sábado, 31 de dezembro de 2016

Os Melhores e os Piores Filmes de 2016


2016 chegando ao fim e com isso vem também o momento das costumeiras listas de fim de ano com o que o cinema nos proporcionou de bom e de ruim, um balanço sempre bacana de se fazer.

Como havia comentado no final do ano passado, dessa vez decidi compor as listas me concentrando não só nos filmes lançados nos cinemas brasileiros, mas também nas produções que não tiveram a chance de passar por nossas salas, indo parar direto no mercado de home video, nos serviços de streaming (como a Netflix) e na televisão. Caso alguém tenha interesse, a lista com todos os 316 longas-metragens que vi em 2016 (e suas respectivas notas) está à disposição no meu perfil no Letterboxd, que pode ser acessado aqui.

Dito isso...

Os dez piores filmes lançados no Brasil em 2016:


10) Inferno, de Ron Howard:

Terceiro filme a adaptar um livro da série protagonizada pelo professor Robert Langdon e escrita por Dan Brown, Inferno coloca o personagem (novamente interpretado por Tom Hanks) no modo desmemoriado e em meio a uma nova correria internacional, tendo a ajuda da médica Sienna Brooks (Felicity Jones) para desvendar o porquê de algumas pessoas estarem o perseguindo enquanto ele tem visões sobre o Inferno concebido por Dante Alighieri. É uma trama que deveria render uma narrativa instigante com as pistas seguidas pelos personagens e o grande mistério envolvendo um cientista (vivido por Ben Foster), mas infelizmente o filme é desinteressante do início ao fim, contando com um desenvolvimento absurdo e até conveniente que parece subestimar a inteligência do público, sendo que a direção de Ron Howard ainda se revela burocrática e nada envolvente. Acaba sendo o pior capítulo da trilogia, que já não era grande coisa com O Código Da Vinci e Anjos & Demônios.


9) A 5ª Onda (The 5th Wave), de J Blakeson:

Tentativa de emplacar mais um sucesso entre as adaptações de livros destinados ao público jovem-adulto, A 5ª Onda traz Chloë Grace-Moretz no papel de Cassie, que se vê tendo que lidar com uma invasão alienígena determinada a acabar com a raça humana, algo feito gradualmente a partir de “ondas” que tiram nossos recursos para sobreviver e causam uma série de desastres. Depois de estabelecer sua premissa, o filme descarrilha com um desenrolar bastante genérico, não só por seguir a fórmula que vem servindo de base para longas como esse (com direito a um triângulo amoroso aborrecido), mas também por a trama ser montada com peças que já vimos em produções infinitamente melhores, como Vampiros de Almas. O que se tem aqui acaba sendo algo terrivelmente insípido e previsível, sem quaisquer personagens com os quais possamos nos importar, e se não torcemos pelos alienígenas é porque estes se revelam estúpidos demais para serem levados a sério.


8) Tirando o Atraso (Dirty Grandpa), de Dan Mazer:

Ver uma lenda como Robert De Niro embarcar em um longa como Tirando o Atraso é algo que até dói. No filme ele interpreta Dick, veterano do exército que, após a morte da esposa, passa a querer viver a vida ao máximo, dando em cima de garotas adolescentes e frequentando altas festas durante uma viagem que ele faz ao lado do neto, Jason (Zac Efron), a fim de salvar o rapaz de um futuro infeliz. Tentando ser uma comédia politicamente incorreta, o filme infelizmente fracassa ao não conseguir fazer graça com as situações exageradas que joga na tela, como quando Jason flagra o avô se masturbando ou as cenas que Dick protagoniza ao lado de Lenore (Aubrey Plaza), momentos que acabam sendo apenas ridículos. Para completar, a história é previsível desde o princípio e engessada por uma série de clichês que não poderiam ser mais batidos, sendo até uma surpresa que ainda sejam usados.


7) Visões do Passado (Backtrack), de Michael Petroni:

Adrien Brody é um ator que curto muito. Muito mesmo. É exatamente por isso que acho uma pena ele estar há anos na mesma maré que atores como Nicolas Cage e Bruce Willis (admiro ambos também), aceitando qualquer projeto que aparecer em sua frente ao invés de ambicionar coisas mais criativas. Visões do Passado entra na área de porcarias protagonizadas pelo ator, que aqui interpreta um psicólogo abatido pela morte da filha pequena e que, gradualmente, se envolve no mistério de uma tragédia que ocorreu quando ele era mais jovem. Trata-se de um filme que se desenvolve de maneira bagunçada e até absurda a partir das peças que tem em mãos, além de falhar em suas tentativas de criar um clima de suspense e irritar com os sustos baratos que aparecem pontualmente. E ainda que Adrien Brody se esforce, a verdade é que nem ele consegue se destacar em meio ao caos narrativo no qual está inserido.


6) Caçadores de Emoção: Além do Limite (Point Break), de Ericson Core:

Dirigido por Kathryn Bigelow e protagonizado por Keanu Reeves e Patrick Swayze em 1991, Caçadores de Emoção não é exatamente um grande filme. No entanto, qualquer coisa que ele apresente consegue ser infinitamente melhor do que este remake dirigido por Ericson Core. Tendo a mesma premissa do anterior ao trazer o jovem agente do FBI Johnny Utah (Luke Bracey, um Chris Hemsworth sem um pingo de carisma) se infiltrando em uma gangue de esportistas que organiza grandes roubos sob a liderança de Bodhi (Édgar Ramirez, ator talentoso que merecia papeis melhores), o longa é praticamente um sonífero, não tendo nada de cativante que possa segurar a narrativa e a atenção do público, contando com uma história que não foge da obviedade, personagens desinteressantes e cenas de ação sem energia alguma, por mais que lidem com esportes radicais. O máximo que este novo filme consegue fazer é nos deixar com saudades do longa original. Ao menos aquele era uma diversão razoável.


5) 13 Horas: Os Soldados Secretos de Benghazi (13 Hours: The Secret Soldiers of Benghazi), de Michael Bay:

Baseado na história real dos ataques feitos por militantes libaneses ao posto diplomático norte-americano na cidade de Benghazi, em 11 setembro de 2012, 13 Horas acompanha a equipe de soldados americanos que se viu tendo que proteger o local, numa missão feita por baixo dos panos e que durou o tempo que dá título ao filme. Mostrando a mania dos Estados Unidos de querer invadir outros países com a desculpa de querer acabar com seus conflitos, o filme infelizmente surge como uma propaganda ufanista que trata com respeito o poderio americano e sua arrogância enquanto chama a Líbia de fracasso. E se em quesitos como esse o longa já incomoda, ele ainda tem o azar de contar com a incompetência de Michael Bay na direção, que conduz as cenas de ação de maneira caótica e sem o menor apuro técnico. No fim, o que se vê aqui é tão aborrecido e ignorante que os 140 minutos de duração parecem intermináveis.


4) Zerando a Vida (The Do-Over), de Steven Brill:

Segundo filme da parceria entre Adam Sandler e Netflix, Zerando a Vida mostra que os responsáveis pelo serviço de streaming estavam malucos quando concluíram que Sandler era uma aposta interessante em termos criativos, algo que o catastrófico The Ridiculous 6 também havia apontado. Aqui, Sandler e seu velho amigo David Spade interpretam sujeitos que simulam a própria morte a fim de resetar suas vidas, se metendo em uma grande encrenca pelo fato de suas novas identidades serem de figuras que estavam metidas em atividades ilícitas. Uma trama boba por natureza e que rende um filme típico da filmografia de Sandler, tentando causar o riso a partir de piadas nada engraçadas e que muitas vezes se revelam preconceituosas. E se as reviravoltas do roteiro são previsíveis, as pontuais cenas de ação não poderiam ser mais ridículas, como a luta que acompanhamos no terceiro ato. Ainda faltam dois filmes para que Sandler e a Netflix concluam seu contrato, mas já torço para que este não seja renovado.


3) Invasão a Londres (London Has Fallen), de Babak Najafi:

Invasão a Casa Branca já era fraco, mas Invasão a Londres mostra que nada é tão ruim que não possa piorar. Dando continuidade a rotina de seus personagens, o longa troca o local da ação e mantém mais ou menos a mesma história de antes, com o segurança Mike Banning (Gerard Butler) tendo que salvar o presidente americano Ben Asher (Aaron Eckhart) e outros líderes mundiais das mãos de terroristas implacáveis. A partir daí, o filme não só não sai do lugar comum, tanto em termos de trama quanto de cenas de ação (a exceção talvez fique com um plano-sequência em meio a um tiroteio), como ainda exibe uma boa dose de ufanismo e xenofobia através das ações e dos diálogos de seu protagonista. Desconfio que caras como Donald Trump devem adorar um filme como esse. E pensar que um terceiro capítulo da franquia já foi confirmado e deve estrear em 2018 (suspiros).


2) É Fada!, de Cris D’Amato:

Se É Fada! foi usado como veículo para lançar Kéfera Buchmann ao estrelato no cinema, a maneira como faz isso é insuportável. Colocando a youtuber no papel da fada Geraldine, que tem como objetivo ajudar a jovem Julia (Klara Castanho) a superar alguns problemas, o filme é uma produção que mostra não ter a menor noção de desenvolvimento de história e personagens, além de nos colocar diante de situações que tentam (sem sucesso) brincar com a incompetência da fada em seu trabalho, algo que piora quando percebemos que Julia se sairia muito melhor sem a tal ajuda, tornando descartável tudo o que vemos e passando de maneira bastante óbvia a mensagem de “Seja você mesmo(a)”. É um longa aborrecido e constantemente irritante, no qual Buchmann ainda cria uma personagem que termina suas falas com um palavrão como se isso fosse o suficiente para causar o riso. E prefiro nem comentar o hábito de Geraldine de tirar a varinha do ânus. Só de lembrar fico com vergonha alheia.


1) Cinquenta Tons de Preto (Fifty Shades of Black), de Michael Tiddes:

Cinquenta Tons de Cinza é um desastre cujos problemas deixam ganchos para que ele seja ridicularizado, principalmente em um filme que tem como objetivo parodiá-lo. Mas quando o trabalho de criar as piadas em cima disso fica nas mãos de figuras como Marlon Wayans, o resultado é esta grande porcaria chamada Cinquenta Tons de Preto. Seguindo à risca a história do longa baseado no livro de E.L. James, esta comédia parece uma metralhadora ao atirar piadas para todos os lados a fim de fazer o espectador rir, o que é impossível quando o que se vê são sequências longas, repetitivas e incrivelmente idiotas como aquela em que a protagonista Hannah Steele (vivida por Kali Hawk) chupa um lápis, ou a outra em que as portas de um elevador ficam batendo na cabeça dela. Torturante do início ao fim, esta “paródia” só impressiona por conseguir ser mais estúpida do que o longa com o qual tenta (se é que podemos usar essa palavra) tirar sarro. Um feito realmente notável.

Outros 27 filmes que merecem menção desonrosa (em ordem alfabética):

Alice Através do Espelho (Alice Through the Looking Glass), de James Bobin
Assassino a Preço Fixo 2: A Ressurreição (Mechanic: Ressurection), de Dennis Gansel
Batman vs. Superman: A Origem da Justiça (Batman v Superman: Dawn of Justice), de Zack Snyder
Ben-Hur, de Timur Bekmambetov
O Bom Gigante Amigo (The BFG), de Steven Spielberg
O Bom Dinossauro (The Good Dinosaur), de Peter Sohn
O Caçador e a Rainha do Gelo (The Huntsman: Winter’s War), de Cedric Nicolas-Troyan
Café Society, de Woody Allen
Como Ser Solteira (How to Be Single), de Christian Ditter
Demônio de Neon (The Neon Demon), de Nicolas Winding Refn
A Era do Gelo: O Big Bang (Ice Age: Collision Course), de Michael Thurmeier
Um Espião e Meio (Central Intelligence), de Rawson Marshall Thurber
Esquadrão Suicida (Suicide Squad), de David Ayer
Floresta Maldita (The Forest), de Jason Zada
Um Homem Entre Gigantes (Concussion), de Peter Landesman
Independence Day: O Ressurgimento (Independence Day: Resurgence), de Roland Emmerich
Jack Reacher: Sem Retorno (Jack Reacher: Never Go Back), de Edward Zwick
Joy: O Nome do Sucesso (Joy), de David O. Russell
Julieta, de Pedro Almodóvar
O Maior Amor do Mundo (Mother’s Day), de Garry Matshall
Mente Criminosa (Criminal), de Ariel Vromen
Meu Amigo Hindu (My Hindu Friend), de Hector Babenco
Pai em Dose Dupla (Daddy’s Home), de Sean Anders
Perfeita é a Mãe (Bad Moms), de Jon Lucas e Scott Moore
Pets: A Vida Secreta dos Bichos (The Secret Life of Pets), de Chris Renaud e Yarrow Cheney
A Série Divergente: Convergente (The Divergent Series: Allegiant), de Robert Schwentke
Truque de Mestre: O 2º Ato (Now You See Me 2), de Jon M. Chu

E agora...

Os melhores filmes lançados no Brasil em 2016:


10) Sing Street: Música e Sonho (Sing Street), de John Carney:

Algo que John Carney já deixou claro em sua curta filmografia é seu interesse por histórias que trazem a música não só como uma forma de os personagens darem voz a sua criatividade, mas também de encarar seus problemas e evoluírem pessoalmente. Foi assim no maravilhoso Apenas Uma Vez, no ótimo Mesmo Se Nada Der Certo e neste lindo Sing Street. Nos levando até a Dublin da década de 1980, o diretor conta a história do jovem Conor (Ferdia Walsh-Peelo), que vive uma realidade conturbada com a família e dá início a uma banda (a Sing Street do título) para impressionar a adorável Raphina (Lucy Boynton). E assim passamos a acompanhar uma narrativa que diverte e toca o espectador com seus personagens carismáticos e os dilemas que eles vivem, além de encantar com cada uma das canções que surgem pontualmente e ajudam a marcar a evolução de Conor e seus amigos como artistas (aliás, será uma tremenda injustiça se o filme ficar de fora do Oscar de Melhor Canção, já que sua trilha inteira é digna de prêmios). É uma obra que empolga tanto com suas qualidades que acaba sendo capaz de aquecer até o mais gelado dos corações.


9) A Grande Aposta (The Big Short), de Adam McKay:

Mostrando os bastidores da crise financeira que estourou no final da década passada, A Grande Aposta foca em indivíduos que perceberam que um desastre ia acontecer, mas que preferiram ganhar dinheiro ao invés de impedir que milhões de pessoas fossem prejudicadas. Usando sua vasta experiência com comédias para lidar com o material que tem em mãos, Adam McKay parece apontar que é preciso “rir para não chorar” ao apresentar as situações absurdas da história. Em meio a isso, ele cria uma narrativa ágil, cheia de energia e com um mais do que apropriado tom documental, conseguindo prender a atenção do público e divertir sem tirar o peso da gravidade do que está acontecendo. E por o mercado financeiro ser bastante complexo com seus vários termos, é bacana ver como o diretor consegue ser didático quando precisa explicar determinadas coisas ao público, detalhe que rende algumas das cenas mais divertidas do filme. Contando ainda com grandes atuações de todo o elenco (em especial Christian Bale no papel do gestor financeiro Michael Burry), o longa surgiu como uma bela surpresa, ajudando a formar uma visão cinematográfica interessante e relevante sobre um acontecimento marcante em suas consequências.


8) Anomalisa, de Charlie Kauffman e Duke Johnson:

Primeira investida do genial Charlie Kauffman nas animações, Anomalisa se revela tão humano quanto os longas de carne e osso que ele já concebeu. No filme, feito a partir da técnica de stop-motion, Kauffman cria personagens que se revelam tão expressivos quanto os atores que já deram vida às histórias concebidas por ele. Tudo para contar a história de Michael Stone (voz de David Thewlis), escritor de livros de autoajuda que chega a Los Angeles para dar uma palestra sobre sua nova obra, encontrando no hotel em que se hospeda a jovem Lisa (voz de Jennifer Jason Leigh), que surge como uma possível luz para que ele escape da escuridão de sua solidão. Tecnicamente impecável, o longa trata com sensibilidade a visão deprimente que o protagonista tem do mundo e de como isso é capaz de criar um universo bastante simplista, como se vê no fato de todas as pessoas pelas quais ele passa terem o mesmo rosto e a mesma voz (com exceção de Lisa), sendo genial ver como esse jeito do personagem afeta a própria idealização que ele tem sobre um novo amor. É um filme típico de uma mente criativa como Charlie Kauffman, o que o torna imperdível.


7) Spotlight: Segredos Revelados (Spotlight), de Tom McCarthy:

No início da década passada, a equipe Spotlight do The Boston Globe publicou artigos que trouxeram à tona uma série de casos de pedofilia ocorridos na igreja católica. No cinema, tais casos já haviam sido abordados em documentários excepcionais como Mea Maxima Culpa e Livrai-nos do Mal, mas é interessante ver o ponto de vista jornalístico mostrado em Spotlight, que mostra a instigante investigação feita pela equipe-titulo em Boston, e nisso o longa não esconde sua inspiração na obra-prima Todos os Homens do Presidente. Aliás, assim como o clássico de Alan J. Pakula, este excelente trabalho de Tom McCarthy deveria ser exibido em todas as faculdades de jornalismo, já que dá uma verdadeira aula sobre como exercer a profissão, com os personagens exibindo um admirável compromisso com a verdade, seguindo as pistas e apurando as informações com a integridade que se espera de qualquer jornalista. E qualquer veículo de imprensa que prefere manipular informações a fim de saciar os próprios interesses deveria assistir a um filme como este para passar um pouco de vergonha.


6) Capitão Fantástico (Captain Fantastic), de Matt Ross:

Em um dos grandes filmes que o cinema independente americano produziu neste ano, Viggo Mortensen vive Ben Cash, homem que cuida de seus filhos de maneira um tanto atípica, morando na floresta, tendo mínimo contato com a sociedade e educando-os de maneira impressionante. Com isso, o diretor Matt Ross desenvolve um filme que diverte naturalmente com seus personagens, especialmente por conta da dinâmica que Mortensen (em uma atuação excepcional) tem com seus jovens colegas de elenco, fazendo do núcleo familiar de Ben e seus filhos algo absolutamente adorável, por mais perigoso que pareça em determinados momentos. Mas muito do brilhantismo de Capitão Fantástico também vem da forma como ele mostra a importância de sairmos um pouco de nossas bolhas, onde residem nossas ideias, gostos e cotidianos, e termos contato com coisas diferentes a fim de ganharmos novas vivências e nos tornarmos seres humanos um pouco mais completos, algo tratado com uma sensibilidade ímpar pelo diretor-roteirista Matt Ross. Como se não bastasse, o longa ainda tem uma das melhores versões de “Sweet Child O’Mine”, que rende aqui uma das cenas mais bonitas do ano.


5) Os Oito Odiados (The Hateful Eight), de Quentin Tarantino:

Em seu oitavo filme, Quentin Tarantino cria uma galeria de personagens desprezíveis, colocando todos eles em uma cabana durante um inverno forte no Wyoming e obrigando-os a se relacionar uns com os outros, algo que se revela praticamente impossível e resulta em uma tensão constante. Desde o John Ruth interpretado por Kurt Russell até o general Sandy Smithers vivido por Bruce Dern, os personagens que acompanhamos ao longo do filme fazem questão de mostrar que são criaturas odiáveis, o que não os torna menos memoráveis, sendo que os membros do elenco os encarnam com o grande talento que sabemos possuírem (destaque especial para Jennifer Jason Leigh, Samuel L. Jackson e o já citado Russell). E ao orquestrar um banho de sangue surpreendentemente chocante a partir dessas figuras, Tarantino aproveita para fazer um comentário muito pertinente sobre nossa mania de autodestruição, algo que contribui para a riqueza do longa. A realização de Os Oito Odiados foi uma incógnita por um tempo, depois que uma versão do roteiro vazou na internet. Mas assistindo ao filme, é inevitável ficar feliz com o fato de o diretor ter decidido levar o projeto adiante.


4) Boi Neon, de Gabriel Mascaro:

Boi Neon é uma prova de que não é preciso uma trama bem definida, com início, meio e fim, para termos um grande filme. Às vezes, o olhar aguçado de um diretor talentoso é o que basta, algo que Gabriel Mascaro mostra ter de sobra ao simplesmente acompanhar seus personagens. No filme, Iremar (Juliano Cazarré) é um vaqueiro que viaja pelo Nordeste cuidando dos bois para os rodeios enquanto sonha em ser estilista. Ele é transportado pela caminhoneira Galega (Maeve Jinkings), que leva consigo a filha pequena, Cacá (Alyne Santana). Mostrando a realidade dos personagens e seus sonhos de maneira intimista, Mascaro faz com que nos importemos tanto com eles que, quando o filme chega ao final, a vontade que fica é de continuar sendo espectador daquelas vidas, que rendem uma narrativa subversiva e repleta de humanidade junto do enfoque dado pelo realizador.


3) O.J.: Made in America, de Ezra Edelman:

“Nenhum filme bom é longo demais e nenhum filme ruim é curto o bastante”, já diria o mestre Roger Ebert. O.J.: Made in America se encaixa como uma luva na primeira parte desta frase. Produzido pela ESPN, o documentário de Ezra Edelman usa suas sete horas e meia de duração (que passam voando!) para contar a trajetória de O.J. Simpson, focando desde sua consagração como jogador de futebol americano até sua eventual decadência a partir do momento em que foi acusado de matar a ex-esposa, Nicole Brown, e o amigo dela, Ronald Goldman, em um julgamento que sacudiu os Estados Unidos na metade década de 1990. A partir dos depoimentos de uma série de pessoas (algumas inclusive próximas do ex-jogador) e um trabalho impecável com imagens de arquivo, Edelman mostra a vida de Simpson em detalhes, conseguindo com isso tocar em temas que vão desde a realização do sonho americano até o culto à celebridade, além de fazer um grande resgate histórico sobre o racismo nos Estados Unidos, uma questão que acabou criando um contexto ainda mais inquietante envolta do julgamento. É um documentário essencial, com uma narrativa clássica de ascensão, apogeu e queda, e uma vitória no Oscar da categoria seria muito merecida.


2) Aquarius, de Kleber Mendonça Filho:

O fato de Aquarius não ter sido escolhido como nosso representante no Oscar (em uma provável retaliação política pelos protestos feitos por Kleber Mendonça Filho e sua equipe em Cannes) é um troço que irrita profundamente, principalmente porque o longa tinha grandes chances de receber uma indicação, algo que seria mais do que merecido. Tendo em seu cerne o embate entre Clara (Sônia Braga) e a construtora liderada por Diego (Humberto Carrão), que quer comprar o apartamento dela a fim de demolir o edifício (o Aquarius do título) e construir outro mais moderno, o filme é um conto poderoso não só sobre a resistência contra o que é errado, mas também sobre a preservação de memórias, representadas aqui por um bem material que ajuda a proporcioná-las, mostrando que nem tudo pode ser comprado (por maior que seja a quantia). E se Kleber Mendonça Filho volta a mostrar o talento que havia exibido em O Som ao Redor, criando uma narrativa envolvente e sabendo divertir e inquietar o espectador quando precisa, Sônia Braga surge numa atuação absolutamente fantástica, marcando a força de Clara em cada frame em que aparece.


1) A Chegada (Arrival), de Denis Villeneuve:

Ao falar sobre a presença de Sicario no Top 10 do ano passado, comentei que colocar um filme de Denis Villeneuve na lista de melhores do ano havia se tornado um clichê. Pois A Chegada não só mantém isso firme como ainda é mais um trabalho do diretor que coloco no topo (O Homem Duplicado encabeçou a lista de 2014). Isso até diz muito sobre a consistência do cineasta, que tem se mostrado cada vez mais fascinante na condução de tramas ambiciosas e inteligentes, conseguindo impor sempre o peso que elas precisam ter. Ao contar a história do primeiro contato entre humanos e alienígenas, focando nos esforços da equipe liderada pela linguista Louise Banks (Amy Adams, naquela que deve ser a melhor atuação de sua carreira até agora) e pelo físico Ian Donnelly (o ótimo Jeremy Renner) para decifrar os símbolos que os visitantes usam para se comunicar, Villeneuve volta a exibir um apuro técnico admirável ao mesmo tempo em que trata com sensibilidade as questões temáticas e emocionais abordadas pelo roteiro. Assim, o filme consegue manter o espectador sempre instigado com o desenvolvimento surpreendente da história e a maneira como organiza suas peças, além de emocionar com a humanidade por trás das decisões dos personagens e dos caminhos que eles veem diante de si próprios. É uma ficção científica fantástica e que faz jus aos melhores filmes do gênero.

Outros 45 filmes que merecem menção honrosa (em ordem alfabética):

A 13ª Emenda (13th), de Ava DuVernay
O Abraço da Serpente (El Abrazo de la Serpiente), de Ciro Guerra
Animais Fantásticos e Onde Habitam (Fantastic Beasts and Where to Find Them), de David Yates
Ave, César! (Hail, Caesar!), de Joel Coen e Ethan Coen
Big Jato, Cláudio Assis
Blue Jay, de Alex Lehmann
Brooklyn, de John Crowley
A Bruxa (The Witch), de Robert Eggers
Caça-Fantasmas (Ghostbusters), de Paul Feig
Capitão América: Guerra Civil (Captain America: Civil War), de Anthony Russo e Joe Russo
Carol, de Todd Haynes
Cegonhas: A História Que Não Te Contaram (Storks), de Nicholas Stoller e Doug Sweetland
Cinco Graças (Mustang), de Deniz Gamze Ergüven
Cinema Novo, de Eryk Rocha
O Convite (The Invitation), de Karyn Kusama
Creed: Nascido Para Lutar (Creed), de Ryan Coogler
Deadpool, de Tim Miller
A Despedida, de Marcelo Galvão
Dois Caras Legais (The Nice Guys), de Shane Black
Elle, de Paul Verhoeven
Elvis & Nixon, de Liza Johnson
Hardcore: Missão Extrema (Hardcore Henry), de Ilya Naishuller
O Homem nas Trevas (Don’t Breathe), de Fede Alvarez
Invasão Zumbi (Busanhaeng), de Yeon Sang-ho
Invocação do Mal 2 (The Conjuring 2), de James Wan
Janis: Little Girl Blue, de Amy Berg
Jogo do Dinheiro (Money Monster), de Jodie Foster
Kubo e as Cordas Mágicas (Kubo and the Two Strings), de Travis Knight
O Lamento (Goksung), de Na Hong-jin
Mogli: O Menino Lobo (The Jungle Book), de Jon Favreau
Para Minha Amada Morta, Aly Muritiba
O Quarto de Jack (Room), de Lenny Abrahamson
O Regresso (The Revenant), de Alejandro González Iñárritu
Rogue One: Uma História Star Wars (Rogue One: A Star Wars Story), de Gareth Edwards
Rua Cloverfield, 10 (10 Cloverfield Lane), de Dan Trachtenberg
Sete Homens e Um Destino (The Magnificent Seven), de Antoine Fuqua
Snoopy & Charlie Brown: Peanuts – O Filme (The Peanuts Movie), de Steve Martino
Snowden: Herói ou Traidor (Snowden), de Oliver Stone
Star Trek: Sem Fronteiras (Star Trek: Beyond), de Justin Lin
Steve Jobs, de Danny Boyle
Truman, de Cesc Gay
Vizinhos 2 (Neighbors 2: Sorority Rising), de Nicholas Stoller
Zoom, de Pedro Morelli
Zootopia: Essa Cidade é o Bicho (Zootopia), de Byron Howard e Rich Moore

E é isso, meus caros. Desejo a todos um Feliz Ano Novo, torcendo desde já para que 2017 seja melhor que 2016.

Um grande abraço!

quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

Rogue One: Uma História Star Wars

A ideia de lançar um filme da franquia Star Wars por ano não deixa de ser uma forma de a Disney recuperar os bilhões que investiu na compra da Lucasfilm, podendo muito bem ser algo puramente caça-níquel para ganhar dinheiro com bilheterias e produtos licenciados. No entanto, uma coisa que o excelente O Despertar da Força provou é que o universo criado por George Lucas ainda é capaz de render novas e interessantes aventuras no cinema. E se uma nova trilogia já foi iniciada, agora é a vez dos longas derivados da série explorarem outros detalhes daquele universo, começando por este Rogue One, prequel ambientada pouco antes de Uma Nova Esperança e que se revela um complemento rico para a trama que vimos há 40 anos.

Escrito por Chris Weitz e Tony Gilroy a partir do argumento de John Knoll e Gary Whitta, Rogue One mostra a Aliança Rebelde recrutando Jyn Erso (Felicity Jones), filha de Galen Erso (Mads Mikkelsen), o cientista que, sob o comando de Orson Krennic (Ben Mendelsohn), ajudou o Império a construir a Estrela da Morte. Ao lado de Cassian Andor (Diego Luna) e do androide K-2SO (Alan Tudyk), Jyn recebe a tarefa de encontrar o rebelde Saw Gerrera (Forest Whitaker), que pode ter uma mensagem importante para a Aliança. Em meio a isso, o trio ganha a companhia do piloto Bodhi Rook (Riz Ahmed) e da dupla Chirrut Îmwe (Donnie Yen) e Baze Malbus (Jiang Wen), que os ajudam em sua luta contra o Império.

Como quase toda prequel, o que se vê aqui é uma história na qual a maioria das pessoas já entra sabendo como irá terminar, e não é à toa que a graça desse tipo de filme (e até de outros que possam ser um tanto previsíveis) não está no ponto em que ele chega ao final, mas sim no caminho que ele percorre até lá. Apesar de o roteiro levar algum tempo para estabelecer o enredo principal, ele ainda é hábil ao fazer com que este novo exemplar surja como uma peça fundamental na trama geral da franquia, principalmente para Uma Nova Esperança, conseguindo apresentar um novo núcleo da guerra intergaláctica que é tão relevante quanto aqueles que acompanhamos nos outros longas. E ao mesmo tempo em que nos deixa curiosos quanto às direções tomadas pela história, Rogue One ainda preenche certas lacunas que enriquecem a narrativa (dessa vez temos até uma explicação convincente e tocante sobre o porquê de a Estrela da Morte convenientemente ter um ponto vulnerável), além de incluir referências e personagens que não soam apenas como uma forma gratuita de agradar os fãs, servindo principalmente para dar mais peso aos eventos que retrata e criar uma continuidade natural e até necessária entre o filme e o restante da saga.

Trazendo um tom que faz jus a “guerra” que faz parte do título da franquia, o diretor Gareth Edwards (do ótimo Monstros e da mais recente e decepcionante versão de Godzilla) comanda uma narrativa que mantém o espectador inquieto durante a maior parte do tempo, com batalhas ocorrendo quando menos se espera. Estas, por sinal, são bem conduzidas pelo diretor, que impõe tensão e intensidade ao caos que se estabelece por ali, sendo que ele também não desvia o olhar dos resultados brutais de tudo isso, sendo possível notar stormtroopers sendo desmembrados em grandes explosões (ainda que isso aconteça da maneira menos gráfica possível para manter a baixa classificação indicativa). Além disso, o cineasta tem a sorte de poder contar com toda a competência técnica que nos acostumamos a ver ao longo da franquia, desde o excepcional trabalho de design de produção que mantém a escala grandiosa daquele universo, como se vê nos conhecidos interiores da Estrela da Morte e na criação dos diversos planetas que surgem na tela, até os brilhantes efeitos visuais, que impressionam tanto nas cenas de ação quanto nas criaturas digitais, causando estranhamento apenas ao resgatar dois personagens humanos conhecidos do público e cuja artificialidade podemos notar constantemente.

Liderando o elenco bastante diversificado que dá vida a personagens com os quais conseguimos nos importar em maior ou menor grau, Felicity Jones cria em Jyn Erso uma figura que não faz feio se comparada a Leia e Rey no que diz respeito às protagonistas femininas fortes da série, exibindo carisma e segurança admiráveis no papel. Já Diego Luna interpreta Cassian Andor como alguém determinado a fazer o que for necessário pela causa que defende, ao passo que o K-2SO de Alan Tudyk surge como um alívio cômico que praticamente rouba a cena com suas ótimas (e por vezes hilárias) observações. E se o excelente Ben Mendelsohn faz de Orson Krennic um vilão que chama atenção por suas ambições com relação ao seu papel diante do Império e seus líderes, Mads Mikkelsen e Forest Whitaker têm participações pequenas, mas marcantes nos papeis de Galen Erso e do extremista Saw Gerrera, respectivamente. Fechando o elenco, atores como Riz Ahmed, Donnie Yen e Jiang Wen têm presenças interessantes, o que compensa um pouco o fato de seus personagens não serem tão desenvolvidos.

Embalado pela ótima trilha de Michael Giacchino, que cria novas e cativantes composições enquanto faz bom uso dos temas originais de John Williams quando preciso, Rogue One surge como um exemplar admirável de Star Wars, conseguindo inclusive enriquecer os outros longas da franquia ao dar a devida importância aos eventos que apresenta. Depois do filme, é inevitável sentir certa vontade de conferir como essa história continua, algo que felizmente já está à nossa disposição há um bom tempo.

Nota:

sexta-feira, 25 de novembro de 2016

A Chegada

A ideia do primeiro contato entre humanos e seres extraterrestres surge com certa frequência no cinema, sendo que em boa parte das vezes ela é usada como ponto de partida para que cineastas deem vida à reflexões sobre a própria natureza humana. É uma premissa obviamente ambiciosa e capaz de render obras fascinantes quando bem realizado. Pois A Chegada se encaixa nisso perfeitamente. Ao focar os esforços dos humanos em se comunicar com os alienígenas, esse novo longa do cada vez mais brilhante Denis Villeneuve mostra como essa nossa habilidade pode de nos levar a evoluir como espécie. Isso, claro, quando queremos.

Escrito por Eric Heisserer a partir do conto “História da Sua Vida”, de Ted Chiang, A Chegada nos coloca diante da linguista Louise Banks (Amy Adams), cuja filha adolescente morreu devido a um câncer. Tendo uma vida solitária e dando aulas em uma universidade, Louise vê sua rotina mudar no momento em que doze cápsulas extraterrestres pousam em diferentes pontos do planeta. É quando ela é chamada pelo coronel Weber (Forest Whitaker) para ir até Montana, onde está uma das cápsulas, recebendo ali a tarefa de liderar, ao lado do físico Ian Donnelly (Jeremy Renner), uma equipe que tem como objetivo traduzir a linguagem dos visitantes e, assim, descobrir qual o propósito deles na Terra.

A partir daí, o roteiro de Heisserer desenvolve com propriedade a temática comunicacional que rege a maior parte da trama, sendo que se o trabalho dos personagens com os alienígenas já se revela difícil por natureza, acaba se tornando ainda mais urgente quando se vê o caos que se espalha pela sociedade ao redor do mundo, resultado do medo que as pessoas têm do desconhecido e também da falta de diálogo, detalhe que desencadeia conflitos que poderiam ser evitados caso a desconfiança não fizesse parte de nossa natureza, impedindo uma maior união entre os envolvidos no evento que acompanhamos. Além disso, é notável a crítica certeira que o filme faz a veículos midiáticos que alimentam o sentimento de pânico com um trabalho nada informativo, indo contra o propósito que deveriam ter, como pode ser visto em pequenos momentos como aquele em que um soldado assiste a fala ignorante de um radialista (certamente inspirado em Rush Limbaugh).

Se nessa parte A Chegada já faz jus à ambição que exibe, o longa ainda tem a sorte de contar com a direção de Denis Villeneuve, já que o cineasta tem se mostrado um especialista em criar narrativas que prendem a atenção do público do início ao fim. Enquanto apresenta um mundo bastante melancólico, cortesia da fotografia acinzentada de Bradford Young e da trilha de Jóhann Jóhannsson, Villeneuve mantém o espectador constantemente instigado quanto às questões levantadas pelo roteiro, algo que melhora principalmente depois de uma excelente reviravolta que faz o filme ir além da comunicação com os alienígenas, trazendo reflexões sobre as decisões que tomamos e no que elas podem resultar. Para completar, o diretor trata com sensibilidade os dramas pessoais de sua protagonista, sendo hábil também na forma como ressalta a urgência do trabalho dela ao lado de Ian, o que rende sequências excepcionais como aquela envolvendo uma ligação telefônica. Aliás, é preciso destacar aqui a excelente montagem de Joe Walker, que dita muito bem a tensão que toma a tela pontualmente e lida perfeitamente com a estrutura do roteiro.

Como se não bastasse, o filme ainda conta com um elenco que encarna seus personagens com uma segurança admirável. Jeremy Renner, por exemplo, faz de Ian um sujeito inteligente e carismático, que pode discordar de ideias que lhes são apresentadas (como ocorre logo em sua primeira cena), mas sem ser uma figura arrogante, tendo algumas de suas crenças desafiadas no decorrer da trama, ao passo que Forest Whitaker surge eficiente ao estabelecer a autoridade representada pelo Coronel Weber. Mas o filme é mesmo de Amy Adams, que tem aqui uma de suas melhores atuações interpretando Louise (e ficarei surpreso caso ela fique de fora da temporada de premiações). Adams cria aqui uma mulher forte e complexa, que leva uma vida vazia (como vemos em sua casa escura e com paredes de vidros), mas que encontra em meio a seu contato com os alienígenas algo capaz de reverter isso, seguindo um arco dramático tocante em seu desenvolvimento.

A Chegada basicamente é um dos melhores tipos de ficção científica, sendo um filme que exibe força para arrebatar o espectador não só com as ideias que apresenta ao longo da trama, mas também com as discussões que promove sobre a humanidade e as direções que planejamos seguir. Sem dúvida estamos falando de uma das grandes obras de 2016.

Nota:

sexta-feira, 18 de novembro de 2016

Animais Fantásticos e Onde Habitam

Ao criar a série Harry Potter, J.K. Rowling nos colocou diante de um universo imaginativo que fascinava com cada um de seus detalhes, sendo um palco tão instigante quanto as aventuras (e posteriormente batalhas) em que seu jovem protagonista se metia ao lado dos amigos. Pois é de volta a este mundo que Animais Fantásticos e Onde Habitam nos leva, cinco anos depois de nos despedirmos de Harry, Rony, Hermione e tantos outros grandes personagens em Harry Potter e as Relíquias da Morte: Parte 2, um final bastante digno para aquela excelente saga. E é interessante ver como esse novo filme é um spin-off/prequel que diverte e encanta com a expansão de um universo com o qual estamos familiarizados, além de apresentar personagens cativantes o suficiente para que fiquemos envolvidos com a trama.

Escrito pela própria J.K. Rowling (em sua estreia como roteirista de cinema) e dirigido por David Yates (que comandou os quatro últimos filmes da franquia e este ano já apareceu nos cinemas com uma nova versão de Tarzan), Animais Fantásticos e Onde Habitam se passa várias décadas antes de Harry Potter bater de frente com Voldemort, mais especificamente em 1926, época na qual outra figura maléfica realiza ataques que podem expor a existência dos bruxos para os trouxas (ou “não-majs”, como dizem os americanos), algo investigado pelo Congresso de Magia dos Estados Unidos (MACUSA) e seu diretor de segurança, Percival Graves (Colin Farrell). Nesse contexto, o magizoologista Newt Scamander (Eddie Redmayne) chega à Nova York com uma série de criaturas na bagagem, perdendo algumas delas em uma confusão com o trouxa Jacob Kowalski (Dan Fogler), e é exatamente da ajuda deste que ele precisará para encontra-las, ao passo que a ex-aurora Tina Goldstein (Katherine Waterston) fica no encalço deles.

O roteiro de J.K. Rowling poderia muito bem render uma narrativa episódica, concentrando-se nos esforços do protagonista e de seu novo amigo para recuperar os animais um por um. No entanto, isso também poderia ser excessivamente simples e repetitivo, sendo bom ver a roteirista entrelaçar naturalmente essa parte do filme com subtramas que aumentam a escala da narrativa sem torna-la inchada. No processo, Rowling expande admiravelmente o universo que criou, de forma que a decisão de situar este novo longa nos Estados Unidos por si só acaba dando frescor à história, já que o mundo dos bruxos visto no país é muito diferente daquilo que conhecemos nos oito capítulos anteriores da franquia, com direito a um grupo extremista antibruxos (a Sociedade Filantrópica Nova Salem) e novos cenários grandiosos. Neste sentido, a sede da MACUSA com seus vários departamentos é um dos destaques visuais que surgem por aqui, num trabalho exemplar do design de produção, que ainda faz uma excelente recriação de época, quesito no qual os figurinos de Colleen Atwood auxiliam perfeitamente, valendo ressaltar também a maneira como eles combinam com as personalidades dos personagens.

Enquanto isso, David Yates volta a mostrar que compreende bem o universo concebido por Rowling, parecendo se divertir sempre que insere elementos que denotam o quão fascinante este é, como uma pequena briga entre bichinhos de papel, uma mesa de jantar se organizando sozinha após um leve aceno de varinha ou a organização interna da maleta de Newt Scamander, elemento que rende uma das melhores sequências do filme ao apresentar os animais que ali estão guardados, sendo que eles se revelam adoráveis em sua maioria, além de ganharem vida convincentemente graças ao ótimo trabalho da equipe de efeitos visuais. Essa sequência na maleta, por sinal, é um dos poucos momentos em que David Yates se permite jogar uma luz mais calorosa na tela, já que na maior parte do tempo ele e o diretor de fotografia Philippe Rousselout apostam em cores frias que ressaltam a tensão dos bruxos quanto aos ataques que ocorrem em Nova York, algo que chega ao ápice em um clímax que, mesmo carregado de efeitos visuais, não esquece de tratar com sensibilidade seus personagens. Mas esse lado mais sombrio da narrativa não impede Yates de criar momentos divertidos, o que ocorre principalmente quando o roteiro se concentra na caça aos animais perdidos, em cenas que apostam muito na inteligência deles e de Newt.

Newt Scamander, aliás, é vivido pelo carismático Eddie Redmayne como um sujeito um tanto tímido e atrapalhado, que por vezes até parece não ter muita noção da coexistência entre o mundo dos bruxos e dos trouxas, como ao perseguir um dos animais em um banco. Mas o que faz o espectador se aproximar mais do personagem é o carinho e o respeito que ele exibe pelas criaturas que resgata, compreendendo-as melhor do que ninguém. Katherine Waterston, por sua vez, faz de Tina uma mulher forte, que não fica na mera posição de interesse amoroso do herói e busca provar seu valor para seus superiores na MACUSA, ao passo que Dan Fogler no papel de Jacob não só funciona na função de alívio cômico como ainda reflete a admiração do público por aquele universo a cada feitiço que presencia, e a relação dele com a adorável Queenie, a irmã de Tina interpretada por Alison Sudol, não demora para conquistar a nossa simpatia. E se Ezra Miller se destaca como o perturbado Credence (mesmo protagonizando uma reviravolta previsível no terceiro ato), Colin Farrell usa seu subestimado talento para tornar Percival Graves uma figura misteriosa e que deixa o espectador constantemente com o pé atrás quanto a suas intenções.

Se a história de Animais Fantásticos e Onde Habitam terá fôlego para preencher cinco filmes (como foi divulgado recentemente) é algo que ainda vamos descobrir. Por ora, a ideia de mostrar que o universo concebido por J.K. Rowling é muito maior do que o que vimos anteriormente se desenvolve em uma aventura eficiente, que sabe explorar o potencial de seu ótimo material e se estabelece como um início promissor para uma nova saga.

Nota:

domingo, 6 de novembro de 2016

Doutor Estranho

Seguindo os mesmos passos de outros filmes de origem da Marvel, principalmente Thor e Guardiões da Galáxia, Doutor Estranho é um trabalho que deixa claro que pretende não apenas apresentar um novo super-herói com o qual o público pode simpatizar, mas também nos colocar diante de um novo canto do universo que o estúdio vem construindo desde que Homem de Ferro foi lançado. Inserindo as artes místicas na jogada, o longa de Scott Derrickson trata de mostrar mais algumas camadas de um mundo já incrivelmente vasto, conseguindo fazer isso ao mesmo tempo em que diverte tanto com a forma como desenvolve seus conceitos quanto com a personalidade de seu protagonista.

Escrito por Jon Spaihts e pelo próprio Scott Derrickson em parceria com C. Robert Cargill, Doutor Estranho é centrado em Stephen Strange (Benedict Cumberbatch), um arrogante, mas excepcional neurocirurgião que se vê sem poder exercer a profissão após sofrer um acidente que causa danos graves a suas mãos. Desesperado e fazendo de tudo para reverter sua situação, Stephen vai ao templo de Kamar-Taj, no Nepal, onde conhece o feiticeiro Mordo (Chiwetel Ejiofor) e a mestra dele, conhecida como a Anciã (Tilda Swinton), figura que expande a mente inicialmente cética do doutor e lhe mostra as possibilidades das artes místicas. Enquanto isso, outro feiticeiro, Kaecilius (Mads Mikkelsen), prova ser uma ameaça para o mundo ao buscar evocar as forças do poderoso Dormammu e sua Dimensão Negra.

Visualmente, Doutor Estranho desponta como um dos exemplares mais interessantes da Marvel, inserindo o protagonista (e consequentemente o espectador) em um daqueles universos narrativos onde o impossível se torna possível. Assim, Scott Derrickson (diretor conhecido por filmes de terror como O Exorcismo de Emily Rose e A Entidade) claramente se diverte ao nos apresentar a uma série de ideias que brincam com as leis da natureza e que tomam a tela amalucadamente, sendo o ápice disso a sequência em que a Anciã joga Stephen em uma viagem astral psicodelicamente insana (aliás, eis aqui um raro momento em que ver um filme em IMAX realmente resultou em uma experiência imersiva um pouco mais forte do que o normal).

Mas não é só por aí que Derrickson busca entreter o público, já que os poderes dos personagens abrem possibilidades curiosas quando o filme parte para a ação. É algo que o cineasta consegue explorar eficientemente, tendo para isso o auxílio do ótimo trabalho da equipe de efeitos visuais, o que resulta em momentos divertidos (a luta espiritual que ocorre em um hospital) e outros que impressionam por sua concepção e escala (o embate em Nova York dentro da Dimensão Espelhada, uma das sequências em que o longa exibe sua inspiração em A Origem), valendo destacar também o ritmo ágil imposto por Derrickson no decorrer da narrativa, aspecto que ajuda a prender a atenção do público sem criar uma confusão visual na tela.

Enquanto isso, o ótimo Benedict Cumberbatch interpreta Stephen Strange com carisma e até mesmo certa irreverência, levando o público a gostar do personagem e se identificar com ele por mais arrogante que se mostre. Na verdade, Stephen pode muito bem ser visto como uma versão alternativa do Tony Stark de Robert Downey Jr., seja por seu jeito de ser (incluindo piadinhas) ou pelo arco dramático que percorre, gradualmente parando de olhar apenas para o próprio umbigo. Já Rachel McAdams pouco pode fazer com Christine Palmer, interesse amoroso do herói e que surge em cena apenas quando o roteiro precisa, ao passo que Chiwetel Ejiofor é um tanto subaproveitado no papel de Mordo, personagem que deve ser melhor explorado futuramente. E se Benedict Wong faz de Wong, mestre que mantém seguros os livros do Kamar-Taj, um sujeito que diverte mesmo sem ter isso como propósito, Mads Mikkelsen não consegue fazer de Kaecilius uma ameaça palpável, ainda que exista no roteiro algum esforço em torna-lo um vilão interessante. Fechando o elenco, Tilda Swinton tem na Anciã um papel que remete diretamente ao do Morpheus de Lawrence Fishburne em Matrix, sendo a personagem alguém cuja sabedoria a estabelece como uma figura de presença grandiosa, detalhe que a atriz encarna com segurança, compensando o fato de a maior parte de seus diálogos serem expositivos para que o protagonista e o público fiquem por dentro daquele universo.

Escorregando em um clímax que resolve facilmente o conflito principal da trama, além de ter a narrativa embalada por uma trilha pouco inspirada do geralmente excelente Michael Giacchino, Doutor Estranho não deixa de apertar os mesmos botões que a Marvel se acostumou a apertar ao contar suas histórias no cinema. Uma fórmula que vem ficando cada vez mais óbvia, mas que mesmo assim é capaz de fazer o filme funcionar bem como entretenimento enquanto se estabelece como uma peça importante dentro da franquia.

Obs.: Como de costume em se tratando da Marvel, há cenas durante e depois dos créditos finais.

Nota:

sexta-feira, 21 de outubro de 2016

O Contador

Concentrando-se na história de um contador autista que, além de ter suas grandes habilidades com números, também é um sujeito letal quando necessário, O Contador não deixa de partir de uma premissa curiosa, que pode ter sido uma tentativa do roteiro de apostar em algo que tenha algum frescor. Como resultado, o novo trabalho de Gavin O’Connor (de obras como Guerreiro e Força Policial) e protagonizado por Ben Affleck é um longa que pode ser considerado como um choque entre Rain Man e a franquia Bourne, mesmo ficando bem abaixo desses filmes em termos de qualidade.

Escrito por Bill Dubuque (um dos responsáveis pelo roteiro do fraco O Juiz, com Robert Downey Jr.), o filme traz Affleck no papel de Christian Wolff, contador que tem figuras perigosas entre seus clientes e que se relaciona com certa dificuldade com outras pessoas, sendo portador da Síndrome de Asperger. Quando recebe a tarefa de identificar um erro nas contas de uma empresa de robótica que perdeu milhões de dólares recentemente, algo percebido pela jovem Dana Cummings (Anna Kendrick), Chris é encurralado à medida que se aproxima de descobrir o que aconteceu, precisando pôr em prática suas habilidades mortais para sobreviver. Enquanto isso, ele é investigado por Ray King (J.K. Simmons), diretor de crimes financeiros do Departamento do Tesouro, e pela analista Marybeth Medina (Cynthia Addai-Robinson), que buscam identifica-lo e prendê-lo por suas atividades ilícitas.

Por mais que a premissa de O Contador chame atenção em sua proposta, um dos pontos que acabam prejudicando o filme é o desejo por parte do roteiro em querer tornar a história um pouco maior e mais complexa do que o necessário. Sendo assim, o longa se estrutura de forma que acompanhamos não só Christian, mas também as subtramas envolvendo outros núcleos narrativos, como a investigação de Ray e Marybeth e os trabalhos de um assassino profissional (vivido por Jon Bernthal), além de pontualmente inserir flashbacks da vida do protagonista. É uma pena, porém, que Gavin O’Connor não consiga dar importância a todos esses elementos e não salte naturalmente de um ponto da história para outro, o que causa sérios problemas de ritmo na narrativa. É um aspecto tão problemático que, em determinado momento, O’Connor chega a parar a trama principal por vários minutos a fim de que algo seja explicado ao público.

No entanto, quando se concentra em seu protagonista, o filme consegue ser envolvente, o que se deve em parte a boa atuação de Ben Affleck, que encarna Christian Wolff de maneira bastante contida e trazendo frieza ao jeito de ser do personagem, que não tem muita noção de convivência, algo feito sem sacrificar sua humanidade. Aliás, a maneira convincente com que Affleck interpreta os modos de Chris até contribui com o senso de humor do filme, como na cena em que faz um breve aceno para um casal logo depois de cometer um ato violento. Quanto às habilidades físicas do personagem, vale dizer que Gavin O’Connor consegue utilizá-las eficientemente para criar sequências de ação ágeis e que injetam um pouco de energia na narrativa (por sinal, é curioso notar como Chris deixa de usar óculos ao ter que agir com socos e pontapés, como se tirasse uma espécie de máscara).

Se Affleck se sai bem, o elenco de coadjuvantes faz o que pode com personagens que não chegam a ser particularmente interessantes. J.K. Simmons usa sua grande presença em cena para estabelecer a autoridade de Ray King, enquanto Anna Kendrick compõe Dana Cummings com o mesmo jeito meio excêntrico que marca boa parte de seus papeis, sendo uma pena que a personagem seja usada de maneira rasteira e óbvia pelo roteiro para evocar o lado emocional do protagonista. Já Jon Bernthal traz sua persona um tanto insana (e que ele carrega por todos os projetos em que se envolve) para o assassino que interpreta, criando um indivíduo que mantém certa irreverência em meio ao trabalho violento, mas chega a ser triste que ele protagonize uma reviravolta que, de tão previsível, nos faz questionar a inteligência dos realizadores.

Apesar de não fazer muitas coisas interessantes e sentir a necessidade de explicar elementos da trama mesmo quando isso não é importante (a revelação nos últimos segundos é exemplo disso), O Contador é um thriller de ação que funciona razoavelmente. E considerando seus problemas, isso não deixa de ser um pouco de sorte tanto da equipe por trás do filme quanto nossa que o assistimos.

Nota: