quarta-feira, 19 de julho de 2017

Transformers: O Último Cavaleiro

Transformers é uma franquia impressionante, mas pelos motivos errados. Apesar de já estar completando dez anos nos cinemas, a única coisa memorável que ela tem conseguido mostrar com seus filmes é a estupidez profunda que os permeia, sendo até ofensivo acompanhar o quanto eles subestimam a inteligência do público, como se este fosse tão estúpido quanto. E o diretor Michael Bay e sua equipe pelo visto sentem prazer em abordar o material dessa forma, trazendo sempre a mesma fórmula. Sendo assim, não é surpresa alguma constatar que este Transformers: O Último Cavaleiro, o quinto exemplar da série, simplesmente é mais do mesmo. Ou seja, uma longa tortura.

Assim como seus antecessores, Transformers 5 já começa jogando no lixo qualquer coerência envolvendo a linha temporal da série, revelando que os robôs alienígenas tiveram participação até nas batalhas da Inglaterra nos anos 400, quando formaram uma aliança com o Rei Arthur, Lancelot e Merlin. Já nos tempos atuais, Cade Yeager (Mark Wahlberg) continua sendo um fiel aliado dos Autobots e, após um confronto no qual passa a ter a ajuda da jovem Izabella (Isabela Moner), se vê em posse de um importante talismã referente àqueles velhos tempos da história, objeto que chama a atenção tanto dos maléficos Decepticons quanto do historiador Edmund Burton (Anthony Hopkins). Enquanto isso, Optimus Prime ainda está em busca de seus criadores, se deparando com Quintessa, entidade que conspira destruir a Terra para restaurar Cybertron, o lar dos Transformers.


O que Transformers 5 apresenta ao longo da projeção é simplesmente ridículo, e o mais triste é que Michael Bay parece não perceber isso ou só não se importa, levando a sério o material que tem em mãos e despejando uma série de idiotices no espectador à medida que avançamos na trama. Isso vai desde as ligações antigas dos Transformers com os humanos (é risível que alguém tenha achado que envolver Merlin e Rei Arthur foi uma boa ideia) até a subtrama romântica óbvia e forçada entre Cade e a professora Viviane Wembly (Laura Haddock), passando por cenas constrangedoras como aquela em que o protagonista é questionado por não fazer sexo há algum tempo.

Aliás, o desenvolvimento da trama (se é que podemos chama-la desse jeito) é uma bagunça tremenda, trazendo diálogos pavorosamente expositivos. Logo no início, por exemplo, temos uma narração que trata de estabelecer os principais pontos que acompanharemos, denotando a preguiça dos roteiristas em apostar num desenrolar mais orgânico (não à toa ela é descartada após cumprir seu papel), ao passo que em outros momentos vemos os personagens falando detalhadamente o que irão fazer. E nem sei o que dizer sobre cenas como aquela em que Merlin está claramente bêbado e diz “Deus! Estou embriagado!”. Além disso, o filme traz vários personagens e núcleos narrativos, mas os desenvolve tropegamente, sendo que alguns (como a participação do Agente Simmons, interpretado por John Turturro) poderiam muito bem ter sido cortados para encurtar o desastre.


Mas talvez eu esteja exigindo muito ao querer que Michael Bay conceba algo minimamente consistente nesses aspectos, já que tudo isso pode ser apenas uma desculpa para que se tenha um palco para as sequências de ação. No entanto, de nada isso adianta quando o cineasta basicamente é o rei de criar um verdadeiro caos visual em cena, com rápidos movimentos de câmera e uma montagem picotada que tornam a ação simplesmente incompreensível e entediante, de forma que é inacreditável que tenham sido necessários seis montadores para as coisas ficarem desse jeito. Para completar, o filme não conta com um único personagem com o qual possamos nos importar, já que todos não passam de figuras unidimensionais que desperdiçam o talento de atores como Mark Wahlberg e Anthony Hopkins. Assim, a narrativa não tem peso algum em meio a suas enormes explosões (marcas registradas de Michael Bay), que no fim são apenas sinais da bomba que o filme realmente é.

Há um momento genuinamente engraçado em Transformers 5, quando Michael Bay usa o Transformer-mordomo de Edmund Burton para fazer uma brincadeira com a trilha do filme. Mas essa rara sacada divertida dura meros segundos, não fazendo com que o resto das duas horas e meia de projeção sejam suportáveis ou passem mais rápido. A verdade é que estamos falando de um longa que só existe por conta de seu apelo comercial, porque como narrativa ele apenas estende uma franquia sofrível, que parece determinada a fazer com que cada um de seus exemplares seja um atentado a arte cinematográfica.

Nota:

quinta-feira, 6 de julho de 2017

Homem-Aranha: De Volta ao Lar

Apresentada em Capitão América: Guerra Civil, a nova versão do Homem-Aranha nos cinemas (a terceira depois daquelas de Tobey Maguire e Andrew Garfield) mostrou ser uma figura divertida e cheia de energia, estabelecendo-se como um elemento de destaque naquele ótimo longa lotado de super-heróis. Diversão, aliás, é a palavra-chave deste Homem-Aranha: De Volta ao Lar, novo filme-solo do personagem e que traz uma narrativa disposta a fazer jus ao que o herói apresentou naquela breve participação, conseguindo ser uma produção que entretém o espectador imensamente durante toda a projeção.

Com um roteiro que passou pelas mãos de três duplas de roteiristas, Homem-Aranha: De Volta ao Lar retoma a história do jovem Peter Parker (Tom Holland) alguns meses depois de ele ter se metido na briga que os Vingadores tiveram entre si, tentando lidar tanto com sua vida escolar e pessoal quanto com a vida de herói. Nisso, ele se esforça ao máximo para provar seu valor a Tony Stark (Robert Downey Jr.), que o mantém sob sua supervisão. É então que Peter se depara com a ameaça de Adrian Toomes (Michael Keaton), também conhecido como Abutre, que ao lado de sua gangue tem usado utensílios alienígenas da Batalha de Nova York (vista no primeiro Os Vingadores) para cometer crimes.


Assim é colocado nos trilhos um filme que desde o início busca explorar as melhores qualidades de seu protagonista, desde seu senso de humor até sua empolgação juvenil, detalhes que já se estabelecem logo no começo quando vemos um breve documentário que o próprio personagem realizou com seu celular, trazendo sua visão dos acontecimentos em Guerra Civil de maneira muito divertida. E enquanto esses elementos são bem utilizados para criar uma narrativa leve e que rende vários risos, o diretor Jon Watts não esquece de desenvolver a humanidade de Peter Parker, mostrando que ele é um adolescente que está passando por questões comuns do período (seja a vida escolar e seus compromissos ou até o interesse amoroso não correspondido), sendo difícil não notar também a atenção dada a própria humildade do rapaz, que ainda anda de ônibus, frequenta a lojinha da esquina e mora em um apartamento pequeno com sua tia May (Marisa Tomei), figura que ele se esforça para não preocupar. São detalhes pequenos, mas que ajudam o espectador a se aproximar do personagem, além de diferencia-lo bastante da maior parte dos outros heróis do universo do qual faz  parte.


No entanto, se por um lado Jon Watts acerta em cheio no tom da narrativa, na energia que a permeia e no próprio timing das piadas que vão surgindo ao longo do caminho, por outro ele não chega a conduzir cenas de ação particularmente empolgantes. É indubitavelmente divertido ver o Homem-Aranha em ação e Watts até se esforça para criar grandes momentos nesse aspecto (a sequência do elevador em Washington e a outra envolvendo uma barca são as principais), mas é um pouco decepcionante que o diretor aposte na cartilha da montagem picotada e dos rápidos movimentos de câmera, de forma que o resultado na tela acaba sendo confuso, principalmente quando as cenas são situadas à noite, já que a escuridão se torna mais um obstáculo para a compreensão do que está acontecendo. E se digo isso tendo assistido a cópia 2D do filme, imagino que a 3D piore tudo. Por sorte isso não chega a prejudicar gravemente a narrativa, que ainda consegue manter o espectador envolvido com a história e seus personagens durante a maior parte do tempo.


Falando nos personagens, vale dizer que o elenco talentoso faz um belo trabalho com eles. A começar por Tom Holland, que encarna Peter Parker com um carisma impressionante ao mesmo tempo em que mostra como o rapaz simplesmente adora ser o Homem-Aranha, encarando com gosto qualquer tipo de altruísmo que possa exercer, por mais que ainda tenha muito a aprender. O ator também tem uma ótima dinâmica tanto com o expressivo Jacob Batalon (que interpreta Ned, o melhor amigo de Peter) quanto com Jon Favreau (de volta ao papel de Happy Hogan dos longas do Homem de Ferro) e Robert Downey Jr. Este último, por sinal, nunca tenta roubar o filme para si com suas pontuais aparições (que em determinados momentos são verdadeiros deus ex machina). Aqui, Tony Stark assume um natural papel de mentor, mostrando-se genuinamente preocupado em fazer de Peter um super-herói melhor que ele. E se Marisa Tomei tem uma presença simpática e vivaz como a tia May, apesar de não ter muito espaço para desenvolvê-la (tomara que isso seja corrigido futuramente), Michael Keaton cria em Adrian Toomes um vilão que já se coloca entre os melhores desse universo da Marvel, se destacando não tanto pela ameaça que representa, mas sim por ter motivações plenamente compreensíveis e surpreendentemente dignas, revelando-se um indivíduo que se revolta por ver os poderosos sempre jogando os menos afortunados para baixo e que quer cuidar de sua família de qualquer jeito.

Este novo Homem-Aranha dos cinemas encanta o público com certa facilidade. Até por isso é bom vê-lo render um filme eficiente como este Homem-Aranha: De Volta ao Lar, que aproveita admiravelmente o potencial do personagem que tem em mãos e já nos deixa curiosos quanto a suas futuras aventuras.

Obs.: Há cenas durante e depois dos créditos finais.

Nota: