quarta-feira, 19 de julho de 2017

Transformers: O Último Cavaleiro

Transformers é uma franquia impressionante, mas pelos motivos errados. Apesar de já estar completando dez anos nos cinemas, a única coisa memorável que ela tem conseguido mostrar com seus filmes é a estupidez profunda que os permeia, sendo até ofensivo acompanhar o quanto eles subestimam a inteligência do público, como se este fosse tão estúpido quanto. E o diretor Michael Bay e sua equipe pelo visto sentem prazer em abordar o material dessa forma, trazendo sempre a mesma fórmula. Sendo assim, não é surpresa alguma constatar que este Transformers: O Último Cavaleiro, o quinto exemplar da série, simplesmente é mais do mesmo. Ou seja, uma longa tortura.

Assim como seus antecessores, Transformers 5 já começa jogando no lixo qualquer coerência envolvendo a linha temporal da série, revelando que os robôs alienígenas tiveram participação até nas batalhas da Inglaterra nos anos 400, quando formaram uma aliança com o Rei Arthur, Lancelot e Merlin. Já nos tempos atuais, Cade Yeager (Mark Wahlberg) continua sendo um fiel aliado dos Autobots e, após um confronto no qual passa a ter a ajuda da jovem Izabella (Isabela Moner), se vê em posse de um importante talismã referente àqueles velhos tempos da história, objeto que chama a atenção tanto dos maléficos Decepticons quanto do historiador Edmund Burton (Anthony Hopkins). Enquanto isso, Optimus Prime ainda está em busca de seus criadores, se deparando com Quintessa, entidade que conspira destruir a Terra para restaurar Cybertron, o lar dos Transformers.


O que Transformers 5 apresenta ao longo da projeção é simplesmente ridículo, e o mais triste é que Michael Bay parece não perceber isso ou só não se importa, levando a sério o material que tem em mãos e despejando uma série de idiotices no espectador à medida que avançamos na trama. Isso vai desde as ligações antigas dos Transformers com os humanos (é risível que alguém tenha achado que envolver Merlin e Rei Arthur foi uma boa ideia) até a subtrama romântica óbvia e forçada entre Cade e a professora Viviane Wembly (Laura Haddock), passando por cenas constrangedoras como aquela em que o protagonista é questionado por não fazer sexo há algum tempo.

Aliás, o desenvolvimento da trama (se é que podemos chama-la desse jeito) é uma bagunça tremenda, trazendo diálogos pavorosamente expositivos. Logo no início, por exemplo, temos uma narração que trata de estabelecer os principais pontos que acompanharemos, denotando a preguiça dos roteiristas em apostar num desenrolar mais orgânico (não à toa ela é descartada após cumprir seu papel), ao passo que em outros momentos vemos os personagens falando detalhadamente o que irão fazer. E nem sei o que dizer sobre cenas como aquela em que Merlin está claramente bêbado e diz “Deus! Estou embriagado!”. Além disso, o filme traz vários personagens e núcleos narrativos, mas os desenvolve tropegamente, sendo que alguns (como a participação do Agente Simmons, interpretado por John Turturro) poderiam muito bem ter sido cortados para encurtar o desastre.


Mas talvez eu esteja exigindo muito ao querer que Michael Bay conceba algo minimamente consistente nesses aspectos, já que tudo isso pode ser apenas uma desculpa para que se tenha um palco para as sequências de ação. No entanto, de nada isso adianta quando o cineasta basicamente é o rei de criar um verdadeiro caos visual em cena, com rápidos movimentos de câmera e uma montagem picotada que tornam a ação simplesmente incompreensível e entediante, de forma que é inacreditável que tenham sido necessários seis montadores para as coisas ficarem desse jeito. Para completar, o filme não conta com um único personagem com o qual possamos nos importar, já que todos não passam de figuras unidimensionais que desperdiçam o talento de atores como Mark Wahlberg e Anthony Hopkins. Assim, a narrativa não tem peso algum em meio a suas enormes explosões (marcas registradas de Michael Bay), que no fim são apenas sinais da bomba que o filme realmente é.

Há um momento genuinamente engraçado em Transformers 5, quando Michael Bay usa o Transformer-mordomo de Edmund Burton para fazer uma brincadeira com a trilha do filme. Mas essa rara sacada divertida dura meros segundos, não fazendo com que o resto das duas horas e meia de projeção sejam suportáveis ou passem mais rápido. A verdade é que estamos falando de um longa que só existe por conta de seu apelo comercial, porque como narrativa ele apenas estende uma franquia sofrível, que parece determinada a fazer com que cada um de seus exemplares seja um atentado a arte cinematográfica.

Nota:

quinta-feira, 6 de julho de 2017

Homem-Aranha: De Volta ao Lar

Apresentada em Capitão América: Guerra Civil, a nova versão do Homem-Aranha nos cinemas (a terceira depois daquelas de Tobey Maguire e Andrew Garfield) mostrou ser uma figura divertida e cheia de energia, estabelecendo-se como um elemento de destaque naquele ótimo longa lotado de super-heróis. Diversão, aliás, é a palavra-chave deste Homem-Aranha: De Volta ao Lar, novo filme-solo do personagem e que traz uma narrativa disposta a fazer jus ao que o herói apresentou naquela breve participação, conseguindo ser uma produção que entretém o espectador imensamente durante toda a projeção.

Com um roteiro que passou pelas mãos de três duplas de roteiristas, Homem-Aranha: De Volta ao Lar retoma a história do jovem Peter Parker (Tom Holland) alguns meses depois de ele ter se metido na briga que os Vingadores tiveram entre si, tentando lidar tanto com sua vida escolar e pessoal quanto com a vida de herói. Nisso, ele se esforça ao máximo para provar seu valor a Tony Stark (Robert Downey Jr.), que o mantém sob sua supervisão. É então que Peter se depara com a ameaça de Adrian Toomes (Michael Keaton), também conhecido como Abutre, que ao lado de sua gangue tem usado utensílios alienígenas da Batalha de Nova York (vista no primeiro Os Vingadores) para cometer crimes.


Assim é colocado nos trilhos um filme que desde o início busca explorar as melhores qualidades de seu protagonista, desde seu senso de humor até sua empolgação juvenil, detalhes que já se estabelecem logo no começo quando vemos um breve documentário que o próprio personagem realizou com seu celular, trazendo sua visão dos acontecimentos em Guerra Civil de maneira muito divertida. E enquanto esses elementos são bem utilizados para criar uma narrativa leve e que rende vários risos, o diretor Jon Watts não esquece de desenvolver a humanidade de Peter Parker, mostrando que ele é um adolescente que está passando por questões comuns do período (seja a vida escolar e seus compromissos ou até o interesse amoroso não correspondido), sendo difícil não notar também a atenção dada a própria humildade do rapaz, que ainda anda de ônibus, frequenta a lojinha da esquina e mora em um apartamento pequeno com sua tia May (Marisa Tomei), figura que ele se esforça para não preocupar. São detalhes pequenos, mas que ajudam o espectador a se aproximar do personagem, além de diferencia-lo bastante da maior parte dos outros heróis do universo do qual faz  parte.


No entanto, se por um lado Jon Watts acerta em cheio no tom da narrativa, na energia que a permeia e no próprio timing das piadas que vão surgindo ao longo do caminho, por outro ele não chega a conduzir cenas de ação particularmente empolgantes. É indubitavelmente divertido ver o Homem-Aranha em ação e Watts até se esforça para criar grandes momentos nesse aspecto (a sequência do elevador em Washington e a outra envolvendo uma barca são as principais), mas é um pouco decepcionante que o diretor aposte na cartilha da montagem picotada e dos rápidos movimentos de câmera, de forma que o resultado na tela acaba sendo confuso, principalmente quando as cenas são situadas à noite, já que a escuridão se torna mais um obstáculo para a compreensão do que está acontecendo. E se digo isso tendo assistido a cópia 2D do filme, imagino que a 3D piore tudo. Por sorte isso não chega a prejudicar gravemente a narrativa, que ainda consegue manter o espectador envolvido com a história e seus personagens durante a maior parte do tempo.


Falando nos personagens, vale dizer que o elenco talentoso faz um belo trabalho com eles. A começar por Tom Holland, que encarna Peter Parker com um carisma impressionante ao mesmo tempo em que mostra como o rapaz simplesmente adora ser o Homem-Aranha, encarando com gosto qualquer tipo de altruísmo que possa exercer, por mais que ainda tenha muito a aprender. O ator também tem uma ótima dinâmica tanto com o expressivo Jacob Batalon (que interpreta Ned, o melhor amigo de Peter) quanto com Jon Favreau (de volta ao papel de Happy Hogan dos longas do Homem de Ferro) e Robert Downey Jr. Este último, por sinal, nunca tenta roubar o filme para si com suas pontuais aparições (que em determinados momentos são verdadeiros deus ex machina). Aqui, Tony Stark assume um natural papel de mentor, mostrando-se genuinamente preocupado em fazer de Peter um super-herói melhor que ele. E se Marisa Tomei tem uma presença simpática e vivaz como a tia May, apesar de não ter muito espaço para desenvolvê-la (tomara que isso seja corrigido futuramente), Michael Keaton cria em Adrian Toomes um vilão que já se coloca entre os melhores desse universo da Marvel, se destacando não tanto pela ameaça que representa, mas sim por ter motivações plenamente compreensíveis e surpreendentemente dignas, revelando-se um indivíduo que se revolta por ver os poderosos sempre jogando os menos afortunados para baixo e que quer cuidar de sua família de qualquer jeito.

Este novo Homem-Aranha dos cinemas encanta o público com certa facilidade. Até por isso é bom vê-lo render um filme eficiente como este Homem-Aranha: De Volta ao Lar, que aproveita admiravelmente o potencial do personagem que tem em mãos e já nos deixa curiosos quanto a suas futuras aventuras.

Obs.: Há cenas durante e depois dos créditos finais.

Nota:

segunda-feira, 19 de junho de 2017

Ao Cair da Noite

É raro um filme terminar deixando o espectador com uma sensação de ter carregado um grande peso nos ombros durante toda a projeção, mas foi assim que saí de Ao Cair da Noite, segundo longa-metragem de Trey Edward Shults (o mesmo do ótimo Krisha, de 2015). Ao longo de sua uma hora e meia de duração, este terror traz uma atmosfera de tensão incrivelmente densa e angustiante, de forma que podemos até sentir algum alívio quando os créditos finais começam a rolar, nos livrando gradualmente desse peso. Tudo isso é o resultado perfeito de uma narrativa que explora com inteligência o lado sombrio de seus personagens, o que ocorre sem perder de vista a humanidade deles.

Escrito pelo próprio Trey Edward Shults, Ao Cair da Noite nos coloca diante de um mundo com claros tons pós-apocalípticos, no qual uma doença fatal está afligindo as pessoas, liquidando-as uma a uma. É nesse contexto que conhecemos Paul (Joel Edgerton), sua esposa Sarah (Carmen Ejogo) e o filho deles, Travis (Kelvin Harrison Jr.), família que vive praticamente isolada em sua casa e faz o possível para se proteger de quaisquer ameaças. É então que eles se deparam com Will (Christopher Abbott), que lhes pede para ajudar a ele e sua família. Mas apesar de eles entrarem em um acordo com relação a isso, as atuais circunstâncias ainda mantém uma constante inquietação entre todos.

Como o mundo entrou nesse estado trágico em que somos inseridos nunca fica claro, assim como não temos grandes explicações sobre a doença e como exatamente ela é transmitida, se pelo ar ou por contato físico. Mas essas questões não chegam a ser um problema, já que as informações apresentadas são o suficiente para colocar a narrativa nos trilhos dentro daquilo que Trey Edward Shults deseja fazer. E isso se resume basicamente a desenvolver os personagens e as relações entre eles naquele universo para que, a partir desses elementos, ele possa extrair a maior tensão possível.


Nisso, é fascinante ver o cineasta evitar caminhos simplistas para conceber aquele universo e os personagens. Desde o início, Shults deixa claro que todos ali são figuras desesperadas, e é exatamente por isso que as coisas acabam se revelando complexas ao longo da história. Por um lado, compreendemos como eles ficam felizes e mais tranquilos quando encontram um grupo de pessoas que podem ajuda-los em meio a toda dificuldade que vivem. Mas por outro, não deixamos de notar certa amargura nisso tudo, porque as circunstâncias fazem cada um defender seus interesses, impedindo que uma relação de confiança se crie por ali, de forma que qualquer passo em falso feito por parte de alguém deixa a atmosfera imediatamente mais pesada.


O ambiente inóspito do filme, aliás, é construído admiravelmente por Trey Edward Shults, sendo que para isso ele conta com o auxílio da ótima fotografia de Drew Daniels. Enquanto as cenas externas são pintadas com tons acinzentados, as internas situadas na casa de Paul e sua família são predominantemente escuras, geralmente trazendo apenas uma luminária como fonte de iluminação, detalhes que contribuem para estabelecer uma atmosfera que consegue ser melancólica ao mesmo tempo em que é extremamente opressiva e claustrofóbica. Além do mais, isso também não deixa de estabelecer o próprio estado de espírito dos personagens, que já pararam de agir de acordo com o que é certo há muito tempo, dando mais atenção para aquilo que é necessário para sobreviverem, o que consequentemente faz eles abraçarem o que há de mais condenável em si mesmos. E Shults sabe aproveitar esses pontos para criar momentos de pura tensão, como o primeiro encontro entre Paul e Will ou toda a sequência do terceiro ato, sendo que essa tensão ainda é realçada sutilmente pela trilha de Brian McOmber.

Contando também um elenco talentoso que cria personagens multidimensionais com os quais nos importamos (o cada vez mais admirável Joel Edgerton, em especial, impressiona com a intensidade que traz a Paul), Ao Cair da Noite é um exercício de gênero fabuloso e que consegue extrair o melhor de sua premissa do início ao fim. Trey Edward Shults inclusive encerra o longa com aquele que é desde já um dos planos mais desoladores que o cinema produzirá este ano. Um final digno de um grande filme, sem dúvida.

Nota:

sábado, 10 de junho de 2017

A Múmia

Universos compartilhados parecem ter virado moda como modelo de produção para os estúdios, algo até natural considerando os altos números de bilheteria que tem rendido. Depois de termos um universo focado em heróis da Marvel, outro nos heróis da DC Comics e outro com Godzilla e King Kong, agora é a vez de figuras clássicas como Drácula, Monstro de Frankenstein e Lobisomem ganharem seu próprio mundo particular, projeto que dá seu ponta pé inicial nesta nova versão de A Múmia dirigida por Alex Kurtzman, em sua segunda empreitada na função após fazer seu nome como roteirista ao lado de Roberto Orci. No entanto, nem mesmo Tom Cruise consegue tornar animador este início da nova franquia.

Escrito por uma galeria de roteiristas (a versão final do roteiro é creditada a David Koepp, Christopher McQuarrie e Dylan Kussman, enquanto que o argumento foi concebido por Kurtzman, Jon Spaihts e Jenny Lumet), A Múmia nos apresenta a Nick Morton (Cruise), soldado que constantemente corre atrás de valiosas relíquias, tarefa na qual tem o auxílio do sargento Chris Vail (Jake Johnson). Ao lado da arqueóloga Jenny Halsey (Annabelle Wallis), a dupla encontra a tumba da princesa Ahmanet (Sofia Boutella), que foi mumificada e enterrada viva milhares de anos antes. Mas quando ela acorda destruindo tudo o que encontra pelo caminho e tendo um interesse particular por Nick, nem ele nem a Prodigium, organização especializada em estudar e combater o mal e que é liderada pelo Dr. Henry Jekyll (Russell Crowe), parecem ser capazes de para-la.


Reencarnações, vilã que suga outras pessoas para recuperar sua forma física, exército de mortos-vivos perseguindo os mocinhos, casal que se odeia inicialmente, mas gradualmente cria sentimentos um pelo outro. É praticamente impossível assistir a este A Múmia sem sentir que o roteiro aposta em clichês que já vimos em outras produções, sejam estas focadas no monstro do título ou não. Mas esse, na verdade, mostra ser o menor dos problemas do filme, já que ele pega cada um de seus pontos e os conecta com uma trama que não poderia ser mais desinteressante, sendo que o roteiro ainda a desenvolve de maneira bem expositiva para o espectador (como na sequência inicial em que Henry Jekyll conta a história de Ahmanet ou nas pontuais aparições de Vail) e trazendo ideias que beiram o ridículo, como as visões que Nick tem ao longo da projeção.

Enquanto isso, as cenas de ação são conduzidas de maneira burocrática por Alex Kurtzman, rendendo uma série de momentos esquecíveis e que tornam difícil para o diretor envolver o público. Nem a principal sequência do filme, que ocorre com cerca de vinte minutos e é a única que exibe algum esforço criativo ao focar a queda de um avião, consegue impressionar. Ao mesmo tempo, o longa exibe um senso de humor que lembra um pouco o tom da trilogia meia-boca estrelada por Brendan Fraser entre 1999 e 2008 (e que inclusive é referenciada em determinado momento), mas é um aspecto que acaba soando excessivamente bobo e forçado, com direito a uma cena em que devemos rir por Nick sentir cócegas.


Mas o que mais decepciona em A Múmia certamente é seu grande astro. Já comentei em algumas ocasiões o quanto admiro Tom Cruise como ator, mas aqui é profundamente frustrante vê-lo em cena sem fazer esforço para criar um personagem. Seu Nick Morton nada mais é do que uma versão genérica e insossa de heróis de ação que o ator interpretou ao longo da carreira, não tendo nem um terço da intensidade e (o que mais espanta) do carisma que sempre marcaram os trabalhos dele. Já Annabelle Wallis surge inexpressiva como Jenny Halsey, sendo que sua química com Cruise praticamente inexiste, ao passo que Jake Johnson se revela particularmente irritante como Vail, cumprindo pobremente a função de alivio cômico do projeto. E se Sofia Boutella não consegue fazer de Ahmanet uma vilã ameaçadora, Russell Crowe não tem muitas chances para tornar seu Henry Jekyll uma figura interessante, servindo apenas para apontar que o universo do filme é maior do que o que é apresentado aqui, o que só deve ser explorado futuramente nos outros exemplares da franquia.

Espera-se que A Múmia não seja uma amostra do que serão os filmes deste novo universo de monstros. Caso contrário, acompanhar cada um deles promete ser uma experiência cinematográfica triste.

Nota:

quinta-feira, 1 de junho de 2017

Mulher-Maravilha

O histórico de adaptações cinematográficas baseadas em super-heroínas dos quadrinhos é deprimente. Além de elas terem recebido poucas chances como protagonistas ao longo dos anos, principalmente se compararmos com o número de filmes focados nas contrapartes masculinas, tais chances ainda resultaram em verdadeiros desastres, resumindo-se a trinca Supergirl (aquele lançado em 1984), Mulher-Gato e Elektra. Levando isso em consideração, chega a ser um alívio ver esse primeiro filme da Mulher-Maravilha, uma das principais heroínas da DC Comics e que aqui ganha uma bela aventura pelas mãos da talentosa diretora Patty Jenkins, que finalmente faz seu segundo longa-metragem, quatorze anos após sua estreia no ótimo Monster: Desejo Assassino.

Situado praticamente um século antes da breve aparição da protagonista, Diana (Gal Gadot), em Batman vs. Superman, o filme mostra as origens dela como guerreira amazona na ilha de Temiscira e o auxílio que ela decide dar ao espião americano Steve Trevor (Chris Pine) na Primeira Guerra Mundial, depois que o avião do sujeito cai acidentalmente em seu lar. No conflito, Diana pretende destruir Ares, Deus da Guerra e figura que ela acredita estar por trás de toda a destruição que está acontecendo entre os humanos.

Assim como O Homem de Aço, Mulher-Maravilha não tem como um de seus principais focos construir um universo cinematográfico dos heróis da DC Comics, como ocorreu às pressas em meio a bagunça de Batman vs. Superman e teve continuidade ainda pior em Esquadrão Suicida. Sim, há pequenas referências que ligam o filme aos seus antecessores (a principal delas inclusive aparece logo de cara), mas o roteiro escrito por Alan Heinberg, a partir do argumento concebido por ele, Jason Fuchs e Zack Snyder, prefere seguir um caminho mais simples e objetivo, contando a história que tem em mãos e explorando no processo as possibilidades que esta abre. Afinal, além de ter uma super-heroína no centro da narrativa, o filme ainda a situa em um contexto histórico obviamente conservador em 1918, com lugares unanimemente sendo preenchidos por homens enquanto as mulheres ficam submissas a eles, não assumindo posições de destaque (o que lamentavelmente ainda ocorre bastante em pleno 2017). Nisso, o fato de Diana vir de um mundo completamente diferente, habitado e regido por mulheres, e ser uma espécie de peixe fora d’água no mundo dos humanos possibilita que o filme toque com naturalidade nessa desigualdade, seja em um pequeno comentário que a personagem faz sobre o trabalho de secretária ou no silêncio que ela causa com sua mera presença em uma sala cheia de militares.


Aliás, ver Diana se impor diante dos homens ao seu redor é uma das melhores coisas do filme, de forma que ela constantemente puxa para si a responsabilidade que outros não querem ou preferem não assumir em determinadas situações. Nesse sentido, uma das melhores sequências do filme é exatamente o confronto em um vilarejo no qual ela surge no front de batalha como uma líder nata, sendo seguida por Steve Trevor e sua equipe formada por Sameer (Saïd Taghmaoui), Charlie (Ewen Bremmer) e o Chefe (Eugene Brave Rock). E já que falei em confronto, vale ressaltar que as cenas de ação são conduzidas com uma segurança admirável por Patty Jenkins, que mantém a geografia delas sempre clara para o espectador ao mesmo tempo em que impõe um ritmo ágil e envolvente, algo que não se perde nem diante do uso excessivo do slow motion, que aqui até funciona para ressaltar as habilidades da protagonista e outros detalhes das batalhas. Além disso, com o auxilio do excelente design de produção de Aline Bonetto, a diretora concebe maravilhosamente a grandiosidade da ilha de Temiscira e a recriação de época do nosso mundo em 1918, também sendo notável em meio a isso a ótima fotografia de Matthew Jensen, que cria um contraste apropriado entre os dois ambientes, com o primeiro surgindo em cena de maneira calorosa, ressaltando a natureza cheia de humanidade das amazonas, enquanto que o segundo é coberto de tons sombrios condizentes com a guerra.


Depois de ter uma participação pequena demais para dizer a que veio em Batman vs. Superman, Gal Gadot obviamente tem aqui a chance de realmente se destacar, exibindo grande carisma no papel de Diana e encarnando com personalidade a força da personagem e a indignação dela diante da natureza autodestrutiva dos humanos, tornando-a uma super-heroína que rapidamente conquista a simpatia do espectador. A atriz ainda tem uma bela dinâmica com o igualmente carismático Chris Pine, cujo Steve Trevor se estabelece como o óbvio interesse amoroso da protagonista, mas sendo também um elo emocional importante para fortalecer a visão otimista que ela tem da humanidade. E se Robin Wright e Connie Nielsen se destacam mesmo com pouco tempo de tela, fazendo de Antíope e Hipólita (tia e mãe de Diana, respectivamente) personagens fortes e de autoridade inquestionável em Temiscira, o mesmo não se aplica a David Thewlis e Danny Huston, que têm papeis meio subdesenvolvidos como Sir Patrick Morgan e o vilão Erich Ludendorff.

Apesar de decepcionar um pouco em sua batalha final, que tenta se sustentar mais na grande escala dos efeitos visuais do que em qualquer outra coisa, Mulher-Maravilha consegue se estabelecer como um exemplar bastante consistente entre os filmes de super-heróis, o que é importante especialmente em tempos em que a falta de representatividade vem sendo cada vez mais questionada. Assim, o filme é um sopro de ar fresco para os projetos focados em super-heroínas dos quadrinhos e uma boa companhia a outras superproduções protagonizadas por mulheres (como O Despertar da Força, Caça-Fantasmas e Rogue One). Perto disso, ser o acerto que o universo cinematográfico da DC Comics estava precisando é um bônus.


Nota:

sábado, 27 de maio de 2017

Piratas do Caribe: A Vingança de Salazar

Depois de uma trilogia consistente, que se desenrolou de maneira divertida e cada vez mais grandiosa até sua satisfatória conclusão, foi frustrante ver Piratas do Caribe escorregar em seu quarto capítulo, Navegando em Águas Misteriosas, que se revelou decepcionante e totalmente descartável. Mas mais frustrante que isso é ver o mesmo erro ser cometido novamente. É o que ocorre neste quinto filme, A Vingança de Salazar, que nunca justifica a própria existência.

Escrito por Jeff Nathanson a partir do argumento concebido por ele e Terry Rossio (que roteirizou os exemplares anteriores em parceria com Ted Elliot), Piratas do Caribe: A Vingança de Salazar começa nos apresentando ao jovem Henry Turner (Brenton Thwaites), filho de Will Turner e Elizabeth Swann (Orlando Bloom e Keira Knightley, respectivamente) e que quer livrar o pai da maldição do Holandês Voador, navio do qual ele virou capitão ao final do terceiro filme. Para isso, Henry sai em busca do Tridente de Poseidon com a ajuda da astrônoma Carina Smyth (Kaya Scodelario) e do velho conhecido de seus pais, Jack Sparrow (Johnny Depp), cuja morte agora é desejada pelo capitão fantasma Armando Salazar (Javier Bardem), que passa a persegui-lo pelos mares com sua tripulação igualmente amaldiçoada.

Não demora muito para que possamos perceber que este novo exemplar tenta resgatar o espírito dos três primeiros filmes. No entanto, é uma pena que ele faça isso reciclando preguiçosamente uma série de elementos que já vimos antes, de forma que no fim ele acaba soando como uma cópia piorada do que a franquia construiu inicialmente. Temos o vilão amaldiçoado junto com sua tripulação, o filho que quer libertar o pai de uma maldição, o casal de jovens que guardam pra si os sentimentos que têm um pelo outro, a bússola de Jack Sparrow tendo papel importante... Quer dizer, ao que parece não há mais para onde ir ou o que inventar por aqui, com os diretores Joaquim Rønning e Espen Sandberg (os mesmos do bom Operação Kon-Tiki) não tendo chances de trazer coisas novas e expandir o que conhecíamos sobre esse universo. E considerando essa repetição, é até inevitável que alguns pontos da trama se tornem previsíveis.


Não que A Vingança de Salazar não tenha bons momentos. O plano que traz o Pérola Negra dentro de uma garrafa (onde está desde o filme anterior) sendo alinhado com o mar tem sua beleza, ao passo que a participação de um músico famoso se destaca mesmo durando alguns segundos. Da mesma forma, a sequência em que Jack Sparrow quase tem sua cabeça cortada na guilhotina é o tipo de absurdo que tornou a franquia divertida. Mas tudo isso ainda é pouco considerando que a narrativa construída por Rønning e Sandberg se mostra insossa no restante do tempo, com a dupla concebendo cenas de ação que não divertem tanto quanto deveriam (como o roubo ao banco logo no início ou a sequência com os tubarões-fantasma), além de perder tempo com coisas que pouco acrescentam a trama ou são absolutamente descartáveis (o casamento que surge em certo ponto não poderia ser mais constrangedor).

Enquanto isso, Johnny Depp volta ao icônico papel de Jack Sparrow não tendo muita chance de desenvolver um pouco mais o personagem, que ele já interpreta no piloto automático com seus maneirismos. Já seus jovens companheiros de cena, Brenton Thwaites e Kaya Scodelario, até se esforçam como Henry Turner e Carina Smyth, mas não têm uma presença tão cativante ou uma boa dinâmica com Depp, ao contrário daquela que o astro tinha com Orlando Bloom e Keira Knightley. E se Geoffrey Rush até consegue adicionar novas camadas a Barbossa, retornando confortavelmente ao papel e chegando a protagonizar aquele que é o momento mais belo do filme, Javier Bardem pouco pode fazer com Salazar, um vilão que chama atenção visualmente, mas não tem nada de realmente interessante além disso, empalidecendo principalmente quando comparado ao Barbossa do primeiro filme ou ao Davy Jones dos filmes posteriores.

O máximo que A Vingança de Salazar consegue fazer é esticar a série Piratas do Caribe sem exibir qualquer força criativa, apenas tentando aproveitar a nome da marca e contar os milhões de bilheteria que ele ainda é capaz de render. Algo que aparentemente não encontrará um fim tão cedo.

Obs.: Há uma cena após os créditos finais.


Nota:

terça-feira, 23 de maio de 2017

O Retorno de Twin Peaks


(Obs.: Texto referente aos dois primeiros episódios da nova temporada. Ao contrário das críticas habituais aqui do blog, ele contém alguns SPOILERS. Estão avisados.)

Quando séries de TV são canceladas precocemente, o sentimento de decepção é mais do que natural. Mas acho que é seguro dizer que poucas vezes a decepção foi tão grande quanto a proporcionada pelo cancelamento de Twin Peaks em 1991. Famosa por criar um dos maiores mistérios da TV americana (“Quem matou Laura Palmer?”), a série criada por David Lynch e Mark Frost apresentava um universo que fascinava com sua atipicidade, uma hora parecendo algo calcado na realidade apenas para depois passar a exibir toques oníricos, surreais e sobrenaturais, ao mesmo tempo em que nos colocava diante de uma galeria incomum de personagens, que nos guiavam por uma narrativa ambiciosa e inteligente, evitando caminhos fáceis. Seu ciclo na televisão se encerrou com um cliffhanger de deixar os cabelos em pé e que nunca viu uma resolução, o que não poderia ser mais frustrante em se tratando de uma produção como essa, que influenciou várias outras obras televisivas desde então.

Por tudo isso, é difícil não abrir um sorriso ao ver a série receber uma nova chance para explorar seu material e, no processo, instigar o espectador com o que mostra na tela, o que finalmente ocorre nesta nova temporada produzida pelo canal Showtime e cuja exibição no Brasil ficou a cargo da Netflix. E é ainda melhor que isso acontece mantendo o espírito original da série.

Mesmo que já faça 25 anos desde que o universo de Twin Peaks foi visitado pela última vez (o cancelamento foi em 1991, mas David Lynch lançou o filme Os Últimos Dias de Laura Palmer em 1992) e o público provavelmente esteja com saudades de tudo que a série proporcionou, esse retorno não começa querendo acatar desejos nostálgicos de revisitar logo de cara tudo o que conhecemos anteriormente. Sim, reencontramos alguns personagens e voltamos a locais famosos como a delegacia e o Great Northern Hotel, mas ainda são poucas coisas perto de tudo que já faz parte da mitologia da produção. Ao invés de se focar nisso, Lynch prefere já enfiar o pé na porta e apresentar gradualmente peças novas e antigas que devem mover a trama da vez (novamente aviso: se não quiser saber detalhes dessa nova temporada, retorne a este texto após assistir aos dois episódios), mostrando que o agente do FBI Dale Cooper (Kyle MacLachlan) passou todos esses anos preso na Black Lodge, onde ficou ao final da 2ª temporada. Enquanto isso, seu doppelgänger (ou réplica) do mal faz serviços sujos com pessoas igualmente mal encaradas, ao passo que uma estranha caixa de vidro é vigiada em Nova York e a polícia de South Dakota começa a investigar o assassinato brutal de uma bibliotecária.


David Lynch e Mark Frost podem até reabrir as portas para aquele mesmo universo que criaram, mas nunca este se mostrou tão estranho, o que se deve principalmente à atmosfera imposta por Lynch nos episódios (toda a temporada foi comandada por ele, diga-se de passagem). O que encontramos aqui é um mundo que se aproxima bastante de um pesadelo, até lembrando Cidade dos Sonhos e Império dos Sonhos, os últimos longas que Lynch dirigiu. Sendo assim, os dois episódios iniciais dessa temporada se revelam inquietantes e passam uma constante sensação de desconforto, que cresce em determinados momentos graças ao talento do diretor para criar imagens assustadoras, como o ataque sofrido por um casal, o espírito visto em uma cela de prisão ou o corpo da bibliotecária sendo encontrado pela polícia. E se as imagens em si já deixam o público com os olhos arregalados, a excelente trilha de Angelo Badalamenti trata de ressaltar a tensão ainda mais. Não que o humor da série esteja ausente, pois retorna pontualmente com suas excentricidades e provando que ainda é capaz de divertir, como quando Lucy (Kimmy Robertson) recepciona um agente de seguros ou as cenas com a vizinha da bibliotecária, ainda que esta acabe esticando momentos que poderiam ser mais objetivos. Mas ao menos nesse início trata-se de um detalhe que fica um pouco de lado diante dos outros elementos.

Apresentando questões que são capazes de deixar o público zonzo de tão perdido enquanto se pergunta o que diabos está acontecendo, algo que provavelmente renderá discussões e teorias até a chegada do novo episódio na semana seguinte (o que é a caixa de vidro? E as pistas mencionadas pelo Gigante? Como Dale escapará da Black Lodge? Que viagem foi aquela do personagem pela caixa?), esse início de Twin Peaks aponta que a nova jornada não será um quebra-cabeça de fácil resolução. Mas o que ela traz por enquanto já nos deixa intrigados pelo que vem por aí. Basicamente, a série voltou sendo aquilo que costumava ser. E se a placa na entrada da cidade-título nos dá boas-vindas àquele universo, não custa nada devolver a gentileza: Bem-vinda de volta, Twin Peaks!

quinta-feira, 18 de maio de 2017

Corra!

Quando nos acostumamos com um determinado estilo de um artista, é uma surpresa quando este resolve seguir uma nova direção. Isso pode ser aplicado a Jordan Peele. Mesmo sendo mais conhecido por seus trabalhos na comédia, onde até tem uma parceria com Keegan-Michael Key que recentemente rendeu no cinema o divertido Keanu, Peele estreia como diretor com este Corra!, terror no qual exibe uma segurança admirável na construção da narrativa, ao mesmo tempo em que mostra um pouco de sua veia cômica e traz comentários sociais interessantes, quesitos que certamente lhe são caros.

Escrito pelo próprio Jordan Peele, Corra! tem uma premissa bem simples, focando o jovem fotógrafo Chris (Daniel Kaluuya), que faz uma viagem com sua namorada Rose (Allison Williams) a fim de conhecer a família dela, que inclui os pais, Dean e Missy (Bradley Whitford e Catherine Keener, respectivamente), e o irmão, Jeremy (Caleb Landry Jones). Isso ganha tons receosos por conta de ele ser negro, ao contrário deles. Tal receio aumenta à medida que Chris percebe algo um tanto errado com os empregados negros da casa, passando a desconfiar que a família talvez não seja o que parece.

Trata-se de uma história que não deixa de beber um pouco de uma fórmula já utilizada em vários outros longas, como o clássico Janela Indiscreta, O Suspeito da Rua Arlington e Paranoia, que também trazem protagonistas que desconfiam da natureza de pessoas ao seu redor. E parte da graça desses filmes é exatamente ver o suspense se construindo a partir da pulga atrás da orelha que assombra os personagens, aspecto que Jordan Peele repete eficientemente em Corra!, não nos dando certeza absoluta de que existe realmente uma ameaça (ao menos durante boa parte do tempo) e usando essa interrogação para manter o protagonista e, consequentemente, o espectador inquietos. Nisso, o diretor não só desenvolve uma tensão gradual e constante na narrativa, mas também cria momentos extremamente angustiantes, merecendo destaque a cena em que Chris é hipnotizado (o som da colher na xícara de chá é difícil de esquecer após sair do cinema).
Para completar, Peele consegue fazer com que a estranheza sentida por Chris funcione também para mostrar o próprio desconforto dele na situação em que se encontra. Afinal, por mais que os pais de Rose busquem passar um ar de tranquilidade a ele, o rapaz ainda é o único negro que não é um empregado subalterno na casa daquela família branca e rica. Essa questão racial, por sinal, é algo que Peele trata através de breves e pontuais comentários, fazendo um retrato interessante do famoso racismo velado, com o fato de os brancos dizerem coisas como “Eu votaria no Obama pela terceira vez se fosse possível” servindo como tentativas de esconder ou até mesmo negar isso.

Muito bem estruturado ao ter calma para apresentar detalhes que terão papel importante mais adiante, além de levar o espectador ao riso para aliviar um pouco a tensão, ainda que de um jeito mais escrachado (destaque para uma divertida cena na delegacia), Corra! nos coloca diante de um diretor que mostra saber exatamente o que está fazendo. No processo, o filme se revela um exercício de gênero bastante competente e que já se coloca entre as boas surpresas do ano.


Nota:

quinta-feira, 11 de maio de 2017

Alien: Covenant

Sexto exemplar da série Alien (oitavo se formos incluir os dois Alien vs. Predador, o que não acho muito necessário), Alien: Covenant não demora muito para mostrar que pretende seguir os passos de seu antecessor, o mediano Prometheus. Aqui, Ridley Scott volta a fazer um filme que traz reflexões existenciais e filosóficas enquanto desenvolve a velha correria tensa da franquia, podendo agora voltar a utilizar o Alien em si (ou xenomorfo, caso o identifiquemos pela espécie). No entanto, enquanto Prometheus se mostrou raso em suas discussões e até mesmo bobo em termos de tensão, este novo exemplar traz esses problemas com mais força.

Escrito pelo experiente John Logan e pelo estreante Dante Harper a partir do argumento de Jack Paglen e Michael Green, Alien: Covenant nos apresenta aos membros da tripulação da nave que dá subtítulo ao filme. A missão deles é encontrar um planeta que possa ser colonizado (praticamente o mesmo ponto do recente – e péssimo – Passageiros), algo que encontra problemas depois que um sério acidente faz todos acordarem de seu sono induzido antes do fim da viagem (novamente lembrando Passageiros). É quando eles decidem checar um planeta mais próximo para ver se seu objetivo pode ser realizado por ali. Mas é claro que as coisas não saem como planejado e o grupo logo se vê tendo que lutar pela sobrevivência, enfrentando várias espécies de Aliens que se criam naquele ambiente hostil.

Se a ideia era dar continuidade a Prometheus, o filme meio que já encontra problemas em seu desenvolvimento. Tendo àquela produção deixado uma série de coisas mal resolvidas, de forma que o gancho no final colocava Elizabeth Shaw (Noomi Rapace, que aqui surge só em fotos) prometendo dar seguimento à sua missão ao lado de David (Michael Fassbender, o único a realmente retornar do longa anterior), Alien: Covenant teoricamente deveria seguir as ideias apresentadas por lá, podendo até dar a elas o aprofundamento que não haviam tido. Mas apesar de se lembrar disso pontualmente, como logo no início ao trazer um flashback focado na relação entre David e seu criador, Peter Weyland (uma breve participação de Guy Pearce), o roteiro ainda se mantém superficial ao falar sobre nossas origens, além de preferir misturar tais questões com uma nova discussão, pondo em cheque o merecimento dos humanos de se reproduzirem em outro planeta tendo em vista nossa natureza destrutiva.


São ideias que no papel não deixam de soar interessantes, mas que ao serem executadas no filme rendem uma salada de frutas temática sem foco e pretensiosa, com Ridley Scott conduzindo cenas que chegam a ser enfadonhas, como aquela em que David ensina seu “irmão-androide” Walter (novamente Fassbender) a tocar flauta. Para completar, tudo isso perde espaço quando o roteiro se concentra no confronto entre a tripulação da Covenant e os Aliens, aspecto que talvez seja o principal interesse do filme. No entanto, por mais que Scott tente criar tensão na narrativa, usando até um alto nível de violência em determinadas partes (a cena em que um Alien sai pelas costas de um personagem se destaca nesse sentido), é difícil ficar angustiado com aquela situação tendo em vista que o longa tem em mãos personagens sem personalidade, que por vezes agem de maneira estúpida e são descartados gradualmente sem qualquer impacto. Isso é lamentável principalmente considerando que o elenco tem nomes talentosos como Katherine Waterston, Billy Crudup, Demián Bichir e Carmen Ejogo. E ainda que Michael Fassbender faça algumas coisas interessantes com seu papel duplo de David e Walter, mostrando o fascínio da dupla pelo mundo ao seu redor, é irritante que o roteiro aproveite o ator para inserir uma reviravolta que, de tão previsível e batida, pode ser notada quase uma hora antes de ocorrer.

Mesmo chamando atenção quanto a alguns detalhes da origem do xenomorfo que conhecemos lá no primeiro filme, Alien: Covenant tropeça demais nas próprias pernas, querendo lidar com muitas coisas, mas sem saber como. No fim, o que se tem é um longa decepcionante e esquecível, que nem parece ter sido feito pelo mesmo Ridley Scott que iniciou a série há quase 40 anos.



Nota:

sexta-feira, 28 de abril de 2017

Guardiões da Galáxia: Vol. 2

Apesar de contar com personagens que até então não eram os mais populares da vasta galeria que a Marvel tem em mãos, Guardiões da Galáxia encontrou sucesso ao apostar em um humor irreverente que, somado ao carisma de seu grupo de heróis e a riqueza de seu universo cósmico, o tornou uma das grandes surpresas entre os filmes produzidos pelo estúdio. Naturalmente, o filme chegava ao fim deixando a vontade de reencontrar aquelas figuras em novas aventuras, o que finalmente ocorre neste Guardiões da Galáxia: Vol. 2, que felizmente consegue fazer a fórmula do primeiro exemplar funcionar novamente.

Com James Gunn assinando mais uma vez o roteiro e a direção, Guardiões da Galáxia 2 coloca Peter Quill (Chris Pratt), Gamora (Zoe Saldana), Drax (Dave Bautista), Rocket (voz de Bradley Cooper) e o pequeno Groot (voz de Vin Diesel) encarando o surgimento de Ego (Kurt Russell, sempre uma presença interessante), o pai de Peter. Mas enquanto conhecem novos aliados, lidam com antigos antagonistas e descobrem mais detalhes sobre a natureza de seu líder, os Guardiões ainda se veem sendo perseguidos pelos Soberanos liderados por Ayesha (Elizabeth Debicki), que querem o fim dos heróis devido a contas mal acertadas.

A partir disso, James Gunn forma a base para repetir o que havia feito no primeiro filme, de maneira que este novo longa tem as mesmas qualidades e também os mesmos problemas de antes. Sendo assim, o roteiro recorre muito para diálogos expositivos (às vezes longos demais) para estabelecer coisas importantes, enquanto que algumas piadas soam um tanto forçadas e bobas, o que não deixa de ser natural considerando a grande quantidade delas (seria uma surpresa se todas fossem eficazes). Para a sorte de Gunn, o humor irreverente que ele volta a impor ainda funciona na maior parte do tempo com suas gags, sendo algo que o diretor preza a ponto de parar o filme apenas para poder fazer uma série de piadas, como quando Yondu (Michael Rooker) e Rocket têm falhas de comunicação com Groot (um dos momentos mais divertidos do filme).


Se esse quesito trata de levar o espectador constantemente ao riso, o trabalho de design de produção e de maquiagem concebe aquele universo e seus habitantes com uma diversidade fascinante, desde o império dos Soberanos, um povo com uma adoração pelo dourado, até o planeta de Ego e os membros bizarros da tripulação de Yondu. Aliás, é curioso notar como todos esses elementos constroem uma identidade bem particular do universo dos Guardiões da Galáxia no cinema, de forma que é até uma surpresa que, no fim das contas, o longa faça parte da mesma franquia que heróis como Homem de Ferro, Capitão América, Thor e Hulk, detalhe que o roteiro lembra pontualmente.

Enquanto isso, mesmo desenvolvendo uma história muito grande, James Gunn nunca perde de vista a chance de se aprofundar nos personagens e nas relações entre eles, criando momentos mais intimistas em meio à trama e que, por vezes, tocam o espectador com sua surpreendente sensibilidade, como a breve cena em que Peter e Ego brincam com uma bola. Para completar, Gunn é hábil na condução das sequências de ação, que divertem e exibem uma energia contagiante (a abertura com a dança de Groot em um momento caótico é um dos melhores exemplos disso), conseguindo também envolver o público por contar com personagens com os quais nos importamos. Nesse ponto, o carisma de atores como Chris Pratt, Zoe Saldana, Dave Bautista e Michael Rooker (sem dúvida um dos grandes destaques) se revela essencial, com eles ganhando a chance de humanizar um pouco mais seus personagens e exibindo no processo uma segurança maior nos papeis.


Embalado por canções tão boas quanto as do primeiro filme e encerrando com aquele que é desde já um dos momentos mais belos da franquia do universo Marvel, Guardiões da Galáxia 2 é uma continuação que usa a máxima do “em time que está ganhando não se mexe” a favor da narrativa, sabendo usar isso para ficar no mesmo nível de seu já admirável antecessor.

Obs.: Há nada mais, nada menos que cinco cenas durante os créditos finais.

Nota:

quinta-feira, 13 de abril de 2017

Velozes & Furiosos 8

Apesar de não ser uma franquia particularmente consistente, mesclando exemplares divertidos com outros mais irregulares, é no mínimo curioso (para não dizer insano) notar a evolução de Velozes & Furiosos ao longo de seus pouco mais de 15 anos de existência. Se no início a série apresentava tramas policiais situadas no submundo das corridas clandestinas, mais tarde ela entrou no ramo dos heist movies (quando um grupo se organiza para realizar um roubo), apenas para hoje ser uma espécie de filhote de Missão Impossível. Tudo isso mantendo sua natureza motorizada, enquanto que a escala de produção e o nível de absurdo foram aumentando gradualmente. Esses dois últimos detalhes chegam ao ápice neste Velozes & Furiosos 8, um longa que podemos classificar como sem noção, algo que até contribui para que ele seja uma diversão eficiente.

Escrito pelo mesmo Chris Morgan que assumiu os roteiros da franquia a partir do terceiro filme, Velozes & Furiosos 8 mostra Dominic Toretto (Vin Diesel) em lua de mel com sua amada Letty (Michelle Rodriguez), finalmente vivendo em paz. Mas isso muda quando a ciberterrorista Cipher (Charlize Theron) surge em seu caminho, obrigando-o a trair seus ideais e sua família para ajuda-la em seus crimes ao redor do mundo e que podem iniciar uma guerra (quem imaginaria esse tipo de coisa lá no primeiro exemplar da franquia?). Cai no colo de Hobbs (Dwayne Johnson) e da equipe habitual de Dom impedir que os planos de Cipher com o herói cooptado se concretizem, sendo que para isso o grupo ainda ganha o auxílio de velhos antagonistas e do Sr. Ninguém (Kurt Russell).

Trazendo um novo diretor para a franquia ao ir parar nas mãos de F. Gary Gray (o mesmo do ótimo Straight Outta Compton e que também é o responsável pelo belo remake de Uma Saída de Mestre, que tem elementos em comum com Velozes & Furiosos), este oitavo capítulo não deixa de seguir a fórmula que a série estabeleceu para si mesma nos últimos exemplares, conseguindo apresentar dentro disso uma narrativa que abraça com muito gosto os absurdos que surgem na tela, por mais idiotas que possam ser. E quando achamos que isso chegou no limite, o longa dá um jeito de se superar um pouco mais. É desse jeito que se forma a diversão que ele proporciona durante suas mais de duas horas de duração, trazendo momentos que causam risos por serem inacreditáveis, seja a fuga da prisão que ocorre no início do segundo ato (e na qual Dwayne Johnson mostra o quanto se diverte com a força bruta de Hobbs) ou o suicídio coletivo cometido por carros (você leu isso certo), sem falar na sequência final situada em um infinito canal congelado, local que parece desafiar a infinita pista de decolagem vista no sexto filme. Nisso, F. Gary Gray merece créditos por comandar a ação de maneira ágil e conseguindo injetar energia o suficiente para prender a atenção do público durante a maior parte do tempo.


No entanto, ainda que Velozes & Furiosos 8 divirta com todos esses elementos, há de se ressaltar que em determinados momentos a estupidez inerente da narrativa simplesmente testa a paciência do público. Se por um lado a descaracterização de alguns personagens feita pelo roteiro acaba funcionando para o que o filme quer fazer, por outro ele ainda aposta em frases de efeito e diálogos bobos (“Cipher é um ato digital de Deus”, “Eu vou te bater como um tambor cherokee”) enquanto desenvolve uma trama que quer surpreender, mas sem ter a competência ou criatividade para isso, como comprovam algumas reviravoltas pontuais, sendo que aquela envolvendo o retorno de um personagem no terceiro ato chega a irritar em sua tentativa óbvia e mal feita de enganar o público.

Enquanto isso, o elenco liderado por Vin Diesel volta a exibir uma boa dinâmica tanto como equipe quanto como família, algo que o roteiro preza bastante e, por isso mesmo, põe à prova ao longo da história. É um ponto que até rende momentos interessantes, como aquele em que vários cabos tentam prender o protagonista, tentando trazê-lo de volta para o lado do bem, ou o outro no qual ele encontra pessoalmente o motivo de sua aliança com Cipher, cena que deve ser a mais dramaticamente eficaz de toda a série. Aliás, falando na vilã, Charlize Theron cria uma figura que faz questão de mostrar o prazer que sente em ser uma canalha, além de surgir como uma ameaça palpável para os heróis e obrigando-os a se superarem para detê-la.


Mesmo não fazendo nada de muito diferente dentro do que a franquia tem apresentado, Velozes & Furiosos 8 funciona bem como entretenimento, sendo uma possível constatação de que os realizadores encontraram um caminho mais satisfatório para a diversão ao não temerem assumir o lado ridículo da narrativa.

Nota:

quinta-feira, 30 de março de 2017

A Vigilante do Amanhã: Ghost in the Shell

Adaptação do mangá de Masamune Shirow, O Fantasma do Futuro organizava uma narrativa complexa que encantava com suas discussões envolvendo tecnologia e natureza humana, ao mesmo tempo em que desenvolvia uma trama policial e política envolvente com seus personagens. Trata-se de um filme rico em vários aspectos, trazendo um conteúdo que dialoga muito bem com obras como Blade Runner e RoboCop (o primeiro certamente foi uma de suas principais inspirações). É um material que não deixa de ter um bom potencial para render outras produções interessantes, algo que este remake, A Vigilante do Amanhã, parece compreender. Mas os esforços deste novo longa em repetir o sucesso de seu original não chegam a render uma obra tão boa quanto poderia.

Situado em um futuro próximo, A Vigilante do Amanhã segue Major (Scarlett Johansson), que após um acidente torna-se a primeira pessoa a ser transferida para um corpo cibernético, em um experimento realizado pela Dra. Ouélet (uma Juliette Binoche pouco aproveitada), ganhando habilidades sobre-humanas. Trabalhando com a força-tarefa conhecida como Seção 9, liderada por Daisuke Aramaki (Takeshi Kitano), Major se concentra em perseguir e prender terroristas. Com a ajuda de seu parceiro Batou (Pilou Asbæk), ela passa a investigar um criminoso (Michael Pitt) capaz de hackear as mentes das pessoas através da rede que as mantém interconectadas, sendo que ela ainda encara segredos sobre seu passado que a fazem questionar sua própria natureza.

Inicialmente, a impressão que o filme passa é a de que seguirá mais ou menos à risca aquilo que foi feito na animação original, como se vê nos créditos iniciais que surgem enquanto o corpo de Major é construído ou na sequência em que a protagonista salta de um prédio e se camufla para atacar seus alvos. Logo, porém, o roteiro (escrito por Jamie Moss e William Wheeler em parceria com Ehren Krueger) sai dessa linha, fazendo modificações e tentando seguir seu próprio caminho enquanto busca manter a essência de seu material. Nisso, até vemos pontualmente certas discussões envolvendo a relação da humanidade com a tecnologia avançada, com foco principalmente em questões existenciais quanto ao que nos torna humanos e se isso não seria afetado de alguma forma por aprimoramentos robóticos. E quando alguém diz que Major é o que todos serão um dia, é notável ver a atenção que o diretor Rupert Sanders (o mesmo do fraco Branca de Neve e o Caçador) dá para a solidão da personagem, dando um tom melancólico para o sentimento de deslocamento dela e para a possibilidade disso se espalhar pela sociedade.


No entanto, apesar de o filme apresentar um universo rico (por mais que sua concepção grite “Blade Runner” várias vezes, seja no visual com grandes outdoors holográficos ou no uso de memórias implantadas), essas ideias trazidas por ele não ganham muito aprofundamento, sendo também uma pena que tudo seja embalado por uma narrativa sem energia durante a maior parte do tempo, o que dificulta seus esforços para envolver o espectador. É algo que atinge não só o desenvolvimento da trama, mas também as próprias sequências de ação, quesito no qual Rupert Sanders parece mais preocupado em criar grandes momentos em câmera lenta do que em conceber cenas empolgantes com sua protagonista e as habilidades dela, que no fim são utilizadas de maneira burocrática, pouco imaginativa. Aliás, falando em Major, vale dizer que Scarlett Johansson volta a criar uma heroína de ação forte, trabalhando bem a humanidade da personagem e suas dúvidas quanto ao que realmente é (o pequeno susto que ela leva ao ser abraçada em determinado momento é um toque curioso nesse sentido), ainda que o papel se encaixasse melhor em uma atriz asiática.

Mesmo trazendo elementos interessantes em seu cerne, A Vigilante do Amanhã é um remake que não chega a realmente justificar sua existência, deixando ao final da projeção o sentimento de que pouco acrescentou ao que foi feito pelo anime original há cerca de 20 anos.


Nota:

domingo, 26 de março de 2017

Power Rangers

Ao longo de Power Rangers, novo longa baseado na famosa série de TV da década de 1990, me vi um tanto que dividido. De um lado estava o profissional crítico de cinema que assistia ao filme e, ao analisá-lo, não conseguia fechar os olhos para seus problemas. Do outro, estava a criança que cresceu acompanhando aquele universo efusivamente e sentia prazer em revê-lo. De certa forma, ambos saíram do cinema em conflito enquanto debatiam suas impressões com relação àquilo que viram na telona.

Mas para que este texto possa ser justo com a obra, acredito que as palavras a seguir terão que vir do crítico.

Escrito por John Gatins a partir do argumento concebido por Matt Sazama e Burk Sharpless em parceria com o casal Michele Mulroney e Kieran Mulroney, este novo Power Rangers segue o grupo formado por Jason (Dacre Montgomery), Kimberly (Naomi Scott), Zack (Ludi Lin), Trini (Becky G.) e Billy (RJ Cyler), jovens que encontram cinco pedras depois que este último resolve explodir parte de uma mina. Mas além de darem poderes a eles, as pedras ainda os colocam diante de Alpha 5 (voz de Bill Hader) e seu líder Zordon (Bryan Cranston), que passam a treiná-los para que eles sejam os grandes protetores da Terra, conhecidos como Power Rangers. Isso se revela mais do que necessário depois que a maléfica Rita Repulsa (Elizabeth Banks) desperta e dá início ao seu plano de destruir o planeta.

Trata-se basicamente da mesma história que iniciou a série há quase 25 anos, com a diferença de que rapidamente podemos ver que o diretor Dean Israelite (o mesmo de Projeto Almanaque, que não vi) busca criar uma narrativa com um tom mais sério, se afastando da abordagem mais espalhafatosa e infantil que a série tinha. Isso vem até como um reflexo do próprio roteiro, que se esforça para desenvolver dramas pessoais para os heróis, de forma a torna-los humanos e interessantes, exibindo no processo inspirações claras em Clube dos Cinco. Mas o filme não se sai tão bem nessa tarefa quanto poderia, tratando esses conflitos superficialmente e mostrando, em alguns casos, que não está muito interessado em resolvê-los. Para completar, o roteiro abusa dos diálogos expositivos para estabelecer a premissa e os personagens, algo que fica óbvio na cena em que os Rangers se reúnem envolta de uma fogueira ou no primeiro encontro deles com Zordon, além de a trama ser desenvolvida de maneira forçada, seja por Rita convenientemente ser encontrada assim que os heróis descobrem as pedras ou por estes, em questão de poucos dias, irem de completos desconhecidos a amigos que dariam a vida uns pelos outros, o que não soa muito autêntico.


Enquanto isso, as cenas de ação são dirigidas por Dean Israelite de maneira pouco imaginativa e sem graça, com o realizador não conseguindo injetar energia nos confrontos, que na maior parte do tempo consistem em colocar os Rangers lutando com pilhas de pedras (é assim que podemos definir o design dos monstrinhos de Rita). E se inicialmente o diretor busca uma abordagem mais densa que a da série de TV, isso é jogado para o espaço no terceiro ato, que não só inclui uma batalha que destrói parte de uma cidade sem se importar muito com os civis (detalhe típico do material original) como ainda conta com uma cena envolvendo câmeras de celular que parece não notar o quão ridícula realmente é.

Já o jovem elenco de Rangers faz o que pode com seus personagens, exibindo algum carisma e tendo uma dinâmica até interessante, por mais que a amizade entre eles não se desenvolva com naturalidade. E se o Alpha 5 dublado por Bill Hader causa algumas risadas, Bryan Cranston é desperdiçado como Zordon, que aqui fica longe de ser um personagem digno do talento do ator. Já Elizabeth Banks se diverte no papel de Rita Repulsa, compondo-a como uma figura um tanto bizarra, mas ainda assim trata-se de uma vilã que nunca deixa de parecer subdesenvolvida.


Somando a tudo isso referências que devem fazer fãs da série de TV sorrirem (“É hora de morfar!”, “Faça meu monstro crescer!”) e outras que soam totalmente deslocadas (a música-tema que toca em determinado momento), Power Rangers até funciona melhor que os dois filmes lançados na década de 1990. Uma pena, porém, que ele não consiga superar seus pontos fracos, que o impedem de se estabelecer como um entretenimento realmente eficiente.

Obs.: Há uma cena durante os créditos finais.

Nota: