considerando que a pequena Oona Laurence mostra talento no papel. Já a direção de Antoine Fuqua é burocrática na maior parte do tempo, além de não se esquivar muito do melodrama (a cena em que pai e filha são afastados é exemplo disso). E se as lutas no ringue ao menos contam com uma bem-vinda verossimilhança, é uma pena que seus narradores fiquem falando diálogos desnecessariamente expositivos quase o tempo todo, o que é irritante em determinados momentos.

A sorte de Nocaute é que Jake Gyllenhaal interpreta o protagonista com sua competência habitual, o que ajuda essa história de redenção a prender a atenção. Apostando em um modo despojado de falar que revela logo de cara as origens do personagem (algo que até lembra um pouco o que Sylvester Stallone faz com Rocky Balboa), Gyllenhaal encarna as transformações de Billy Hope admiravelmente, desde seu início como um homem arrogante, mas até dependente das pessoas ao seu redor, passando pela amargura diante do puro sofrimento e depois estabelecendo com naturalidade a segurança que ele vai adquirindo para recomeçar sua vida. O ator surge intenso no papel, e sua dinâmica com os outros membros do elenco contribui para tornar Billy mais humano e digno de nossa torcida. Aliás, se Gyllenhaal é o destaque absoluto do filme, Forest Whitaker e Rachel McAdams (além da já citada Laurence) aparecem como apoios bastante eficientes. Enquanto Whitaker tem em Tick Wills àquele que cede a Billy boa parte da força que ele precisa, tendo uma grande presença em cena, McAdams usa seu pouco tempo de tela para fazer de Maureen não só uma esposa amorosa, mas também a figura que mantém o marido com os pés no chão.

Nocaute talvez pudesse ser melhor, mas o resultado visto aqui fica longe de outros filmes do tipo. É um longa que mostra depender demais do astro no centro de sua narrativa e, ao contrário dele, não deixa impressões muito fortes ao final da projeção.

Nota:


sábado, 5 de setembro de 2015

The Death of "Superman Lives": What Happened?

(Crítica originalmente publicada no Papo de Cinema)

Em uma época na qual Batman estava sendo cinematograficamente sepultado graças aos filmes dirigidos por Joel Schumacher, circulava na Warner o projeto de trazer Superman de volta às telonas, anos depois do fracasso de Superman IV: Em Busca da Paz. Intitulado Superman Lives, o filme seria dirigido por Tim Burton, ao passo que Nicolas Cage havia sido o escolhido para encarnar o Homem de Aço. A produção estava quase pronta para começar seus trabalhos em frente às câmeras quando, repentinamente, foi cancelada pelo estúdio, mantendo o herói longe dos cinemas por mais alguns anos (ele só voltaria em 2006, com o fraco Superman: O Retorno). Mas o projeto nunca foi totalmente esquecido, como prova este The Death of “Superman Lives”: What Happened?, documentário feito por Jon Schnepp.

No filme, Schnepp busca investigar como Superman Lives seria, o que poderia ter representado e os motivos que levaram ao seu cancelamento. Para isso, o diretor tem acesso irrestrito a praticamente todo o material de pré-produção do filme, desde artes conceituais e vídeos de testes de figurino até os três roteiros que foram desenvolvidos, além de entrevistar grande parte dos envolvidos no projeto, como Tim Burton e os roteiristas Kevin Smith, Wesley Strick e Dan Gilroy.
É um ótimo material de bastidores, e a partir dele o documentarista consegue explorar bem o processo criativo do projeto frustrado, mostrando a visão que havia por trás da história e até que ponto os produtores controlavam seu desenvolvimento. Esse detalhe, aliás, rende um momento divertido no qual Kevin Smith fala das regras impostas pelo produtor Jon Peters. Mas um dos méritos de The Death of “Superman Lives” é mostrar que, por mais inusitadas que fossem certas escolhas para aquele filme, este ainda poderia ter sido interessante. A maneira existencialista como Tim Burton queria abordar o herói fazia sentido (por coincidência ou não, a ideia veio a ser explorada no recente O Homem de Aço), enquanto que Nicolas Cage parecia capaz de dar conta do papel e toda a equipe técnica estava empenhada em realizar algo que fizesse jus ao herói. Aliás, é visível o quão marcante a produção foi para seus envolvidos, que sentem uma clara frustração por terem visto seu trabalho ser jogado fora. Tim Burton, por exemplo, chega a dizer que fica meio depressivo só de pensar nele.
No entanto, apesar da riqueza do material, é lamentável que Jon Schnepp quase sabote o próprio filme ao se revelar parte da escola Morgan Spurlock de documentaristas (e não é surpresa ver o nome do diretor de Super Size Me, 2004, listado entre os produtores associados). Ao longo de The Death of “Superman Lives”, o realizador mostra um desejo compulsivo de aparecer, surgindo na tela quase o tempo todo, como ao ficar ao lado de seus entrevistados durante as conversas, de forma que em determinados momentos ele até parece chamar atenção para si mesmo, como se estivesse tentando se inserir em uma história da qual não faz parte. O ápice do egocentrismo de Schnepp ocorre quando Jon Peters precisa atender um telefonema e vemos o diretor aproveitar para beber água, algo que não tem nada a ver com o filme, não servindo nem por um lado cômico e pausando a narrativa desnecessariamente.
Superman Lives poderia ter sido uma bomba homérica ou poderia ter adiantado o impacto causado por Batman nas mãos de Christopher Nolan. Nunca saberemos ao certo, e a curiosidade com relação a isso é frustrante, principalmente se considerarmos que o dinheiro gasto com grandes fracassos poderia ter sido usado nele. Resta nos contentarmos com o fato de sua história ao menos render um documentário satisfatório, mas que certamente seria mais interessante nas mãos de um cineasta com um pouco mais de noção.
Nota:


Shocker: 100.000 Volts de Terror

(Crítica originalmente publicada no Papo de Cinema)

Não seria nem um pouco surpreendente se o roteiro de Shocker: 100.000 Volts de Terror, filme que Wes Craven lançou em 1989, tivesse sido concebido como uma continuação de A Hora do Pesadelo, mas que o diretor decidiu retrabalhar, no fim das contas, para ter em mãos algo original. Assim como na franquia de Freddy Krueger, os sonhos desempenham papel importante na história centrada num maníaco assassino que ataca suas vítimas de maneira atípica (na falta de definição melhor). Aliás, a produção é conhecida por ter sido uma tentativa de Craven de emplacar uma nova franquia dentro do subgênero slasher, seguindo o estilo de longas como o próprio A Hora do Pesadelo e Sexta-Feira 13. Mas, é um alívio constatar que o plano do diretor acabou não dando certo, porque este é, sem dúvida, um dos piores trabalhos de sua carreira.

No filme, o manco técnico de TV Horace Pinker (Mitch Pileggi) é responsável pela morte de várias pessoas. O detetive que está investigando os assassinatos é Don Parker (Michael Murphy), cuja esposa e dois filhos são mortos por Pinker. Mas, o outro filho dele, Jonathan (Peter Berg), descobre que consegue prever os ataques de Pinker por meio de seus sonhos, o que lhe dá uma pista para o esconderijo do serial killer. Quando este é preso, a cadeira elétrica acaba sendo seu destino, mas não antes dele fazer um pacto com o diabo. Assim, Pinker não morre na execução, tornando-se um espírito capaz de possuir outras pessoas e se locomover através da eletricidade, habilidades que ele utiliza para ir atrás de Jonathan.
Por mais absurda que seja a premissa de Shocker, ela não chega a ser particularmente bizarra para um filme de terror. Contudo, a forma como Wes Craven a desenvolve é inacreditável, no pior sentido da palavra. Quando o diretor usa o poder de seu vilão para que ele possua o corpo de uma garotinha que, então, vemos sair mancando e falando palavrões, fica claro que ele perdeu a noção do ridículo. Essa nem é a cena mais esdrúxula do longa que, algum tempo depois, traz Pinker dizendo que não conseguiu possuir um personagem porque este gostava muito de Jonathan, em uma tentativa nada eficaz de querer regrar algo que não precisa disso. E adivinhem? Essa ainda não é a parte mais risível do filme. Pena ele não ser uma comédia.
Shocker é uma daquelas produções que se supera. Quando pensamos que não pode ficar pior, ela fica. Realmente parece que estamos vendo o filme de um diretor não sabe o que está fazendo. E estamos falando de um realizador cujo talento para o terror ficou mais que comprovado ao longo dos anos. Em determinado momento, Shocker até desiste de querer fazer sentido, chegando a usar os sonhos como uma forma preguiçosa de recuperar objetos, algo que funcionaria se estivéssemos falando do universo de Freddy Krueger.
Levando tudo isso em conta, nem é preciso dizer que Shocker carece de qualquer tensão, se é possível dizer que Wes Craven tenta inserir isso na narrativa. Pior, o filme quer que torçamos por Jonathan, um personagem aborrecido e interpretado sem carisma por Peter Berg, hoje mais conhecido por seu trabalho de direção em produções como Tudo Pela VitóriaBattleship: A Batalha dos Mares, e O Grande Herói. O mesmo pode ser dito do vilão, encarnado de maneira amalucadamente exagerada por Mitch Pileggi, que se esforça para mostrar toda a insanidade de Pinker, sem, contudo, impedi-lo de cair no ridículo.
Wes Craven errou feio em Shocker. Trata-se de uma bobagem bagunçada e indefensável, em que o diretor não dá nem sinais das coisas boas que é capaz de fazer. Não à toa, é uma produção merecidamente relegada ao esquecimento. Esperamos que permaneça assim.
Nota:


Últimos Dias

(Crítica originalmente publicada no Papo de Cinema)

Filme que finaliza a chamada “Trilogia da Morte” de Gus Van Sant, Últimos Dias, assim como seus antecessores (Gerry e Elefante), apresenta uma história ficcional inspirada numa tragédia real, seguindo os momentos que antecedem a respiração final de seus personagens. Aqui, ele acompanha os últimos dias de vida de um músico claramente baseado em Kurt Cobain, morto em 1994. No entanto, o fato do roteiro ser apenas fundamentado no líder do Nirvana dá uma liberdade interessante a Van Sant para desenvolver os eventos. E se não chegamos a ver a vida de Cobain, sobretudo como ela foi na reta final, acabamos tendo uma versão do que leva alguém como ele a morrer tão precocemente.

Últimos Dias se concentra em Blake (Michael Pitt), músico que claramente perdeu quaisquer propósitos de sua vida, não conseguindo arrancar muitos prazeres dela. Nadar livremente em um rio, por exemplo, já não é relaxante, representando apenas mais um vazio. “Eu perdi algo no caminho para onde quer que eu esteja hoje”, ele diz. Vagando por uma floresta ou por sua mansão sem destino certo, até porque não há mais nenhum, Blake se isola, evitando as pessoas ao seu redor e se entregando ao cansaço e à pressão que sente, seja da fama, das drogas ou até de si mesmo.
Investindo quase sempre em planos longos (e até planos-sequência) para contar a melancólica jornada de Blake, Gus Van Sant desenvolve uma narrativa cujas cenas têm uma dinâmica natural, passando uma interessante impressão de realismo, marca registrada, por exemplo, em Elefante, do qual ele resgata a técnica de mostrar cenas por mais de um ângulo. Assim, Van Sant consegue explorar não só a visão do protagonista, mas também a de seus amigos, como agem e se sentem com relação a ele, criando um retrato um pouco mais completo de seu universo. Além disso, a decisão do diretor de manter a câmera afastada de Blake na maior parte do tempo se revela inteligente, pois serve para limitar nossa entrada em seu mundo, detalhe que, somado à proporção de tela utilizada (1.37:1), contribui para sua introspecção.
Blake está exausto. Nada do que surge em seu caminho chama a atenção, seja a fala de um representante das Páginas Amarelas ou um amigo colocando deliberadamente a mão em seu bolso e pegando seu dinheiro. Para a filha pequena ele já disse o que precisava, mesmo que tenha sido pelo telefone. Na verdade, Blake está mais que exausto. Ele já está morto, mas à espera do trem definitivo rumo ao infinito (se este existir). A atuação do talentoso Michael Pitt é essencial para que as emoções do personagem fiquem sempre claras. Praticamente sem poder utilizar o rosto para sua composição, já que ele constantemente fica escondido por seu cabelo e Van Sant faz questão de não fazer close ups, Pitt tem em seu jeito avoado e sonolento, que inclui postura encurvada e voz arrastada, seu principal instrumento para transmitir os sentimentos de Blake, algo que ele usa com extrema competência. E o fato do personagem aparecer murmurando coisas para si mesmo mostra o quanto ele parece reprimir os próprios pensamentos, liberando-os apenas quando canta. Sendo assim, seus dois momentos musicais se destacam, representando desabafos libertadores.
Gus Van Sant não busca fazer grandes reflexões com a jornada de Blake (ou Kurt Cobain, se preferirem), e isso não é particularmente necessário. Seguir o personagem em sua espera quase silenciosa pelo inevitável acaba sendo o suficiente para formar uma história com grande peso emocional. Como resultado, Último Dias revela-se um trabalho consistente na carreira de seu diretor.
Nota:


A História do Mundo: Parte 1

(Crítica originalmente publicada no Papo de Cinema)

Orson Welles começa a narrar a história de nossos antepassados enquanto "Also Sprach Zarathustra", de Richard Strauss (música que marcou 2001: Uma Odisseia no Espaço), surge ao fundo. Em cena, vemos alguns macacos se levantarem, tornando-se homens, como diz nosso narrador. É então que, após erguer as mãos, como se tocassem o céu que cobre suas cabeças, os macacos inesperadamente começam a… se masturbar. Essa é a primeira cena de A História do Mundo: Parte 1, sétimo trabalho de Mel Brooks no cinema, momento que apresenta muito bem o que teremos ao longo do filme. Vemos o diretor brincar com nossa própria História, não tendo medo de apostar em piadas sujas em meio às várias sacadas que tem ao longo da narrativa, sendo bem-sucedido, assim apresentando um exemplar divertidíssimo em sua respeitável filmografia.

A História do Mundo: Parte 1 é uma antologia dividida em cinco partes, cada uma parodiando uma época importante de nossos passos por este mundo: Idade da Pedra, Antigo Testamento, Império Romano, Inquisição Espanhola e Revolução Francesa. Algumas são curtas, se aproximando de verdadeiros esquetes, enquanto outras são um pouco mais elaboradas, possuindo até mesmo tramas bem definidas. E, claro, todas têm a trupe de rostos conhecidos da filmografia do diretor, como Madeline Kahn, Dom DeLuise, Harvey Korman, Ron Carey e Cloris Leachman, além do próprio, que aparece em todos os episódios interpretando personagens diferentes.
Mesmo tratando de coisas distintas, todos os segmentos têm algo em comum, e este é o talento de Mel Brooks para divertir o público, a aposta no mais puro nonsense que cria belas piadas com seus personagens. As falas de duplo sentido da imperatriz romana Ninfo (interpretada por Kahn) são hilárias, assim como os diálogos que Brooks desenvolve para cenas como a da Última Ceia (que até conta com uma participação especial de John Hurt na pele de Jesus) e da pequena reunião dos revolucionários franceses. E se segmentos curtos como a Idade da Pedra e o Antigo Testamento são eficientes, trazendo uma gag para cada elemento tratado (o surgimento da arte e do crítico é ótimo), punchlines como “É bom ser o rei” e “Dez mandamentos para todos obedecerem” representam alguns dos grandes momentos do filme.
Tudo isso é conduzido com uma energia admirável por Mel Brooks, que caçoa sem dó nem piedade das épocas mostradas. A Inquisição Espanhola, por exemplo, se resume a um grande número musical cuja produção não faz feio diante daquelas da Broadway, divertindo por conta do diretor apontar o absurdo por trás das torturas e outras coisas horríveis do período. Assim, figuras como Tomás de Torquemada (interpretado pelo próprio Brooks) viram verdadeiras caricaturas. O mesmo ocorre com o Império Romano e a Revolução Francesa (os episódios mais longos) e o modo como trata os poderosos e o descaso com os pobres. Contar com a voz imponente de Orson Welles para narrar o filme é uma ótima sacada, já que causa um contraste divertido entre o dito e a loucura que está acontecendo.
Ao final de A História do Mundo: Parte 1, Mel Brooks insere uma pequena prévia do que poderíamos ver numa segunda parte, que inclui desde Adolf Hitler patinando no gelo até uma versão de Star Wars com judeus. Considerando o trabalho feito aqui, é uma pena que o diretor não tenha levado adiante a possível continuação, já que possibilidades não faltavam para ele nos fazer rir mais uma vez com sua visão divertida de nossa História.
Nota:


Playtime: Tempo de Diversão

(Crítica originalmente publicada no Papo de Cinema)

Playtime: Tempo de Diversão é um filme que continua impressionante mesmo depois de quase 50 anos de seu lançamento. Revelando uma ambição até rara de se ver em comédias, a produção dirigida por Jacques Tati conta com uma escala grandiosa para envolver o público numa narrativa complexa que mostra muito da visão de mundo do cineasta. Isso em momento algum impede o filme de divertir imensamente, sendo que ele faria uma belíssima sessão dupla com Tempos Modernos.

Playtime não tem uma história e nem segue uma narrativa clássica. O que se vê durante o filme é Jacques Tati, basicamente usando seu famoso alterego Sr. Hulot, e um grupo de turistas americanas, em especial a bela Barbara (Barbara Dennek), para guiar o público por uma Paris ultramoderna e bem desenvolvida. A partir disso, o diretor monta a estrutura do longa inserindo os personagens em situações que ancoram comentários dele com relação à sociedade e à modernização através dos tempos.
Tais situações vêm em forma de longas setpieces conduzidas não só com inteligência, mas também com uma precisão genial, já que muitas coisas acontecem em cena e o diretor nunca perde o controle da ação, conseguindo o feito de divertir das mais diversas maneiras. Assim, vale dizer que poucas vezes os figurantes (se é que devemos chama-los desse jeito) tiveram tanta importância e foram tão bem utilizados. Seja pelos efeitos sonoros (uma pessoa caminhando chama a atenção com seus passos antes de entrar em cena) ou pelas gags visuais formidáveis (um garçom parece estar regando flores ao invés de apenas servir champanhe), o que Tati realiza aqui é absolutamente admirável em sua aula de mise en scène. Merece destaque o fato de algumas piadas se estenderem criativamente no meio de tudo isso, como quando o Sr. Hulot quebra a porta de vidro de um restaurante e os funcionários tentam manter as aparências, fingindo que nada aconteceu, desencadeando momentos divertidíssimos. Aliás, a sequência do restaurante é o ápice da narrativa, durando quase toda a segunda metade do filme e fazendo rir com a loucura que toma conta do estabelecimento.
Se tudo isso diverte, em parte se deve ao fato de Jacques Tati apontar como há coisas absurdas ao nosso redor e até mesmo na nossa forma de agir, tornando fácil o processo de identificação do público com o que é colocado na tela. Aqui também é impossível não destacar o excepcional design de produção. Quando o diretor foca uma sala envidraçada enorme num prédio comercial e a decora com poucos quadros e móveis, é como se ele dissesse que as pessoas têm a ambição para pensar em grande escala mesmo não tendo conteúdo suficiente para preencher isso. Já o restaurante até pode ter uma aparência chique que irá atender apenas os ricos, mas, à medida que avançamos e o lugar vai expondo sua verdadeira face, percebe-se que aquilo é madeira, tijolos e cimento, como em qualquer outro lugar. As pessoas se vestem para adequar-se àquele espaço, mas no fim fazem uma festa incrivelmente caótica.
Há uma sequência em Playtime que mostra quatro apartamentos que parecem verdadeiras vitrines para o público abrir um sorriso enquanto pratica voyeurismo, sendo que Tati filma os moradores como se eles próprios conseguissem entreter uns aos outros com o que fazem (outra ótima gag visual). Isso passa a ideia de que as pessoas gostam de se divertir conferindo a vida dos outros. Considerando que essa obra-prima usa seu grande universo e a rotina de seus habitantes para nos fazer rir, esse é um momento que a define muito bem. Como o próprio título original (ou o subtítulo que ganhou aqui no Brasil) indica, este é um perfeito tempo de diversão.
Nota: